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Entrevista

Tungstênio | “No trabalho do Marcello Quintanilha, os personagens amam de maneira torta”, diz Heitor Dhalia

Cineasta pernambucano, radicado em São Paulo, fala sobre a adaptação da premiada HQ para as telas

Rodrigo Fonseca
23.06.2018
10h00

Tem algo de Glauber Rocha, tem temperos de Quentin Tarantino mas tem sobretudo muita banalidade – no sentido do que existe de mais ordinário no dia a dia – em Tungstênio, novo filme de Heitor Dhalia (de Nina), que entrou em cartaz nesta semana. A partir da graphic novel homônima de Marcello Quintanilha, premiada na Europa, o cineasta pernambucano (há anos radicado em São Paulo) cria uma crônica do cotidiano da Bahia.

Divulgação/Tungstênio

Uma série de personagens – com destaque para um sargento aposentado, vivido por José Dumont, e um policial encarnado por Fabrício Boliveira – entram em rota de colisão a partir de um crime ambiental. Milhem Cortaz é a voz que narra o longa-metragem, escrito por Marçal Aquino e Fernando Bonassi, como se fosse o alter ego do Quintanilha. Na entrevista a seguir, o cineasta, famoso pelo cult O Cheiro do Ralo (2006), fala sobre como construiu a linguagem do longa. 

Omelete: O que você descobriu de mais fascinante sobre a condição humana na Bahia de Marcello Quintanilha em Tungstênio?
Heitor Dhalia: Marcello é um cronista dos subúrbios e das periferias brasileiras naquilo que elas têm de mais sutis. Ele mostra o que há de profundo no banal, trabalhando a partir de uma geografia humana. É um grande tradutor do mundo a partir de personagens muito populares, mas que são muito complexos. É um universo com uma prosódia que traduz a língua do Brasil, pela intensidade. Ele tem diálogos de dar inveja ao Tarantino na forma de representar a banalidade do nosso cotidiano.

Omelete: De que maneira o filme dialoga com a sua experiência prévia em cenas de ação? Como é a representação da violência no filme?
Heitor Dhalia: As cenas de ação desse longa já estavam propostas no quadrinho com intenções de frames, de ângulos... A dificuldade era como traduzir essa natureza cinematográfica do quadrinho para o movimento de câmera. Como dar vida e força àqueles frames? Havia nele um combo variado de dificuldades: tiros, chutes na cara, violência doméstica. E filmar cenas de ação é muito delicado, para se proteger os atores.

Omelete: Qual é o conceito de heroísmo ou de vilania que você traz do quadrinho para o filme? Cabe se falar em heróis e vilões no neorrealismo de Quintanilha?
Heitor Dhalia: Os grandes autores entendem que o ser humano comporta as duas coisas em si mesmo: um potencial muito grande de heroísmo e de vilania. Isso é o que torna o ser humano contraditório: essas duas pulsões. Tendo a preferir anti-heróis, pois eles mostram o quanto nos revelamos mais pelas nossas falhas do que por nossos momentos heroicos. Sou crítico e pessimista: prefiro o falho. E é isso o que existe no trabalho do Marcello: seus personagens amam, mas de maneira torta.

Omelete: De que maneira essa história sobre uma Bahia de pequenos delitos e de lutas pela sobrevivência se encaixa na tua obra como cineasta? De que maneira estes baianos da HQ do Quintanilha conversam com a fauna de Nina (2004), de Serra Pelada (2013)?
Heitor Dhalia: O quadrinho fala sobre o que existe de banal no cotidiano, que é estilhaçado por um crime ambiental. Quando escolhi Tungstênio, eu fiquei pensando em como poderia traduzir a banalidade. Meus filmes anteriores sempre tiveram a pretensão, até ingênua às vezes, de falar assuntos maiores. Queria, nestes novos projetos, trazer estes personagens para um caldeirão. Esse projeto conversa com Serra Pelada por querer falar da realidade do país, de um Brasil profundo. É um filme muito brasileiro, que conversa com Nina e Cheiro do Ralo por apostar nos anti-heróis e num recorte mais pessimista das relações humanas. Fiz um filme duro, de personagens secos.

Como ficou o teu projeto de longa mais recente, sobre o universo do teatro?
Heitor Dhalia: Meu próximo filme, já rodado, chama-se Ana e é fruto de um trabalho de uns cinco anos com a atriz Nara Chaib Mendes. A gente resolveu investigar essa relação complexa entre diretores e atores e as relações abusivas de assédio e quebra de limites num processo de criação artístico. É um filme radical artisticamente, construído a partir de uma montagem de Hamlet. Ele nasceu antes dessa primavera feminista de hoje. Vai jogar uma luz sobre questões importantes do nosso setor.

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