007 First Light traz classe e ação na medida certa
O maior espião da história ganha um novo e excelente recomeço nos games
James Bond já pode ser considerado como uma espécie de figura mitológica, de tão incrustado que está na consciência coletiva. Suas histórias cruzam gerações: dos livros originais escritos por Ian Fleming, começando em 1953; passando por diversas eras nos cinemas com diferentes atores no papel, como Sean Connery e Daniel Craig; além de ter mais de 30 jogos feitos, em um período de 40 anos.
Agora, como a IO Interactive, a mesma produtora da série Hitman, decidiu abordar tamanho personagem em seu mais novo jogo, 007 First Light? Com muito respeito ao seu legado, esculpindo um jogo que entrega tudo que amamos no agente com licença para matar.
Tudo pelo o que a franquia é conhecida está no game: dispositivos de espionagem, cenários do mundo todo, perseguições, tiroteios, charme, humor e até mesmo vilões maquiavélicos. First Light abraça tudo que define Bond e suas aventuras, até mesmo as mais absurdas — porém faz isso de maneira cadenciada.
A história conta como nosso charmoso agente adentrou no mundo da espionagem britânica. Do seu treinamento para tentar uma vaga no MI6, serviço de inteligência da coroa, até o fim de sua grande primeira missão. Com isso, temos um dos James Bond mais jovens que já vimos apresentado em First Light, cheio de energia, sarcasmo e rebeldia.
Logo no prólogo é revelado tudo que precisamos saber sobre nosso protagonista, principalmente sua tendência de tentar o impossível para salvar o próximo, fator crucial que chama a atenção de M, líder do MI6. Suas convicções são testadas constantemente no decorrer da narrativa, mas contar qualquer outra informação sobre a história pode ser considerado um enorme spoiler, então vou parar por aqui.
Cada um dos principais personagens secundários da série estão presentes, como Q, Moneypenny e a já mencionada M — entretanto, há muito mais em First Light. Somos introduzidos a outros seis personagens, colegas de James no treinamento para se tornar um agente 00, além de seu novo mentor, Greenway.
A relação de Bond com todo o elenco é desenvolvida com maestria, gerando excelentes momentos que moldam o personagem em sua primeira aventura nesse universo. Greenway é de longe o melhor do novo elenco. Com muita bagagem nas costas e desgosto pelos floreios do protagonista, a dinâmica entre os dois é perfeita.
Nada disso funcionaria sem as excelentes atuações do elenco — e com a maestria que a IO Interactive demonstrou ao construir essa história. Todos os dez capítulos do jogo entregam um pacote completo: uma boa introdução; desenvolvimentos interessantes; e clímaxes de pura adrenalina.
007 First Light é um dos jogos mais cinematográficos que eu já vi, e isso fica claro logo no começo. A fórmula de gameplay que os desenvolvedores acharam, simples em sua base, mas com bastante profundidade, casou perfeitamente com o escopo das situações apresentadas pelo jogo. Há momentos de pura tensão e outros que me deixaram impressionado com sua inventividade e condução.
Quando, logo no prólogo, começa uma sequência de treinamento, passando por diversos meses, em uma montagem rápida e 100% jogável, ensinando tanto Bond quanto ao jogador sobre como ser um agente 00, só me restou aplaudir: “Isso é videogame”, falei em voz alta. Só esse segmento demonstra o total controle que a IO Interactive tem sobre a história, e o gameplay — sem contar o quão lindo tudo é.
Há muitas formas de se jogar First Light. Como já era nos jogos anteriores do estúdio, aqui o jogador é apresentado com diferentes opções de abordagens durante as missões. Quer tentar passar completamente despercebido? Tudo bem. Prefere ser um rolo compressor e derrubar todos os inimigos? A casa é sua.
A única limitação imposta pelo jogo é matar. Essa opção só fica disponível quando alguém revela uma intenção assassina sobre Bond — enquanto não o fizerem, o jogador só poderá deixar os inimigos inconscientes. Porém, isso nunca é algo que atrapalha, tanto por ser uma limitação apresentada de forma natural ao jogador, quanto por representar uma pequena parte do que o game traz.
A importância dessa escolha de abordagem é exaltada durante as sequências de reconhecimento. Quando Bond não tem uma ideia clara do que fazer, ele pode procurar por dicas pelo mapa, que ficam disponíveis no menu depois de achadas, tendo em média três tipos diferentes por missão.
Você pode encontrá-las ouvindo conversas alheias, observando algo no cenário ou interagindo com anotações. Isso torna a ideia de rejogar a campanha bastante interessante, já que em uma jogada você pode se infiltrar como um fotógrafo, roubando uma câmera alheia, e na outra pode achar um caminho pelas tubulações ao ouvir um papo no bar — mas as diferentes opções que o jogo entrega não param por aí, pois ele apresenta os diferentes dispositivos de espionagem.
James possui, em quase todas as missões, as Lentes Q, que salientam inimigos e objetos interativos no cenário. Porém, é em seu relógio especial e outras ferramentas que encontramos o que há de melhor no ofício.
Lasers que cegam inimigos e abrem cadeados; hackeamento; fones de ouvido que funcionam como granadas de concussão; entre outros. São sete equipamentos diferentes que podem ser equipados em até quatro espaços disponíveis por missão, cada um oferecendo uma abordagem diferente.
O leque de possibilidades também pode ser encontrado no combate. Atirar na mão para desarmar inimigos; dar uma ombrada para desestabilizá-los e desacelerar o tempo para encaixar um tiro na cabeça deles, são algumas das opções disponíveis para o jogador quando tudo vai pelos ares. Ao somarmos tudo isso com os dispositivos, temos um gameplay vasto em possibilidades que engaja tanto nos momentos de stealth quanto nos tiroteios.
007 First Light também apresenta o modo do TecSim, um simulador de missões para quem quer mais do game, além de testar suas habilidades na história. Há uma boa variedade de encontros, sediados nos diferentes mapas do game, possuindo um sistema de pontuação com classificação mundial, e uma loja para comprar skins, armas e dispositivos.
A amálgama de cada ponto acertado nesse jogo ofusca o que pra mim é seu único defeito: a repetição. Logo na metade da história o padrão entre as missões fica visível, fazendo com que alguns segmentos pareçam uma lição de casa chata, mas necessária para depois receber um prêmio, se bem feita — mas ele é tão recompensador, que você logo esquece.
Foi impossível desgrudar da tela durante as minhas 15 horas de jogo. 007 First Light entrega tudo que qualquer um poderia querer de um jogo do agente secreto mais charmoso da história. Seja você um fã da franquia, ou apenas um amante de jogos de ação, há muito o que se aproveitar aqui. A IO Interactive fez um pacote completo que já tem lugar cativo na história de Bond… James Bond.
007 First Light
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