Pragmata abraça proposta esquisita, mas saborosa
Sistemas de gameplay únicos se unem a uma história surpreendentemente sensível
A máxima de que uma boa ideia precisa de tempo para ser desenvolvida vai de encontro com a indústria dos games: normalmente, os jogos que levam anos demais pra saírem do papel estão envolvidos em problemas, e o produto final quase sempre é uma sombra daquilo que foi prometido ou idealizado. Pragmata talvez seja a exceção que confirma a regra. Reforçando a fase “experimental” da Capcom, o título une personagens excelentes com um combate único, provando que sempre há salvação para o inferno de desenvolvimento.
É bem provável que os vários adiamentos e os longos tempos de silêncio a respeito do jogo tenham sido justamente para afinar sua gameplay peculiar. Assim como Kunitsu-Gami, Pragmata é mais um caso de proposta complexa, mas que não demora a fazer sentido uma vez que o controle está nas suas mãos — e já que o game ainda não foi lançado, é meio que obrigatório explicar como ele funciona.
Em sua essência, Pragmata é um shooter em terceira pessoa; o segredo está na mecânica de hackear os inimigos. Para que os tiros de Hugh tenham algum efeito, é necessário que Diana passe pelos sistemas de segurança dos adversários, abrindo suas defesas. Essa ação é realizada por uma matriz, uma grade em que o jogador precisa levar o cursor do Ponto A ao Ponto B, e os comandos direcionais são triângulo, quadrado, bolinha e xis para PlayStation, e Y, X, B e A no Xbox.
O detalhe é que a ação não para enquanto se está hackeando, obrigando o jogador a se posicionar bem para iniciar o processo. Há algumas outras complicações adicionais, como nódulos bloqueados, que dificultam o caminho pela matriz, e até alguns que reiniciam o hackeamento por completo. Por outro lado, também é possível turbinar os poderes de Diana com nódulos de paralisia, hackeamento múltiplo e mais.
Em meio a essa gameplay naturalmente frenética, faz bastante sentido que o jogo encontre várias formas de respirar: na jogabilidade, é possível voltar para um abrigo seguro com bastante frequência, aproveitando para melhorar suas habilidades e admirar os colecionáveis que foram encontrados; na trilha, faixas sutis se alternam com eletrônicos à la Tron: O Legado; no enredo, uma história simples e contemplativa, que prefere gastar seu tempo com aprofundamento da dupla protagonista do que com uma sequência maluca de eventos.
Hugh é funcionário da Delphi, empresa que realiza pesquisas científicas na Lua. Ele e sua equipe chegam à estação de trabalho e se surpreendem ao encontrá-la totalmente vazia. Não demora para que o resto de seu time seja vítima das misteriosas catástrofes que estão acontecendo por lá; o próprio Hugh não escapa delas, e é encontrado desacordado por uma garotinha misteriosa, que cura suas feridas e o acorda com um tapão.
DI-0336-7 é uma Pragmata, androide que usa tecnologia de ponta e tem aparência humana, mas não deixa de ser um computador. Apesar de mal terem se conhecido, a dupla compartilha o interesse de escapar da base lunar e ir para a Terra — Hugh para reencontrar sua família, e a recém-nomeada Diana para matar a curiosidade de como é o planeta.
Ao longo dessa jornada, os dois entendem aos poucos o que causou a derrocada da Delphi e descobrem as origens do projeto Pragmata, mas toda essa trama sci-fi fica pequena perto da relação dos dois.
Ainda que seja um robô inteligentíssimo, Diana é inocente quando o tema é interações humanas, e ainda que boa parte de sua evolução nesse ponto venha com os ensinamentos de Hugh, sua sensibilidade vai surpreender ao jogador e ao soldado em vários momentos da campanha.
Sim, Pragmata é mais um que pode ser colocado na caixinha de “Jogo de Pai Triste", gênero que foi dado para o reboot de God of War, The Last of Us e tantos outros. Ele se diferencia pelos belíssimos cenários lunares, que são aproveitados ao máximo em enquadramentos muito intencionais para deixar qualquer um de queixo caído, e pela proposta diferentona de gameplay.
Ainda que o game use muito bem os dois lados do maniqueísmo calmo/frenético, ater-se tanto a ele pode impedir que ele se arrisque em outros campos. Sequências de puzzle, por exemplo, têm tudo a ver com a ambientação, mas só aparecem uma ou duas vezes; dentro do seu próprio combate, tão criativo e divertido, há pouquíssimo desafio — a dificuldade mais alta, inclusive, só é desbloqueada ao terminar a campanha.
O jogo só se presta a testar o jogador depois de finalizar uma história belíssima, que acaba sendo a única fonte de satisfação. Resolver hackeamentos e enfrentar adversários difíceis seria uma ótima forma de prender o jogador na proposta de complecionismo que vem depois dos créditos rolarem: mais cosméticos, itens e armas são oferecidos, mas vale a pena começar do zero para sentir essa nova endorfina?
O maior argumento a favor desse fator replay é a agilidade da campanha. Por aqui, foram pouco mais de nove horas, sendo no mínimo duas gastas com os circuitos de treinamentos opcionais — que são mais difíceis que a campanha, mas passam longe de divertir como uma batalha épica contra um chefão.
Ainda que imperfeito, Pragmata incorpora totalmente a narrativa de que a excelente posição da Capcom com suas grandes franquias dá espaço para experimentar em outros campos. Dessa vez, essa tese se materializa em algo com maior apelo comercial: mais cinematográfico, com temas mais familiares e, ainda que inovadora, uma gameplay mais compreensível.
No fim, a imperfeição é natural em propostas como essa, mas mesmo com arestas a serem aparadas, Pragmata mostra que existem, sim, inovações possíveis entre estúdios do alto escalão — e precisamos delas mais do que nunca.
Pragmata
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