Tudo Pode Ser Visto | Nathan Fielder e Lance Oppenheim contam como foi filmar na casa de Elizabeth Holmes
A pergunta que não quer calar finalmente ganhou uma resposta - e com direito a muitos detalhes. Diretores explicaram como a convivência com a empresária e o marido mudou a dinâmica das gravações e levou Nathan Fielder a aparecer diante das câmeras
Créditos da imagem: Lance Oppenheim e Nathan Fielder no set de Tudo Pode Ser Visto/Divulgação
Em entrevista ao The Hollywood Reporter, os diretores Nathan Fielder e Lance Oppenheim revelaram detalhes de como foram as filmagens de Tudo Pode Ser Visto na casa de Elizabeth Holmes. Entre os bastidores, eles explicaram por que Nathan, que inicialmente trabalharia apenas atrás das câmeras, acabou participando do documentário e como a equipe precisou adaptar a forma de registrar a rotina da empresária e de seu marido, Billy Evans.
Oppenheim contou que a participação de Nathan não estava prevista no início do projeto. Durante as primeiras gravações, Holmes e Billy faziam perguntas constantemente ao cineasta, até que um dos operadores, Jonathan Mitchell, que já trabalhava com Fielder, decidiu apontar a câmera para ele. “Quando começamos este projeto, não imaginávamos que Nathan apareceria em frente às câmeras”, explicou o diretor.
Ao acompanhar a cena pelo monitor, Oppenheim percebeu que aquela presença poderia ser útil: “Se Nathan estivesse se tornando esse investigador acidental desses momentos cotidianos, poderia tentar tirar Elizabeth da realidade em que estava vivendo e trazê-la de volta para a realidade em que estávamos”.
A equipe de sete pessoas também precisou mudar sua estrutura de filmagem. Oppenheim explicou que costuma trabalhar com apenas uma câmera, mas o método não funcionava naquela casa. Quando Nathan fazia uma pergunta e o operador precisava mudar o enquadramento para mostrar a reação de Holmes ou Billy, a primeira expressão dos dois acabava perdida.
“A gente perdia esses momentos, principalmente quando Nathan fazia uma pergunta. Se movimentássemos a câmera de Nathan para Billy ou Elizabeth, perderíamos a primeira reação não verbal, a expressão que aparece no rosto de alguém quando uma pergunta é feita”, contou. Para evitar isso, a produção passou a usar três câmeras, operadas por apenas duas pessoas.
Fielder explicou que registrar essas reações era fundamental para o documentário. “Quando você está avaliando a honestidade e a sinceridade no rosto de alguém, a reação da pessoa, mesmo antes de ela me responder, é muito importante”, afirmou. A equipe também utilizou uma câmera grande-angular, capaz de registrar a casa inteira, e lentes com zoom para acompanhar os acontecimentos de diferentes distâncias, sem precisar se aproximar dos retratados.
Com o passar dos dias, os diretores perceberam que também precisavam registrar conversas que aconteciam antes mesmo do início oficial das gravações. Holmes e Billy frequentemente procuravam a equipe para contar o que fariam naquele dia ou perguntar se determinada atividade deveria ser filmada.
“Pensamos: isso é relevante porque, se eles querem que algo seja filmado, então essa é a ideia deles sobre o que está acontecendo”, explicou Fielder. Por isso, os cineastas começaram a chegar à casa antes mesmo de o casal acordar. Como a porta não ficava trancada, eles entravam e posicionavam as câmeras para acompanhar a rotina dos dois.
Uma das situações que aparece no documentário é Billy avisando que iria à academia. Para Fielder, a cena ganha outro significado quando o público sabe que o próprio marido de Holmes considerava aquela atividade importante para o filme. “É uma cena completamente diferente quando você sabe que ele acha que aquilo é algo importante para o documentário - filmá-lo na academia - em vez de partir de uma ideia nossa”, observou.
Oppenheim afirmou que, embora algumas escolhas possam parecer inovadoras, a produção acabou bebendo de fontes antigas do cinema documental, como o cinema vérité. A abordagem também mudou conforme a equipe passou a ter menos acesso a Holmes, levando os diretores a experimentar outras formas de contar a história, incluindo a presença de um cineasta diante das câmeras e o uso de reconstituições. “Estamos reunindo todas as diferentes maneiras pelas quais os documentários foram feitos”, concluiu.
Tudo sobre You Can See Everything
Dirigido por Nathan Fielder (O Ensaio) e Lance Oppenheim (Primetime), o filme da A24 acompanha Elizabeth Holmes nos 34 dias anteriores ao início de sua prisão. Ela ficou conhecida mundialmente após fundar a Theranos, empresa de biotecnologia que prometia revolucionar os exames de sangue com uma tecnologia capaz de realizar diversos testes usando apenas uma pequena amostra.
A empresa, porém, foi acusada de enganar investidores ao apresentar como funcional uma tecnologia que não entregava os resultados prometidos. Em 2022, Holmes foi condenada por quatro crimes de fraude contra investidores e sentenciada a 11 anos e três meses de prisão.
Fielder, conhecido por suas pegadinhas e jogadas que te deixam na dúvida sobre o que é verdade e não é, é quem entrevista Holmes, que ganhou fama por, claro, enganar as pessoas.
O filme chega aos cinemas brasileiros em 26 de novembro, com distribuição da Sony Pictures.
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