Game of Thrones

Créditos da imagem: HBO

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Game of Thrones 10 anos | Entrevista exclusiva com Kristian Nairn, o Hodor

Ator fala sobre spoilers, o legado da série, o que achou do final e qual personagem da DC gostaria de interpretar

Marcelo Forlani
17.04.2021
19h43

Logo que entrei na sala de zoom, Kristian Nairn, o Hodor de Game of Thrones, veio elogiando a minha prateleira. Tudo bem que eu tinha estrategicamente colocado ali ao lado do meu ombro um Pop Funko! da Daenerys e outro do Tyrion escoltando o box de DVDs da primeira temporada de Game of Thrones (tinha ainda uma segunda Daenerys escondida!).  Mas levei bronca, porque não tinha Hodor por ali. "Agora ficou chato para você. Quer que eu te mande um?" 

A alcunha de gigante bondoso serve perfeitamente em Kristian. O ator e DJ irlandês tinha agendado 15 minutos para conversar comigo, mas acabamos ficando mais de 20 minutos trocando ideia sobre a o legado de Game of Thrones, o orgulho que ele sente do resto do elenco, a morte de seu personagem, os livros, o final (polêmico!) e nerdices.

Kristian é mega-fã do Thor (e já disse em outras entrevistas que gostaria de interpretar Volstagg - óbvio!), mas como estamos em um ambiente HBO / Warner, perguntei para ele se tinha um personagem da DC que ele gostaria de fazer... e ele tem um ótimo! Aliás, ele contou que viu o Snyder Cut TRÊS VEZES! 

Frequentador de comic-cons ao redor do mundo, ele disse que ainda não conseguiu encontrar duas de suas ídolas da TV: Lynda Carter e Lucy Lawless, respectivamente Mulher-Maravilha e Xena! E que está pronto para vir para a CCXP assim que puder. O que você acha desta ideia? 

Leia a entrevista na íntegra abaixo: 

Fala, Kristian. Como você está?

Kristian Nairn: Estou muito bem. Obrigado por me receber.

Dez anos! Que sensacional! Olhando para trás, o que você vê de legado da série?

KN: Bom, primeiramente, eu não consigo acreditar que já se passaram 10 anos. Não dá para dizer o tanto de coisa que rolou nestes 10 anos. É muito louco. Legado? As pessoas ainda vêm falar comigo sobre o programa. Parece que não acabou ainda. Parece que eles sentem saudades de Westeros. Sentem falta dos personagens. E todo mundo está super empolgado para a nova série, que a HBO já está trabalhando. Todos querem voltar a Westeros o mais rápido possível. Todo mundo ainda ama a série.

Quando foi que vocês perceberam que estavam fazendo algo histórico?

KN: A gente fez a primeira e segunda temporada e foi bem. Fizeram sucesso nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, provavelmente aí com vocês também. Mas daí virou algo global mesmo. Era em todos os lugares onde a gente ia. Eu sou um DJ também e viajo bastante tocando, e tinha fãs [da série] em todos os lugares. TODOS OS LUGARES! Nos lugares mais longínquos, dos quais nunca tinha ouvido falar, todo mundo tinha visto Game of Thrones. Foi aí que comecei a perceber que era algo realmente grandioso.

Como foi o seu processo de escalação?

KN: Eu fiz o teste para um outro filme, uns quatro anos antes de Game of Thrones, chamado Chumbo Grosso (Hot Fuzz, 2007), com Simon Pegg - você deve ter visto. Eu acabei não ficando com o papel, para ser sincero, mas quatro anos depois eu recebo uma ligação desta diretora de elenco e ela me falou que não conseguia me tirar você da cabeça para este papel [Hodor]. E perguntou se eu poderia gravar um vídeo teste. E ela falou: "ele só fala uma palavra". E eu não entendia. Eu perguntei por que ele só falava uma palavra e ninguém me falava. Eu mandei meu teste e consegui o papel e eventualmente acabei entendendo o lance dele só falar uma palavra. Foi um pouco diferente do normal. Foi meio estranho. Eu tive que demonstrar diferentes tipos de emoção sem falar.

E falando desta característica do Hodor, tem uns memes por aí com ele, Pikachu e Groot conversando.

KN: (risos) Eu adoro isso!

Quais as melhores teorias que você recebeu sobre Hodor?

KN: Tem duas que eu lembro bem. A primeira é que ele era um dos irmãos Clegane. A gente tinha Sandor, Gregor... e Hodor?? E nesta teoria, Gregor, sendo o irmão malvado, matando pessoas com as mãos, o que ele poderia ter feito com Hodor? Talvez por isso que ele estava daquele jeito.  E colaborava também o fato de sermos todos muito grandes. Até eu achava que poderia ser verdade. Tinha uma outra que veio porque eu estava com cabelo branco e as pessoas começaram a questionar: será que ele é Targaryen? Este eu nem comentei nada na época. Mas é isso, as pessoas ficavam olhando nos pequenos detalhes atrás de pistas. Seria legal, mas não, não era Targaryen.

Quando e onde você estava quando ficou sabendo do significado da palavra Hodor?

