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Uma jornada de esperança

Drama edificante trata da realidade da AIDS na África do Sul

MH
17.05.2007, às 18H20.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H25

Até hoje, África no cinema era sinônimo de safari. Uma faceta do continente pouco revelada nas telas - a vida nos centros urbanos e nas suas periferias - começou a ser mostrada com Tsotsi - Infância Roubada, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006. Uma jornada de esperança (Beat the drum, 2003), que só agora chega ao Brasil, segue a mesma linha.

A história do pequeno Musa começa em sua vila em KwaZulu-Natal, nos grotões da África do Sul. Lá uma misteriosa doença começa a matar a sua família. Costume local, sacrifica-se uma vaca para que os maus espíritos deixem de amaldiçoar Musa e os seus. O garoto não tem idade nem tamanho para questionar as decisões do velho sábio do lugar, mas o fato é que sem o animal a avó de Musa não tem como sustentar a casa, já carente de homens adultos vivos para ajudá-la.

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Só com essa premissa já dá pra prever a desgraceira que vem por aí, mas é interessante notar como o diretor David Hickson começa o filme contrapondo o secular ao pragmático. Os tempos são outros, está na cara - não é uma dança-da-chuva que fará a colheita germinar. As medidas precisam mudar também. Musa então pega suas coisas e, sozinho, a pé, sai da vila em direção a Johannesburgo, onde ele vai atrás de uma vaca nova para a sua avó.

Parece aquela típica historinha naïf do determinismo social que engola a doçura infantil - e é mesmo, com direito a tamborzinho, que Musa carrega na sua viagem, batucando reminiscências da sua herança tribal. Uma jornada de esperança é um filme que transborda boas intenções, e isso às vezes pode ser um tanto asfixiante. Mas vamos em frente.

O filme fica interessante quando deixa de lado as panorâmicas da savana, aquela cara de cinema-safari para espectador-turista, e entra no mundo dos marginalizados de Johannesburgo. São as mesmas favelas de Tsotsi, aglomerados humanos que ainda vivem sob o apartheid, ainda que o racismo institucionalizado tenha sido abolido há anos. Ali, Musa se aproxima melhor do caminhoneiro que havia lhe dado uma carona, Nobe.

Nobe é um personagem promissor. Como muitos, trafega entre a metrópole e as vilas diariamente, longe da família, dormindo em acostamentos. Prostituição é igual em qualquer beira de estrada do mundo - mas na África do Sul existe o agravante da AIDS. Na vila de Musa, onde qualquer anormalidade é tido como desígnio divino, a doença está presente mas ninguém vê. Em Johannesburgo, há o preconceito e a negligência. Os caminhoneiros não reconhecem que se relacionam com prostitutas; usar camisinha dentro de casa seria, antes de mais nada, um atestado de culpa.

Uma jornada de esperança sofre, como Tsotsi, de primarismo: personagens só estão ali como representantes rasos de um estrato social (a criança inocente, o negro potencialmente aidético, o branco amigo, o branco insensível), a mensagem é maior do que o filme em si. Edificante, com certeza, mas é o tipo de filme feito para encerrar um seminário de prevenção à AIDS. O fato de haver pessoas que desconhecem a realidade da África do Sul, mesmo dentro do próprio país, é o que justifica a existência de Uma jornada de esperança.

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