Brasileira salva o mundo no filme chinês Terra à Deriva: “Temos muito em comum”
Daniela Tassy interpreta a astronauta brasileira Emilia Soares no longa de ficção científica
Créditos da imagem: Daniela Tassy nos bastidores de Terra à Deriva 2: Destino (Reprodução/Instagram)
Lá em 2022, a brasileira Daniela Tassy enviou um vídeo para os produtores de Terra à Deriva 2: Destino, achando que estava fazendo teste para um papel minúsculo no blockbuster chinês - uma das inúmeras jornalistas internacionais que aparecem rapidamente cobrindo os eventos apocalípticos da trama. Mas o diretor Frant Gwo gostou tanto da fita da brasileira que propôs mudar completamente a sua participação no filme. E “foi assim que nasceu a Emilia Soares”, nas palavras da própria Tassy em entrevista ao Omelete.
Soares é uma das muitas astronautas de várias nacionalidades que participam de uma missão global na Lua - parte de um plano maior para retirar o planeta Terra do sistema solar, a fim de fugir de um Sol em expansão que vai nos engolir dentro de 100 anos. Copilota de Liu Peiqiang (Wu Jing), o protagonista da aventura, ela revela a ele em bom português que tem uma filha esperando em casa, e passa por uma série de perigos a fim de depositar bombas em localizações estratégicas na superfície do nosso satélite natural.
O papel é substancial e memorável - o maior papel feminino não interpretado por uma atriz chinesa no filme, como nos lembra Tassy -, dando um destaque curioso ao Brasil nesta produção que já arrecadou mais de US$ 500 milhões nas bilheterias ao redor do mundo. E a atriz conta tudo ao Omelete na entrevista logo abaixo!
OMELETE: Oi Dani, sou o Caio, muito bom te conhecer! Parabéns pelo filme, adorei a representação brasileira.
TASSY: Oi Caio, muito obrigada!
OMELETE: Antes de tudo, eu estou super curioso para saber: como foi que esse papel, esse projeto, chegou a você? Eles estavam procurando especificamente uma atriz brasileira ou foi mais o personagem se adaptando a você?
TASSY: Não, na verdade, eu fiz um teste para outro personagem, que era uma repórter. Eles queriam uma mulher, uma atriz que falasse espanhol ou português - e aí é óbvio que eu fui para o idioma que é mais confortável para mim, minha língua materna. E na época, foi comecinho de 2022, ainda na pandemia, eu mesmo me gravei e enviei o teste para eles. A cena que eles mandaram era uma situação de guerra, eu tinha que me portar como uma repórter que estava falando que os inimigos iam invadir aquele território se as autoridades não ajudassem, algo assim. . Praticamente o filme todo foi gravado durante a pandemia. E o estúdio foi em Qingdao. Claro que eu dei uma editada, coloquei um fundo bem devastado atrás de mim, som de bomba, fiz de tudo. Daí eles gostaram de mim, e retornaram falando para gravar outro teste, desta vez como astronauta. Foi onde nasceu a Emilia Soares.
OMELETE: Muito legal! E a Emilia aparece no filme durante uma cena de ação bem longa, tem um momento heroico ali dela na Lua, mas a gente não fica sabendo muito do background dessa personagem. Queria saber de você, então: como foi definir essa Emilia? Quais são as motivações dela pra todo esse sacrifício, esse heroísmo?
TASSY: Olha, foi um trabalho bem árduo, viu? Muitas vezes as pessoas acham que atuar é só memorizar um diálogo e aparecer lá para falar no dia, mas tem toda essa história por trás de cada personagem. Eu tive que trabalhar na Emília Soares para entender quem ela era, para conseguir entregar uma performance. E para mim, além de ela ser uma líder dos astronautas brasileiros naquela missão, ela também é uma mulher num grupo majoritariamente masculino. No filme, eu tenho o papel mais relevantes entre as atrizes internacionais, então já dá para ver por aí a relevância dela ser mulher.
Ao mesmo tempo, a Emilia é mãe. Não quero dar um grande spoiler, mas o filme mostra que tem um grupo que se opõe ao projeto da Terra à Deriva, um pessoal que fala: "Por que eu vou me preocupar com algo que vai acontecer daqui 100 anos? Eu não vou estar mais vivo, não quero me sacrificar por causa disso”. A Emília pensa diferente, até mesmo porque ela quer deixar algo para a filha, ela não quer ver a filha sofrer, a filha da filha sofrer. Para além disso, ela pensa na humanidade como um todo, que é o que o filme mostra - não é o chinês, a brasileira, a pessoa dessa ou daquela nacionalidade, que está salvando a humanidade. É todo mundo, são seres humanos unidos para tentar salvar a humanidade.
O coração do filme é isso, e a Emilia Soares vem integrar essa força também.
OMELETE: Certo! A franquia tem mesmo essa pegada de mostrar pessoas de diferentes países se unindo, a cooperação internacional - e eu acho que a gente tem sentido a necessidade disso também no presente, na vida real, diante dos desafios que a humanidade enfrenta. Como você enxerga essa mensagem e a importância dela nos dias de hoje?
TASSY: Acho muito, muito importante. O planeta Terra não se resume a um país ou outro, ele é feito por todos nós, independente de raça, de cor, de onde você nasceu, de mora na montanha ou à beira-mar… ele é feito para todo mundo também. A questão do meio ambiente faz a gente ver assim, ter consciência de como estamos vivendo, o que vamos deixar para o mundo, e se engajar nessa cooperação. A coisa de um país explorar o outro tem que ficar no século passado, a gente tem que se unir e se ajudar - e a gente pode crescer, se desenvolver, ajudando um ao outro, ao invés de ter tanta ganância que acaba matando o outro, exterminando uma raça, uma religião.