KN: Ninguém nunca me disse. Eu perguntei para [os produtores] David e Dan várias vezes e eles não me contavam. Perguntei para o George [R.R. Martin, criador dos livros] e ele não me contou. Tudo o que ele me falou foi "Espera! Espera e você vai entender". Foi, na verdade, Finn, o Loras Tyrell. Nós somos bem amigos e ele recebeu o roteiro dele antes de mim e eu perguntei para ele "eu sobrevivo?" e ele [grunhindo] "oh, deus... não!" Então, foi ele que me contou sobre o lance de segurar a porta (Hold the door) e explodiu a minha cabeça! Que ideia maravilhosa! E George segurando esse segredo por todos estes anos.

Eu me recuso a dizer que foi uma das melhores mortes da série, porque não quero celebrar uma morte. Foi uma dor enorme para os fãs. Vamos chamar de "cena de despedida". Como foi filmar aquilo? Ouvi dizer que eram locações diferentes e tudo mais.

KN: Foi um processo longo. Nós filmamos em três locações diferentes. Dois exteriores e uma interna. E cheia de cenas de inserção no meio. Foi incrível. Mas foi muito triste. Era a última vez fazendo isso. Última vez fazendo aquilo. Foi muito emocionante e era também a minha última participação da série. Eu era parte deste elenco há seis anos. Era difícil não estar carregado de emoções, porque eu estava triste de verdade. Não ia mais ver meus amigos, todo mundo com quem trabalhei ali. E ainda por cima era meu aniversário de 40 anos. Me mataram no dia do meu aniversário! Foi um "feliz aniversário, agora, dane-se, você está morto" [risos]

E as crianças? Como foi fazer parte do crescimento deles, vendo se tornarem jovens adultos, fazendo parte do universo Marvel dos cinemas e tudo?

Pois é! Eu tenho muito orgulho de Sophie [Turner] e Maisie [Williams]. Elas se saíram tão bem. Com Isaac [Hempstead Wright], a minha relação é diferente. Eu me sentia como uma terceira figura paterna na vida dele. Ele cresceu literalmente grudado em mim. Era como um irmão mesmo para mim. Para o bem e para o mal. Às vezes eu queria matá-lo. [risos] É um moleque maravilhoso. Eu sempre vou cuidar dele. Como Hodor faria. Sinto muito orgulho deles. Quando penso como eles eram pequenos quando começamos a primeira temporada. E Sophie virou a Jean Grey em X-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix). Maisie nos Novos Mutantes (New Mutants, 2020). É muito legal! Art [Parkinson] fez um filme com The Rock. Todos eles estão mandando muito bem.

Vou trazer algumas perguntas de fãs. Luciano (gatoajatox) disse que para ele Hodor era um personagem subestimado, ainda que super forte. A pergunta dele é: você ouviu de alguém que teve Hodor como um exemplo de como encarar a vida?

KN: Sim. Até eu mesmo. E pensando em Game of Thrones, não tem isso de personagem pequeno nessa série. Qualquer um pode fazer algo que vai mudar o curso da vida. Mesma coisa na vida real. Não é porque você não é uma pessoa de destaque que você não pode fazer a diferença. Você não precisa ficar se mostrando. Desde que você seja uma pessoa boa, seja você mesmo, acho que você pode ter uma boa vida.

Well (wellcosplayer) pergunta qual foi o episódio que você ficou mais ansioso para assistir?

KN: Eu não lembro o nome do episódio, mas é aquele que o Montanha luta contra o Víbora e esmaga os olhos do Martel. Eu não conseguia olhar para aquilo. Foi nojento!

Flavio (flyaguilera) diz aqui que é um grande fã da série e quer saber se você curte os livros e qual a sua expectativa para o fim dos livros.

KN: Hã... eu não li os livros. [risos] Mas a minha mãe leu! E ela sempre fala para mim sobre as diferenças. Ela é muito fã do George. Eu conversei com ele sobre os últimos livros e eu me sinto mal por ele. Deve ser muito difícil para ele escrever agora, quando já tem uma versão totalmente diferente - e lembrando que tudo sai da cabeça dele. George é um cara muito talentoso. Mas eu acho que deve ser muito duro porque já tem essa versão que todo mundo conhece e ele provavelmente não quer ser influenciado pela série e isso deve ser muito difícil. Eu entendo porque ele está demorando tanto. E sei que as pessoas estão ansiosas para ler os livros.

Eu  gosto do final da série. Eu fiquei feliz [com o desfecho]. Entendo porque tanta gente não gostou, mas não como deixar todo mundo feliz. Não importa o desfecho, sempre vai ter alguém xingando na internet.

E eu ouvi que você é nerd de quadrinhos, certo? Então você sabe como são também as fanfics. Cada um tem na sua cabeça como aquilo deveria terminar, né?

KN: Sim! Especialmente quando você ama um personagem - e todo mundo amava Daenerys e Jon Snow, e um monte de gente queria que ela fosse a Rainha e ele o Rei. E não foi o que rolou. É Game of Thrones! Nada acontece da forma como você espera. Sempre vai ter uma surpresa.

Falando de quadrinhos, quais são seus personagens favoritos?

