Vingadores: Ultimato Encore nos lembra como é bom viver o cinema em comunidade
Por outro lado, revisitar o filme mostra o desafio diante de Vingadores: Doutor Destino
Créditos da imagem: Marvel Studios
Vingadores: Ultimato continua sendo um filme enorme. Rever suas três horas no cinema com o lançamento da versão Encore, sete anos depois da estreia original, deixa isso ainda mais claro. As cenas funcionam, os personagens continuam carregando o peso de uma história que acompanhamos por anos e, quando chega a hora de todos se reunirem, é difícil não sentir tudo aquilo de novo. O filme não envelheceu. Se alguma coisa mudou, talvez seja a força com que ele nos lembra do momento em que foi lançado.
Para muita gente, os Vingadores foram o Star Wars da sua geração. Uma história que cresceu junto com o público e criou uma linguagem comum entre pessoas que talvez não tivessem mais nada em comum. Só que isso aconteceu em outro mundo: com a internet, as teorias, os vídeos, os memes e os fandoms ocupando o centro da cultura pop eram outros. Depois de Lost e nos tempos de Game of Thrones, acompanhar uma história também significava passar a semana discutindo o que tinha acontecido e tentando adivinhar o que viria a seguir. A Marvel levou esse comportamento para o cinema numa escala difícil até de imaginar hoje.
Por isso, Ultimato nunca foi só um filme. Foi o ponto de encontro de uma geração de fãs que passou anos conversando sobre aqueles personagens, esperando o próximo capítulo e tentando imaginar como aquela história poderia terminar. Em 2019, havia uma energia rara dentro das salas. A gente queria ver o que aconteceria, claro, mas mais importante: queria estar lá quando acontecesse, ouvir a reação das outras pessoas e sair falando sobre aquilo junto. Por algumas horas, o cinismo perdeu completamente o espaço para o prazer de viver uma história em comunidade.
É por isso que o relançamento funciona tão bem. O Encore promete cenas novas e uma conexão com Vingadores: Doutor Destino, mas a experiência de voltar ao cinema acaba lembrando algo maior: o tamanho do que a Marvel conseguiu construir. Ultimato representou o ápice de uma era de Hollywood e da cultura pop em que acompanhar uma narrativa por muitos anos podia desembocar num acontecimento compartilhado daquela escala. Quem viveu aquilo sabe o quanto foi especial. Rever o filme agora traz uma sensação boa de privilégio e pertencimento, mesmo sabendo que aquela primeira vez não volta.
As cenas acrescentadas não diminuem nada disso. Elas abrem uma porta para a próxima história e fazem o final ganhar um novo significado dentro do universo da Marvel. Ainda assim, a emoção daquele encerramento permanece. Talvez seja justamente aí que o Encore se torne mais interessante: ao tentar ligar Ultimato ao futuro, ele também mostra o tamanho do desafio que espera a Marvel.
Doutor Destino pode ser grandioso, surpreendente e reunir uma sala inteira em torno de novos momentos. Eu espero que seja. Mas repetir Ultimato é outra coisa, porque parte do que fez aquele filme acontecer estava fora da tela. Estava no tempo que passamos com aqueles personagens, na expectativa acumulada por uma década, nas conversas e na sensação de que todo mundo queria participar do mesmo acontecimento. Isso pode estar além do controle da Marvel. Nenhuma nova cena consegue recriar isso por decreto.
Rever Ultimato também faz pensar no cinema de hoje e em como ainda buscamos experiências capazes de nos tirar, nem que seja por algumas horas, da posição de quem assiste a tudo com distância. Aquele filme conseguiu isso de um jeito impressionante. A Marvel tem agora a tarefa mais difícil de sua história: descobrir como provocar uma emoção tão forte sem depender apenas da lembrança do que já viveu.
Vamos ver o que os próximos capítulos reservam. Por enquanto, sair novamente do cinema depois de Ultimato deixa uma certeza bastante simples. A história pode continuar, e aquele final pode ganhar novos sentidos, mas o que sentimos quando ele aconteceu continua ali. E, pelo visto, vai envelhecer com muito carinho.
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