Acho que o filme mostra isso, sim, traz esse humanismo, a importância da união das pessoas… mas também tem mil outras complexidades, outras narrativas. Eu falo para todo mundo que não é um filme para se ver só uma vez, porque toda vez que você rever vai encontrar detalhes diferentes. Temos uma história maior, mas várias outras acontecendo ali dentro, ao mesmo tempo. Olha para a história da Emilia, do Liu Peiqiang: eles falam de até que ponto a gente pode ficar na nossa zona de conforto, ou se devemos sacrificar nossas vidas para um futuro melhor.
Em Terra à Deriva 2 também tem a parte da vida digital, de diferentes ideais de vida. Tem várias histórias que vão acontecendo ao mesmo tempo, eu acho um filme fascinante. E não digo isso só porque eu estou lá, viu? Eu realmente acho que dá para conversar por horas sobre esse filme, e espero que todo mundo aí do Brasil curta muito.
OMELETE: Pois é, o filme está chegando aqui mais de dois anos depois da estreia na China. Qual é sua expectativa para a recepção dos brasileiros? Acha importante nos vermos representados ali?
TASSY: Nossa, tem tanta coisa… eu acho que é também uma oportunidade do público brasileiro entender um pouco a Ásia. Eu me lembro que na escola estudei tão pouca coisa sobre a Ásia - um pouco de Japão e olhe lá, hein? E é através da cultura, também, que a gente entende um povo. Eu acho que é muito legal ter essa oportunidade de aproximação - apesar de estarmos tão longe geograficamente, os brasileiros e os chineses tem muita coisa em comum, e a paixão pelo cinema é uma delas.
OMELETE: Bom, e esse é um filme grande, uma produção gigante, blockbuster mesmo. Como foi a sua experiência no set? Você teve que atuar bastante com tela azul, foi algo novo pra você?
TASSY: A gente usou a tela azul, mas não tanto. O filme tem muitos elementos reais mesmo. A minha roupa de astronauta, por exemplo, tinha vários detalhes - aquele sapato que era um pezão enorme, o painel na frente da roupa, com botões que eram realmente funcionais. Eu precisava de duas pessoas, no mínimo, para colocar o traje. Colocava as calças sozinha, mas a parte de cima era muito pesada, precisava um pessoal segurar aquilo e eu meio que “mergulhava para cima”. Depois eles colocavam as luvas, eu não conseguia fazer mais nada. Dentro da roupa ainda tinha um sistema de ar, para que eu pudesse respirar ali, mesmo com o capacete - senão eu ia morrer sufocada [risos] -, e uma luz de LED para iluminar o meu rosto, aparecer na câmera. Eram 10 quilos de roupa, então assim… apesar de eu nunca ter ido para a Lua, senti a gravidade!
Por falar na Lua, aqueles transportes lunares que a gente dirige existiam mesmo, aquela terra cinza que a gente atravessa. A nossa astronave era um set de verdade, um estúdio quadrado com uma suspensão hidráulica - quando a gente ia para a esquerda, o set virava junto -, com os painéis cheios de botões que você conseguia mexer mesmo, uma alavanca para acelerar a nave. Naquela parte que tem os meteoritos se aproximando na astronave, eram pedaços de isopor colorido. A única coisa que era 100% digital mesmo era o horizonte, o céu, que eles botaram o tecido azul gigante para substituir depois. E isso foi surreal, facilitou muito o nosso trabalho, não precisamos imaginar tanta coisa.
OMELETE: Eu queria falar com você também sobre outra coisa - vi no seu Instagram um post sobre uma sessão de Ainda Estou Aqui que você compareceu na China. Queria saber: na sua experiência, os chineses curtem cinema brasileiro? Como foi o impacto desse filme aí?
TASSY: Esse não foi o primeiro filme brasileiro que eu assisti aqui na China. A embaixada do Brasil costuma fazer festivais de filmes nacionais aqui - e no caso do Ainda Estou Aqui foi a segunda vez que eu vi, porque eu tinha ido ao cinema no dia anterior. Eu soube que estava em cartaz, comecei a chamar vários amigos, tanto que a gente quase fechou uma sala para assistir ao filme. E ali eu tive a oportunidade de conversar com os chineses, muitos deles foram ver porque estão estudando português, porque querem praticar e também entender um pouco da nossa história. Muitos foram ver sem saber que era uma história baseada em fatos reais, e ficaram surpresos.
Eu tento um pouco fazer a ponte cultural Brasil-China, porque tem tanta coisa para mostrar para os dois lados. Mostrar a China para o Brasil, o Brasil para a China. Por isso achei incrível essa oportunidade de participar de Terra à Deriva, porque sei da responsabilidade de carregar a nossa bandeira aqui no braço, falar português nas cenas. É uma responsabilidade grande, e sei que eu não sou a única ponte conectando os países, mas ser parte disso é uma honra. Foi muito legal ver como os chineses reagiram ao filme - lá naquela sessão de Ainda Estou Aqui, depois que o filme acabou, eu vi umas pessoas olhando para mim, cochichando, e depois eles se aproximaram e disseram que me reconheceram como a Emilia. Foram muito, muito queridos.
OMELETE: Que legal! Muito obrigado, viu, Dani? Parabéns pelo filme de novo.
TASSY: Imagina! Eu que agradeço, Caio.
*Terra à Deriva 2: Destino chega aos cinemas nacionais em 23 de abril, pela Sato Company.
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