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Velha Juventude - Festival do Rio 2008

Francis Ford Coppola monta seu testamento em formato de filme

Marcelo Hessel
08.10.2008, às 00H00
ATUALIZADA EM 28.11.2016, ÀS 18H03
ATUALIZADA EM 28.11.2016, ÀS 18H03
Francis Ford Coppola quase foi demitido em

Youth Without Youth

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Youth Without Youth

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O Poderoso Chefão , teve um enfarte em Apocalipse Now e quase foi à falência antes de Drácula de Bram Stocker . A presença da morte, ainda que uma morte simbólica, sempre marcou o cineasta. Agora, onze anos depois de seu longa-metragem anterior, O Homem que Fazia Chover , Coppola volta à ativa com Velha Juventude ( Youth Without Youth , 2008), um filme sobre o medo de morrer.

Ou um projeto que, diante da certeza da morte, fala da ânsia de completar um testamento - tema que inevitavelmente se associa a Coppola, que faz 70 anos em 2009, cujo cinema áureo ficou pelos anos 70 e cujo legado sobrevive pelas mãos de seus filhos também cineastas, Sofia e Roman. O que deixar para o mundo? É isso que assombra o protagonista do filme, Dominic Matei (Tim Roth), um estudioso da linguagem humana que, com 70 anos recém-completos, talvez não viva a tempo de finalizar o seu único livro.

Acontece que Dominic ganha uma "prorrogação" dos céus. Ao desembarcar na sua cidade natal, na Romênia, onde planejava cometer suicídio, ele é atingido por um relâmpago. A descarga elétrica rejuvenesce Dominic em uns 30 anos - como os médicos descobrem assim que a pele e os cabelos, derretidos pelo raio, se reconstituem. Velha Juventude é uma adaptação do conto homônimo do estudioso de religião e escritor romeno Mircea Eliade (1907-1986), por sua vez inspirado em uma fábula romena do século 19. Há na história, porém, ecos de H.G. Wells - mesmo porque o rejuvenescimento é, na prática, uma máquina do tempo para o protagonoista.

Isso fica claro quando, a certa altura do filme, depois de fugir incessantemente de cientistas nazistas na época da Segunda Guerra, o romeno ganha a oportunidade de desfazer uma burrada amorosa da sua juventude "anterior", quando trocou a paixão de uma mulher pela paixão dos estudos. Velha Juventude tem suspense de espionagem, tem ficção científica e tem muita filosofice, mas é o hollywoodianíssimo tema da segunda chance que liga todo o resto.

Coppola é fiel não só a essa tradição, mas à sua própria. O visual de Velha Juventude, seja na composição do enquadramento ou na iluminação, remete automaticamente ao seu trabalho com o diretor de fotografia Gordon Willis em O Poderoso Chefão, particularmente no uso barroco das sombras como muleta dramática (aqui, a cargo do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr.). Barrocos são também os efeitos, desde as fusões de imagens até os giros de 90 e 180 graus que Coppola dá na passagem de um plano a outro - com o inestimável apoio de seu montador de longa data, Walter Murch - para amplificar o impacto.

E aí a coisa envereda pela questão do gosto. Coppola filma como se ainda estivesse nos anos 80, narrativa e estilisticamente falando. Fala de rosas vermelhas e sânscrito. Não é o tipo de filme que teria apelo hoje em dia, não fosse pela volta do ícone. No fim das contas, porém, talvez o nome já baste - mesmo porque o cineasta está aqui se espelhando em Dominic Matei, tratando da impossibilidade da vida eterna e se contentando com mais uma pequena vitória sobre a morte. Depois deste, Coppola já tem mais um filme a caminho. Velha Juventude é o testamento que se nega a sê-lo.

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