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Tim Curry não sonhava. Tim Curry era.

Astro de The Rocky Horror Picture Show foi um dos atores mais puros de Hollywood

Omelete
3 min de leitura
Atualizada em 26.08.2026, ÀS 15H56
Tim Curry em The Rocky Horror Picture Show (Reprodução)

Créditos da imagem: Tim Curry em The Rocky Horror Picture Show (Reprodução)

Difícil pensar em alguém mais ator do que Tim Curry, que faleceu hoje (26) aos 80 anos. E perceba que não disse melhor ator, mas mais ator. A qualidade do trabalho pode ser subjetiva (embora eu ainda esteja para encontrar alguém que questione a dele), mas me parece impossível negar que Tim Curry nasceu para atuar, e existia para atuar.

Quando ele entra em cena em The Rocky Horror Picture Show (1975), cantando “Sweet Transvestite”, você sente imediatamente que está na presença de uma performance para os livros de história do cinema. É um pouco sobre o cabelo, e a maquiagem, e o espartilho, é claro – mas é principalmente sobre como Curry se comporta por baixo do cabelo, da maquiagem e do espartilho.

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Desejo, verdade, ambição, provocação, reverência. Meio monstro, meio herói, meio cientista louco, meio alienígena. Tudo isso e mais se encerra em seu Dr. Frank N. Furter, que dispara piadas de duplo sentido com uma piscadela extravagante de seus olhos bem sombreados, se insinua para cima de Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon) com a postura leve e irresistível de um conquistador absolutamente confiante, e se martiriza no palco lantejoulado do finale do filme como uma donzela da Hollywood clássica.

E que leque absurdamente elástico de emoções. Em “Transvestite”, os graves debochados do ator se misturam a versos quase falados que evocam um frontman de jazz que conversa com o público sobre a sua última bebedeira épica. Já em “I’m Going Home”, ele estica notas melodramáticas com um tom de exaltação que pode parecer paradoxal à melancolia da cena – mas, ali, ele revela a vulnerabilidade de Frank, suas saudades de casa e sua vontade de ser tudo o que poderia ser longe de lá, sem nunca deixar o espetáculo de lado. Típico: com Tim Curry, a cortina nunca caía.

Frank N. Furter, é claro, foi o começo de uma trajetória que merece ser recapitulada com carinho: seus vilões em A Lenda (1985) e It: Uma Obra-Prima do Medo (1990) revelam um lado grotesco que Rocky Horror só havia deixa vislumbrar; Os Sete Suspeitos (1985), outro clássico cult, se deleita com seu timing cômico impecável (nenhum outro ator faria mais da pausa em “antici… pation”, no meio de “Sweet Transvestite”); Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York (1992), Os Três Mosqueteiros (1993) e Os Muppets na Ilha do Tesouro (1996), entre outros, o utilizam como uma lufada de ar fresco providencial no ambiente rarefeito das grandes produções hollywoodianas.

A soma de tudo isso – e nem falamos da sua prolífica atividade como dublador! – é um ator que, como somente os grandes atores realmente conseguem fazer, encarnava todos os anseios do público em performance, recorrendo ao artifício sem nenhuma vergonha para expressar tudo que há de mais verdadeiro em cada personagem. Intensamente cauteloso sobre tudo que revelava de sua vida pessoal, Curry desfrutou como poucos daquele mistério que permite que os maiores de sua profissão se transformem inteiramente no que bem entenderem na tela grande.

E é curioso porque, ainda assim, eu sinto que o conhecia melhor do que qualquer novo astro de Hollywood estampado em tablóides por aí. Tem muito a ver, com certeza, com o que ele me fez sentir no cinema – tesão, medo, orgulho, angústia, ódio, e tudo que há de mais primitivo e mais difícil no entremeio de tudo isso, tudo o que vive assombrando tanto nossa vida acordada quanto nossos sonhos. 

Na melhor tradição de Frank N. Furter, é claro, Tim Curry não sonhava. Em cada segundo que tinha em tela, ele era.

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