Rayman: 30th Anniversary Edition é um exemplo imperfeito para a indústria
Game traz de volta ícone da Ubisoft, mas não com toda a glória possível
Trinta anos. Essa é a idade do maior ícone da francesa Ubisoft, o pequeno aventureiro sem braços e nem pernas capaz de socar seus adversários e andar por ambientes mágicos. Rayman é um personagem que, mesmo sendo mais velho do que eu, marcou minha infância, com destaque para Rayman 2: The Great Escape e Rayman 3: Hoodlum Havoc.
Entretanto, o título que transformou o estúdio francês em um grande player do emergente mercado de videogames foi o jogo homônimo ao personagem. Rayman, de 1991, foi um sucesso completo, o que é curioso quando lembramos que ele é 2D no console conhecido pela revolução do 3D. Isso mostra que quando a ideia é boa e o cenário é favorável, simplesmente as coisas vão dar certo, contra tudo e todos. Para comemorar tal data, a Ubisoft abriu a geladeira onde enfiou o personagem, que não recebe títulos inéditos há 13 anos, e entregou uma simplória, porém bela homenagem.
Rayman: 30th Anniversary Edition é uma edição que compila as 5 versões do título original lançadas para MS-DOS, PlayStation, Atari Jaguar, Game Boy Color e Game Boy Advance, totalizando 120 fases. Junto a isso, também está disponível o protótipo, considerado por muito tempo perdido, que foi apresentado para Yves Guillemot antes dele viabilizar o projeto.
Pensando de um aspecto de preservação de mídia, a iniciativa é muito bem-vinda. Apesar dos esforços da loja digital GOG, poucas empresas se importam com essa questão, o que nos leva a um dado assustador: 9 em cada 10 jogos clássicos lançados nos Estados Unidos estão praticamente perdidos para sempre, segundo o Video Game History Foundation.
Isso também afeta jogos modernos, como o caso de Metal Gear Solid IV: Guns of the Patriots, que ficou preso no PS3 por 18 longos anos. As únicas formas de jogá-lo eram pagando uma fortuna por um console e uma cópia física, ou apelando para a pirataria. Ou seja, nenhuma das duas formas é conveniente para os jogadores. A comoção foi gigantesca quando a Konami anunciou que o título seria lançado para plataformas atuais em agosto deste ano por meio da Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2.
Assim, Rayman: 30th Anniversary Edition se torna uma das melhores opções para experienciar o clássico, por conta de algumas adições que fazem a diferença. Veja, o primeiro Rayman é um produto do seu tempo. Ainda que seus visuais continuem absolutamente incríveis, a jogabilidade é rudimentar demais, principalmente para o padrão atual da indústria e do gênero de plataforma. Alguns diriam até que o gameplay “envelheceu mal”.
Para tornar a aventura menos frustrante, as versões de PS1 e PC ganharam alguns aprimoramentos (ou trapaças). O jogador pode ativar vidas e continues infinitos, HP máximo e desbloquear logo de cara todos os níveis e habilidades. Além disso, todas as versões contam com uma habilidade de retroceder o tempo, corrigindo erros que podem atrapalhar a partida inteira.
Essas facilitações são opcionais, mas eu ativei logo de cara os continues infinitos e usei o “rebobinar” como se fosse uma mecânica base do jogo. Pode parecer frescura, mas desde sempre Rayman é conhecido como um jogo difícil e, para a época, isso era comum. Muitos títulos tinham que durar bastante tempo, já que eram caros e não havia tantas opções assim no mercado, e o conhecimento de game design era limitado, o que fazia com que alguns desenvolvedores errassem a curva de dificuldade.
Essas opções chegam como uma forma moderna de apreciar os games sem mexer na estrutura do original. Pena que não dá pra dizer isso de um outro aspecto crucial dos games: a trilha sonora.
A composição de Rémi Gazel foi tão marcante que fez com que os fãs (incluindo eu) se revoltassem quando descobriram que a Ubisoft substituiu por uma “reimaginação” feita por Christophe Héral, o mesmo de Rayman Origins e Legends. Não é que a nova trilha não seja boa, mas sim que não é a original. Se a empresa está vendendo o game como uma nova oportunidade de jogar os Raymans clássicos novamente, é inaceitável que algo tão essencial seja alterado. Não ficou claro se o problema é relacionado a direitos autorais ou licenciamentos, mas é estranho pensar que eles não perceberam que seria uma má ideia.
Se a Ubisoft tivesse lançado apenas isso como comemoração, seria um escárnio com seu grande mascote. Felizmente, há outra adição que torna essa versão bastante especial.
Na mesma linha de The Making of Karateka e Llamasoft: The Jeff Minter Story, Rayman: 30th Anniversary Edition é também um documentário interativo. Por meio de textos, imagens, esboços e entrevistas, acompanhamos a história de Michel Ancel, Frédéric Houde e seus companheiros criando um jogo que desafiava padrões e revolucionava o mercado, tudo isso no meio de um momento crucial para a indústria: o nascimento do PlayStation.
Em certos momentos, a narrativa fica um pouco confusa, já que as entrevistas falam de informações que demoram um pouco para serem mostradas por meio de textos e documentos, mas as coisas vão se encaixando com o tempo. Muitas das dificuldades enfrentadas pela equipe da Ubi Pictures (atualmente conhecida como Ubisoft Montpellier) não são muito bem detalhadas. Entretanto, é um prato cheio para os fãs.
Um momento que me impressionou foi quando Frédéric falava sobre a bíblia do game, sendo um documento que dita todas as bases e regras do desenvolvimento muito usado pela equipe como norte da produção. O documento está presente no jogo na íntegra e, melhor que isso, completamente em português. Oitenta e seis páginas traduzidas de um pedaço da história dos videogames, que pode ser explorado por entusiastas e por estudantes.
Esse é o tipo de carinho que Rayman merecia, mas ainda sinto ser pouco. As novas gerações podem não saber, mas se a Ubisoft chegou onde está — ou estava, considerando acontecimentos recentes — muito se deve ao carismático personagem desprovido de braços e pernas. Chega a ser absurdo pensar que estamos há quase 15 anos sem um título inédito, com a Ubisoft Montpellier tendo metade da sua equipe realocada após um jogo de sucesso não dar certo comercialmente por decisões que não os cabia. Isso sem falar no inferno de desenvolvimento que a outra metade está por conta de Beyond Good And Evil 2.
E estamos falando da empresa que investiu pesado no mercado de NFTs, com o Ubisoft Quartz, perdeu seu DNA criativo ao focar em sequências anuais de jogos seguindo uma fórmula de bolo batida e deixou de lado grandes franquias por não acreditar no potencial financeiro delas. Quando olhamos para a Ubisoft atual, vemos uma empresa desesperada, com medo de fechar, tendo que vender parte de suas franquias para a Tencent, reestruturando completamente sua operação, oferecendo demissões voluntárias, fechando estúdios e cancelando projetos.
Olhando pra tudo isso, é praticamente um milagre que Rayman: 30th Anniversary Edition exista, mesmo com sua precificação exagerada e seu DRM (que contradiz bastante a ideia de preservação). Estamos nos contentando com pouco, mas é melhor do que isso que reclamar que não tem nada na mesa.
Rayman: 30th Anniversary Edition
Rayman: 30th Anniversary Edition