KN: Thor. Eu amo Thor e a Marvel desde que eu era um molequinho. E quando fui amadurecendo, por algum motivo fui gostando cada vez mais da DC. Sempre fui um grande fã da Marvel, mas também sou muito fã da Mulher-Maravilha. Gosto muito dos filmes. Adorei o filme da Liga da Justiça do Zack Snyder.

Ah, você viu!

KN: Sim, três vezes! 12 horas. É bastante tempo!

E agora que Game of Thrones e DC estão na HBO Max. Dá para você bater em algumas portas aí e fazer parte do Universo DC?

KN: [pausa] Eu adoraria! Eu adoraria ser Solomon Grundy. Eu faria fácil. Estou pensando aqui se teria algum outro. Deve ter mais alguns, mas vou ficar com este por enquanto.  Ia ficar bem feliz. Tenho a cor do cabelo pronta já. [risos]

Você já participou de comic-cons ao redor do planeta, certo? Como é a interação com os fãs em convenções?

KN: Eu já costumava ir a comic-cons antes de fazer a série e sei bem como é estar do outro lado. Eu adoro encontrar os fãs. É uma das melhores coisas deste trabalho. Mas os dias de quem está ali trabalhando são bem longos. Talvez, se você me perguntasse no final de um sábado, depois de me encontrar com umas quatro mil de pessoas, eu dissesse algo diferente. [risos] Mas, normalmente, fico muito feliz de falar com os fãs. Eles são tão empolgados. É ali que você recebe um retorno [sobre o trabalho], é o melhor feedback que você vai ter. Eu não sou de ficar muito na internet, então é uma boa forma de ouvir o que as pessoas têm a dizer. Eu adoro este trabalho. Mal posso esperar para começar de novo.

Nós que fazemos a comic-con aqui no Brasil, chamada CCXP.

KN: Estou por aqui. É só chamar.

E lá nos bastidores, no camarim, você encontrou com pessoas que eram seus ídolos?

KN: Oh, sim! Muitos. Deixe-me pensar... Eu encontrei o Ezra Miller, que faz o Flash. Foi bem legal. Mas vou falar com quem não me encontrei ainda. A primeira é a Mulher-Maravilha da TV, Lynda Carter. Outra é Lucy Lawless, Xena. Já estive na mesma convenção que ela, mas nós dois estávamos tão ocupados que não consegui encontrá-la ainda. Eu gosto muito destas mulheres fortes, sabe? Essas duas fizeram parte do meu crescimento.

Durante estes últimos 10 anos, a internet mudou muito. Enquanto a série estava sendo exibida, logo depois do episódio, nas segundas, era uma loucura. As pessoas estavam falando muito, soltando spoilers. Como é essa sua interação com os fãs online quando você vê coisas como estas?

KN: Curiosamente, o episódio em que meu personagem morreu acabou vazando um dia antes da exibição. Então, eu comecei a receber mensagens de pessoas falando "meu deus, você morreu!" e eu ficava [petrificado]. Eu consigo entender o ponto de vista dos fãs. Eu entendo o que rola. As pessoas são mega preocupadas em proteger o conteúdo, mas se ele está ali, elas vão ver. Não vou ficar criticando as pessoas. Eu também sou um ser humano. Mas é péssimo para os produtores, para os atores. Eu fiquei um ano segurando o segredo que eu ia morrer e daí, do nada, as pessoas estavam vindo me contar.

É importante que a gente arrange formas de apoiar as pessoas que fazem conteúdo. Falando como músico, agora, temos muito poucas chances de ganhar dinheiro hoje. Não dá para continuar assim. É impossível ganhar dinheiro com música, produzindo. As pessoas que querem consumir conteúdo, devem pagar por ele de alguma forma.

Mas ao mesmo tempo, eu sou fã e não culpo as pessoas. De verdade. Porém, precisamos achar o equilíbrio. 

Por falar na música, o que você tem ouvido e tocado?

KN: Eu tenho produzido muita coisa. Eu tenho ouvido as minhas coisas, recentemente. Tenho produzido house progressivo e trance progressivo. Tento não ouvir outras coisas quando estou produzindo, para não ser influenciado.

Mas recentemente eu fiquei sabendo de uma banda, que nem é tão nova. É uma banda americana chamada Lord Huron. É uma banda de country e eu odeio música country, mas adorei esta banda.

E você tem aquela música especial, que quando você toca as pessoas pulam e cantam?

KN: Eu faço um set diferente cada vez que estou como DJ. Mas tenho uma música chamada "Evolve", que a galera costuma curtir. Geralmente já toco ela logo no começo, primeira ou segunda música, e a galera pira. Sai todo mundo pulando que nem pipoca. É sensacional ver alguém reagindo a uma música sua. É algo muito especial.

Kristian, muito obrigado pelo seu tempo. E espero te ver no Brasil.

KN: Foi um prazer enorme. Espero poder voltar para o Brasil. É um país maravilhoso, com fãs sensacionais.

E, seguindo a alcunha de "gigante bondoso", Kristian encerrou o bate-papo fazendo coraçãozinho com a mão. 

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