Call of Duty: Modern Warfare 4 entrega a melhor campanha da franquia em anos | Review
Novo jogo da franquia carregou o peso da responsabilidade e não deixou seus irmãos de guerra para trás
AVISO: Esta review contempla apenas o modo Campanha, visto que o Multiplayer não estava disponível durante o período de testes e o DMZ foi liberado muito próximo à data de publicação.
Todas as vezes que escrevi sobre Modern Warfare 4 no Omelete, citei a responsabilidade que o título carrega. Call of Duty tem passado por um período complicado em relação ao desempenho com a crítica, com o público e até mesmo comercial, visto que Black Ops 7 performou bem abaixo do esperado nos três aspectos citados. Assim, ficou a cargo da Infinity Ward “arrumar a casa” e restaurar o agora abalado status da franquia.
- Call of Duty: Modern Warfare 4 | Desenvolvedores abrem o jogo sobre fim da franquia
- Call of Duty: Modern Warfare 4 impressiona no Nintendo Switch 2 | Jogamos
O timing não poderia ser melhor, visto que seu próximo jogo era o aguardadíssimo encerramento da série Modern Warfare. O terceiro jogo da saga de remakes, lançado em 2023, deixou um gancho narrativo após ter mudado significativamente a história da trilogia original, levando à conclusão da trama do Capitão Price para um capítulo completamente inédito.
Com bastante felicidade e alívio, compartilho que, ao ver os créditos subirem, meu estado psicológico era de satisfação. Felicidade pela alta qualidade do que pude experienciar por aproximadamente sete horas. Alívio por perceber que a franquia está finalmente voltando aos trilhos.
Antes de fazer carinho, peço licença para bater em Call of Duty: Modern Warfare 4 da forma que ele merece. A recapitulação dos três games anteriores, presente como primeira opção do menu inicial, é completamente irrisória. Não dá nem mesmo para dizer que é um en passant, isso considerando o quão poucas informações relevantes foram relembradas durante os dois minutos de vídeo. Pouquíssimo convidativa para novos jogadores e nada amigável para fãs com problemas de memória.
Ainda que não tenha se esforçado em refrescar alguns fatos importantes para uma compreensão absoluta da trama, a campanha consegue colocar o jogador por dentro de seus dois núcleos narrativos principais rapidamente.
A história acompanha de forma não linear dois protagonistas: Capitão Price, disposto a abraçar o inferno caso isso lhe conceda sua tão desejada vingança, e Park Hyun-Jun, soldado sul-coreano que é pego de surpresa por um gigantesco ataque ao seu país promovido pela Coreia do Norte. A narrativa alterna entre os dois com frequência, mostrando como as ações de Price foram direta e indiretamente responsáveis pelo caos vivido por Park.
A Infinity Ward, buscando não desperdiçar um único e precioso segundo, já tira Makarov do caminho e abre espaço para um novo antagonista, o Arqueiro. Admito não ter escondido minha felicidade quando foi anunciado que o ator dinamarquês Mads Mikkelsen foi escolhido para interpretar o vilão, assim como admito ter ficado decepcionado com o resultado final. Não me entenda mal, Mads está perfeito, assim como em todos os seus trabalhos, mas seu tempo pífio de tela me fez questionar se o investimento valeu a pena. Só não digo que me sinto enganado por achar que seria uma hipérbole desmedida.
Inclusive, a perspectiva de Price parece um pouco corrida de forma geral, mesmo se passando em um espaço de cinco dias. Todo o arco com Valeria Garza é apresentado de forma tão atropelada e sem tempo de respiro que passa a sensação de ocorrer em apenas 24 horas. Isso transmite uma impressão de pouca relevância individual dos acontecimentos, exatamente o oposto do que ocorre quando visto sob uma ótica narrativa mais ampla.
