Ace Combat 8: Wings of Theve eleva a franquia a novos ares (Review)
Novo título da série desafia os games clássicos pelo posto de melhor da franquia
Créditos da imagem: Bandai Namco
Entre altos e baixos, a franquia de games de combate aéreo Ace Combat completou seus 30 anos em 2025 em melhor estado do que nos seus 20 anos em 2015. Naquela época, depois do polêmico Assault Horizon e o querido, mas logo descontinuado, Infinity, parecia que os aviões da série estavam destinados a coletar poeira num hangar virtual. Tudo mudou em 2019 com o lançamento mais vendido da série até então, Ace Combat 7: Skies Unknown, um jogo que acompanhou o sucesso comercial com uma boa recepção. Mas, o título de melhor game da saga só veio a ser desafiado agora, com Ace Combat 8: Wings of Theve.
Como qualquer fã de Ace Combat vai te dizer, é a trilogia sagrada do PS2 – 4, 5 e Zero – que tipicamente figura, em alguma ordem, no topo do ranking. Um seguidor mais excêntrico pode elencar o ótimo Ace Combat 3: Electrosphere do PS1, mas o fato é que o mau momento da série deixou os entusiastas mais acostumados a celebrar a mera chegada de um novo AC do que considerar que os ares daqueles tempos poderiam ser, novamente, desbravados. Bom, Wings of Theve não só sugere que ainda há a vida em Ace Combat, como nos permite pensar que seu auge, quem sabe, veio agora.
O tal do viés de recência é perigoso, mas não é exagero dizer que Ace Combat 8 é o melhor jogo dessa linha pelo menos desde Zero em 2006, e sem dúvidas o único pós-PS3/Xbox 360 a desafiar os clássicos pela primeira posição da lista. Combinando uma das mais ambiciosas e bem-executadas narrativas do time da Project Aces até aqui com um gameplay que flutua entre frenesi e precisão e uma apresentação gráfica de cair o queixo, Wings of Theve é um pacote completo. O tipo de produto que pode tanto reacender as chamas no coração de um apaixonado quanto conquistar novos jogadores que, após terminar a extensa campanha de 30 missões do game, se verão prontos para mais.
A campanha de Theve, aliás, começa no meio do mais novo bafafá do mundo Strangereal, o universo levemente fictício destes jogos. No lugar de EUA e Rússia, por exemplo, temos os superpoderosos Osea e Yuktobania. Desta vez, porém, o conflito principal é entre a Federação da Usea Central (FCU) – uma coalizão de nações que serve como a “Europa deste mundo”, digamos – e seus vizinhos em Sotoa, um povo com origens nomádicas que, após um período de secas e dificuldades, decide expandir suas ambições bélicas para o continente ao lado. Na primeira missão, tomamos o controle do protagonista silencioso Ray, o mais novo copiloto do ás conhecido como “Asas de Theve", Jan Cope. De codinome Rex, Cope é o líder do esquadrão Joker, e a principal esperança da FCU em virar a maré contra os rivais.
A questão, nós logo descobrimos, é que Cope nunca atirou em ninguém. Apesar de ser um exímio piloto, todos os seus abates são frutos de uma campanha de marketing cautelosamente construída (com ajuda de IA, claro) pela Enso Order, uma corporação gigante que mistura Amazon e Lockheed Martin, e está, óbvio, interessada em lucrar com a guerra. Antes que possamos nos acostumar com Cope, seu avião é derrubado pelos Shadows, os grandes pilotos de Sotoa, e a liderança do Joker, assim como toda a propaganda associada ao seu agora falecido capitão, cai em nosso colo. As Asas de Theve, afinal, não podem morrer.
Dessa premissa, já é possível entender os tipos de temas que a campanha de AC8 pretende encarar. Aliado a ideias já inseparáveis dessa série, como o custo humano da guerra e a paixão pelo conceito do voo, Wings of Theve aponta o corporativismo e a era da inteligência artificial como novas fronteiras de batalha. A proposta de que não há um “lado certo” nos confrontos armados é uma que Ace Combat sempre levanta, mas que nunca foi tão bem explorada quanto agora. Mesmo quando assumimos o manche e explodimos os caças inimigos de forma triunfante, por exemplo, seguimos assombrados pela certeza de que uma grande parcela da fé depositada em nosso esquadrão foi comprada, e que há bilionários lucrando com isso.
Um dos truques da Enso, por exemplo, é publicar imagens sugerindo que o time Joker é composto por mais do que quatro aeronaves. Na prática, Ray assume o codinome Rex e passa a ser o capitão, voando ao lado do veterano Ellington Baxter, do silencioso William Costner, e de Tasha Severskaya, uma civil que voa ao seu lado porque, para ser bem direto, não sobrou mais ninguém nas forças militares da FCU para completar o quarteto. Prestes a se tornar o crush dos fãs, Tasha é, também, um dos pontos mais interessantes do enredo de Wings of Theve, já que sua experiência como piloto não vem das dogfights, e sim por ter voado numa espécie de Esquadrilha da Fumaça. Por isso, ela começa o jogo se recusando a matar, uma promessa nobre que passará a ser desafiada em toda missão.
