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Entenda o fiasco de Joey, o derivado de Friends que o mundo quer esquecer

Nem seis meses após o fim da série da NBC, a emissora tentou emplacar um spin-off com Matt LeBlanc

Julia Sabbaga
07.04.2020
17h39

Em 2004, um dos maiores fenômenos da televisão americana chegou ao seu fim, quando Friends encerrou uma jornada de 10 temporadas. Com um dos episódios finais mais assistidos na história da TV, a produção terminava de modo brilhante, mas também representava o fim de uma audiência garantida para a NBC. Para tentar resolver isso, a emissora se aproveitou de um personagem conhecido e lançou, nem seis meses depois, um derivado que acabaria se tornando um dos mais infames da TV até hoje: Joey

Lançado em setembro do mesmo ano, Joey buscou capitalizar no querido personagem de Matt LeBlanc levando-o para Los Angeles, com a premissa de vê-lo tentar emplacar sua carreira de ator. Na série, Joey Tribbiani se reconecta com sua irmã Gina (Drea de Matteo) e vive com seu sobrinho Michael (Paulo Costanzo), levando uma vida que ignorou a existência de seus melhores amigos de Friends e a sua vida em Nova York. Este foi definitivamente o primeiro erro que tornou a série um exemplo a não ser seguido; em Joey, o protagonista parecia completamente fora do mundo que conhecíamos antes, ao ponto de que nem parecia o mesmo amigo bobo e com um coração de ouro.  

Isto aconteceu em grande parte porque Joey teve pouco envolvimento da equipe criativa por trás de Friends, com a recusa dos criadores Marta Kauffman e David Crane de participar do projeto. O terceiro criador de Friends, Kevin S. Bright, continuou ao lado de LeBlanc como um dos produtores executivos, mas até hoje insiste que o derivado acabou pela interferência do estúdio, que transformou o personagem para alguém distante do que o público conhecia na série original. Falando sobre o resultado final, Bright resumiu perfeitamente como a série mudou o espírito de Tribbiani [via The Age]: “Joey foi desconstruído para um cara que não conseguia nem um emprego, nem sair com uma mulher. Ele se tornou um personagem patético, deprimido”.

Joey durou duas temporadas que viram a audiência declinar cada vez mais, e foi cancelado em maio de 2006, no meio de seu 2º ano, sem chegar a transmitir oito episódios que já estavam gravados. Mas não foi apenas a decadência do público que levou a decisão de tirar Joey do ar, mas a recepção da crítica também teve peso. Segundo as críticas da época, a série havia alterado os fundamentos de Joey Tribbiani ao mesmo tempo que não mudou as estruturas de Friends, deixando óbvia a falta que os outros cinco personagens faziam. E enquanto algumas coisas funcionavam - como a agente de Joey, interpretada por Jennifer Coolidge - Joey sempre chamava mais atenção pela comparação negativa com sua série original. 

O próprio Matt LeBlanc também já falou diversas vezes sobre a história triste de Joey, nunca tirando sua parte da responsabilidade, mas enfatizando a dificuldade que a série teria de fazer sucesso [via Metro]: “Estava amaldiçoada desde o começo”, ele explica. “Era responsabilidade demais. A pressão era tanta, eu lembro de sentir que um elefante havia sentado na minha cabeça”. 

Enquanto Joey é uma página triste na história de Friends, o derivado serviu como um tipo de lição na televisão. Talvez tenha sido a pressa em produzir um derivado ou a simples ambição de lucrar se aproveitando do sucesso de um produto anterior, mas Joey virou um conto preventivo do que não fazer em uma série.

Felizmente, este não foi o fim de LeBlanc na TV. Depois do fracasso de Joey, o ator saiu em um hiato e retornou em uma série muito melhor, que inclusive brincava com os altos e baixos de sua carreira. Em Episodes, série inglesa lançada em 2011, o ator interpretava ele mesmo, adaptando uma série britânica nos EUA. 

A série, que durou cinco temporadas, não foi apenas um sucesso de crítica como rendeu ao ator um Globo de Ouro por melhor atuação e quatro indicações ao Emmy, mais do que sua carreira em Friends. Provando mais uma vez seu talento, LeBlanc sacudiu a poeira de Joey e deu a volta por cima, aproveitando o espírito quase metalinguístico de Episodes para fazer um comeback divertido nas telas, sempre tirando sarro de si mesmo. 

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