Embora o mesmo não ocorra no lado de Park, há um outro incômodo relacionado. Vários títulos da franquia Call of Duty flertam com o rompimento da idealização dos Estados Unidos como propagadores imaculados da democracia ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, buscam não vilanizar países antagônicos, mesmo os apresentando como opositores dessa mesma democracia.
Esse não é o caso de Modern Warfare 4. Os Estados Unidos, como Estado instituído, praticamente não dão as caras, dados os acontecimentos do jogo anterior. Mas a Coreia do Norte é retratada como um país miserável e decadente, comandado por uma sucessão de líderes impiedosos e execráveis. É uma leitura completamente maniqueísta de uma situação política extremamente complexa que perdura há mais de 70 anos. De qualquer forma, não fico surpreso, visto que o governo americano historicamente usa a franquia da Activision como propaganda para jovens se alistarem na força nacional e darem suas vidas para combater inimigos idealizados, como o apresentado aqui no game.
Com minhas maiores ressalvas já esclarecidas, está na hora da rasgação de seda prometida durante a introdução.
Esta é a melhor campanha de Call of Duty em anos. A Infinity Ward fez uma excelente seleção de fases, com cada uma trazendo objetivos, cadência, duração e até recursos únicos. Mesmo que a base de tudo seja o gunfight, os confrontos são singulares e tornam a experiência bastante marcante.
Lidamos com uma invasão aérea de norte-coreanos, perseguimos Makarov no meio de Nova York, cometemos atrocidades contra inocentes, trocamos tiros entre trens em movimento, explodimos tanques com morteiros e dirigimos em alta velocidade pelas ruas de Paris. Esse foi um resumo bastante simplificado das seis primeiras missões da campanha, menos da metade do total.
No meio dessas missões, a desenvolvedora aproveita para introduzir o conceito do modo de extração DMZ, ao apresentar uma fase de mapa aberto, veículos controláveis e uma pegada bem mais stealth que a convencional. É uma estratégia interessante não só para mostrar características específicas do modo, mas também para divulgar o conceito de extraction shooters para jogadores que nunca tiveram contato com um.
A qualidade da campanha não fica apenas na parte do gameplay. A trama como um todo entrega traições, mudanças de lado, confrontos corporais, alianças inesperadas e vários outros artifícios. Mesmo corrida, ela é engajante do começo ao fim, quase sempre criando expectativas e entregando mais do que o esperado.
Os personagens são parte essencial disso. Falar de Price, Ghost e Gaz é chover no molhado, já que se provaram ao longo da franquia serem personagens extremamente carismáticos e assim continuam. Agora, foi de grande satisfação ver a sintonia do Sierra-1, esquadrão de Park Hyun-Jun. Eu realmente me importei com West, Dunn e Jae-Woo, torcendo de dedos cruzados para que todos ficassem vivos ao final de cada missão. É uma conexão pouco trabalhada sob um aspecto íntimo, mas que faz sentido dentro do contexto militar em que estão inseridos, o famoso brothers in arms.
Os aplausos ficam para Lanny Joon e Prisca Kim, respectivamente intérpretes dos personagens Ko Jin Hyuk e Ri Ju-Young. Enquanto o primeiro aproveita a escrita mais sensível de seu personagem para entregar uma atuação relativamente delicada, a segunda consegue trazer um pouco de profundidade para uma figura que foi pensada apenas para ser maldosa e opressora.
Tudo isso, somado à apresentação cinematográfica, que aqui alcança seu ápice visual, e a uma missão final impactante, contribui para a realização da ideia proposta pela campanha de marketing do jogo: uma conclusão épica. Após quase dez anos e vários crimes de guerra cometidos, o Capitão Price pode mais uma vez fumar seu último cigarro e descansar em paz, enquanto os fãs podem dormir tranquilos sabendo que as coisas voltaram ao normal.
Call of Duty: Modern Warfare 4
Call of Duty: Modern Warfare 4
Editar comentário
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?
Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login para comentar e avaliar
Compartilhe sua opinião, publique críticas e participe das discussões com a comunidade Omelete.Escrever comentário