A Investigação Póstuma leva o Machadismo para o mundo dos games
Unindo diversas obras de Machado de Assis, A Investigação Póstuma é uma dos melhores jogos brasileiros dos últimos anos
O mercado de jogos independentes é complexo por inúmeros motivos. Um deles é que há uma infinidade de títulos sendo lançados anualmente, tornando impossível a ideia de experienciar todas as grandes obras disponíveis no mercado. Destacam-se aquelas com melhor marketing ou o clássico boca a boca.
Para meu deleite, A Investigação Póstuma teve ambos. A distribuição ficou a cargo da CriticalLeap, a publicadora de jogos da Nuuvem que, junto à Dumativa, entregou para o mundo Enigma do Medo. Ao mesmo tempo, nas redes sociais, ele era tratado como “o jogo do Brás Cubas”. Mesmo não sendo um leitor machadiano de primeira, a ideia me chamou muito a atenção, a ponto de eu acompanhar seu lançamento de perto.
Eu não poderia estar mais feliz com a minha decisão. A Investigação Póstuma é um título formidável que não esconde suas inspirações, mas consegue encontrar a sua própria voz a ponto de carimbar seu nome na história dos videogames brasileiros.
Ainda que popularmente seja chamado de “o jogo do Brás Cubas”, ele vai muito além disso. A ideia da Mother Gaia Studio foi ir além de explorar o universo machadiano a partir do falecimento de um dos personagens mais famosos da literatura brasileira, o qual o jogador precisa investigar após ser contratado pelo próprio Brás.
Usando uma estrutura de loop temporal, temos 15 horas para conversar, investigar e interrogar personalidades como Capitu, Rubião e Lobo Neves, que convivem em uma única Rio de Janeiro em 1937. A maneira como suas histórias são interligadas é muito inteligente, gerando uma teia complexa de acontecimentos e reviravoltas que só podem ser compreendidas em sua totalidade após as últimas falas serem ditas.
A base do jogo é a administração do relógio, já que as suas ações consomem tempo e ele é extremamente limitado. Eu demorei um pouco para decorar a rotina de certos personagens: eles se movimentam pela cidade, muitas vezes, sem informar para onde estão indo. Entretanto, em poucos loops já é possível saber onde o Dr. Bacamarte estará no período da noite, até que horas Crispim estará em sua loja e coisas do tipo. Planejar uma rotina garante que você poderá resolver o maior número de pendências o mais rápido possível.
Ao encerrar um loop, você vai para o limbo, em que se encontra com ninguém menos que o seu próprio contratante póstumo (ou seria póstumo contratante?). Nessa sala, atualizamos o mapa mental de cada personagem, que pode sempre ser acessado no menu de investigação, ouvimos devaneios irônicos e narcisistas de Brás Cubas e pegamos dicas do que fazer a seguir.
Esse último ponto pode parecer simples, mas é por meio dele que eu conseguia relembrar algum acontecimento importante ou mesmo saía de algum bloqueio mental. Como há um grande elenco de suspeitos e muitos acontecimentos simultâneos, a chance de se perder, esquecer de conversar com alguém ou mesmo não entender uma dica específica é bem alta. Vejo isso como o jogo entendendo sua dificuldade e ajustando-se para que todos possam aproveitar da melhor forma, sem passar por frustrações desnecessárias.
É um bom momento para falar sobre a investigação, que é a base de toda a gameplay. Sempre que começamos um interrogatório, podemos perguntar sobre outros personagens e pistas, além de entregar e, ocasionalmente, pedir objetos. A estrutura aqui é parecida com a saga Ace Attorney, em que os diálogos se desenvolvem sem muita interação do jogador, mas sempre caminham para algum lugar. É por meio dessas interações que conseguimos novas pistas, descobrimos padrões de comportamento e arrancamos confissões.
Essas confissões são essenciais para completarmos os mapas mentais de cada um deles, o que revela um acontecimento no fatídico dia do falecimento de Brás e oferece um possível motivo para que aquele personagem tenha cometido o crime. A maioria é extremamente plausível, enquanto outros parecem estar lá só por conta da estrutura do jogo, que não deve ser alterada para não quebrar a coerência.
A escrita geral, ainda que não faça jus à genialidade de Machado de Assis, é leve e divertida, com personagens de personalidade forte e bem definida, que, munidos de diálogos bem desenvolvidos, envolvem o jogador em uma ação maçante que permeia toda a sua duração: a leitura. De certa forma, chega a ser irônico que a atividade que mais fazemos em um jogo baseado em livros seja exatamente ler, não acha?
A repetição inicial da premissa vai sendo quebrada conforme conhecemos novos rostos, lugares e pistas. A trama cresce, detalhes e reviravoltas aparecem e conspirações se tornam realidade, tudo preparando para um encerramento épico que não ocorre. Acredito que a grande falha de A Investigação Póstuma é não entregar uma conclusão digna de tudo o que foi apresentado até aquele momento. A filosofia de que “a melhor parte da viagem é o caminho, não o destino”, aplicada aqui, deixa um gosto amargo na boca por não entregar a catarse esperada.
Junto a isso, a investigação pode ficar um pouco cansativa nas horas finais, já que as confissões encerram o loop antes do planejado e quebram o planejamento estipulado pelo jogador.
Esses são problemas pouco significativos no panorama geral, mas evitam que A Investigação Póstuma atinja o nível de perfeição que tinha potencial para alcançar. Mesmo assim, entrega uma das mais memoráveis experiências que tive no ano.
A Investigação Póstuma
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