Essas missões, vale dizer, oferecem diversos espetáculos. Entre as mega-armas sempre presentes nos games da série – aqui representadas pelos assustadores “navios-terrestres", cruzadores capazes de deixar o mar pela terra firme – e encontros com esquadrões de elite de Sotoa que frequentemente têm dois caças para cada membro do Joker, Ace Combat 8 te coloca repetidamente em situações de pura intensidade (recomendo, de coração, jogar no Difícil, já que a dificuldade ajuda a sublinhar a sensação de desespero da trama), e nesses embates, o gameplay da franquia volta a brilhar com força.
Encabeçado pelas curvas de Força G introduzidas em Skies Unknown, o combate aéreo continua sendo a grande estrela de Ace Combat. Sua jogabilidade mantém o alto desempenho independente da situação: o simples e eterno prazer de eliminar alvo terrestre após alvo terrestre, o sentimento pulsante que vem quando você precisa navegar nas nuvens para perseguir um antagonista, ou a adrenalina de se entrelaçar com um ás tão habilidoso quanto você (não vou entrar em detalhes, mas a eventual boss fight contra o Shadow que derrubou Cope é a mais divertida e desafiadora da saga até aqui) numa dança que quebra a barreira do som.
Poucas coisas se traduzem tão bem para o controle de um videogame quanto a ideia de pilotar um avião. Em ambos os casos, estamos apertando botões e puxando alavancas. São sistemas de programação que fazem os motores aumentarem a propulsão e os mísseis arranharem o céu-azul. Quem sabe foi isso que permitiu que os desenvolvedores da Project Aces aperfeiçoassem o gameplay de Ace Combat ao ponto de equilíbrio ideal entre as raízes arcade de seus primeiros jogos e o realismo que necessariamente acompanha uma identidade visual cada vez mais fotorrealista, capaz de transportar com muita fidelidade para o virtual tanto o metal das máquinas de guerra quanto a beleza fugas das gotículas de chuva.
Wings of Theve mantém Ace Combat longe de um simulador de voo (cada alvo ainda te dá uma pontuação, que serve como dinheiro para adquirir os sonhados F-22, SU-57 e outros jatos de ponta), mas ainda força o jogador a sentir na prática as forças da física, do vento e da naturezas exercendo sua influência. Isso gera um vai-e-vem capaz de divertir e desafiar, uma mistura sensacional potencializada no viciante modo multiplayer. Ali, temos o gameplay em sua mais pura forma.
Bebendo muito de Infinity (você pode criar seu avatar, andar num hub e desbloquear e aprimorar seus caças) e construindo em cima de Skies Unknown, o multiplayer oferece um bom mix de modos PvP e PvPvE. Meu favorito pessoal é o todos-contra-todos, um caos coordenado onde você sempre é caça e caçador, mas há tipos de jogo para todos os gostos. Aqui, aliás, escolher bem qual avião você usará em batalha é essencial. Se, na campanha, uma má escolha no máximo gera uma irritação, no multiplayer é indispensável considerar com que tipo de armamentos você está decolando.
Como jogamos Ace Combat 8: Wings of Theve antes do lançamento, nossa experiência com o multiplayer foi limitada às sessões de teste onde críticos de todo o mundo entravam nos servidores ao mesmo tempo. O resultado foi positivo, mas também mostrou que há riscos. Tínhamos que esperar um bom tempo entre partidas, e essa espera é suspensa toda vez que você abre um menu para customizar ou adquirir algo, por exemplo. Assim, não restava nada para fazer entre combates se não aguardar, andando por aí.
Se essa necessidade por paciência persistir, vamos atualizar esse review, mas esse parece o tipo de problema que será resolvido quando milhões de pessoas povoarem os céus de Usea. E, baseado no que jogamos, não há razão para duvidar do potencial de Wings of Theve de popularizar ainda mais Ace Combat. Talvez seja cedo demais para declarar este como o melhor Ace Combat até aqui, mas como alguém que acompanha essa série desde o PlayStation 1, posso dizer que essa foi a impressão que tomou meu coração quando a (como de costume) maravilhosa trilha sonora chegou ao seu ápice durante a missão final da campanha. Enquanto o contexto da história atingia o clímax, o gameplay acelerava ao máximo e a música se apresentava como ponto de exclamação, a sensação foi um clichê: me senti acima de nuvens.
Ace Combat 8: Wings of Theve
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