10 anos de Tá Chovendo Hambúrguer

Créditos da imagem: Divulgação/Sony Pictures

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10 anos de Tá Chovendo Hambúrguer

Beirando o cancelamento, animação foi responsável por catapultar Phil Lord e Christopher Miller, de Aranhaverso

Gabriel Avila
18.09.2019
18h55

Phil Lord e Christopher Miller são hoje grandes nomes em Hollywood. Conhecidos pela direção de Uma Aventura LEGO e por estarem diretamente ligados à produção de Homem-Aranha no Aranhaverso, a dupla fez sua estreia como diretores em Tá Chovendo Hambúrguer. A animação, que completa dez anos nesta quarta-feira (18), fez tanto sucesso que a Sony Pictures fechou um contrato de exclusividade com os cineastas. Porém, essa trajetória de vitórias quase chegou ao fim prematuramente há uma década, quando o duo chegou a ser demitido e quase não completou o longa animado sobre um cientista que faz chover comida em sua cidade.

Em 2003, a divisão de animação da Sony comprou os direitos para adaptar o livro infantil Cloudy with a Chance of Meatballs, um conto ilustrado sobre uma cidade que chovia comida. Inicialmente, os irmãos Brizzi (Tarzan e O Corcunda de Notre Dame) dirigiriam com base no roteiro de Wayne Allan Rice (Jogo Suicida), que deixou o projeto. Para substituí-lo, o estúdio buscou Phil Lord e Christopher Miller, jovens roteiristas que estavam chamando atenção graças à Projeto Clonagem, uma série animada do Adult Swim. No fim, eles acabaram dirigindo e escrevendo o filme. De acordo com Lord, a primeira dificuldade enfrentada pela dupla estava em um pequeno grande detalhe: “a única coisa que o livro não tem são personagens e história”. A publicação de Judi Barrett e Ron Barrett acompanha um avô contando o curioso cotidiano meteorológico de sua cidade. Eles então buscaram inspiração em longas de desastre, produções que geralmente giram em torno dos mesmos personagens, como políticos, policiais e cientistas, o que despertou o primeiro esboço do protagonista: “Não seria ótimo fazer um filme em que o herói é o cientista?”.

Inicialmente Flint seria um dos maiores cientistas do mundo, trabalhando para uma espécie de NASA. Ao contrário do jovem desajeitado, ele seria um prestigiado pesquisador até que uma de suas invenções dá errado, causando uma epidemia de soluços que o leva ao ostracismo. Sua jornada originalmente seria a respeito de recuperar seu prestígio. Essa versão inicial levou um ano para ficar pronta e deixou os executivos da Sony tão insatisfeitos que Miller e Lord foram demitidos. Entretanto, não foi o fim da linha para a dupla, que foi recontratada após seus substitutos não conseguirem dar continuidade ao projeto.

O duo retornou ao estúdio com uma grande pressão para arrumar a bagunça que eles mesmos haviam ajudado a criar. Phil Lord relembrou que o período foi muito caótico, pois haviam “muitas ideias” na sala. O ponto de partida foi remodelar seu protagonista. Ao invés de bem-sucedido, o cientista seria um fracassado cuja motivação era se provar para o povo da cidade em que vive. Além de simplificar o personagem, facilitaria a identificação do público, principalmente pelo fato de que ele não seria mais um “babaca”. Após remodelar o herói e seu trajeto, a dupla apresentou uma nova versão do filme que não caiu nas graças do estúdio. Embora a equipe tenha achado o corte muito divertido, os executivos caíram no sono, colocando seus empregos em risco. Amy Pascal, chefe da Sony Pictures na época, foi categórica em sua orientação para o projeto: “Eu quero uma história!”.

Conscientes de que a rejeição era causada em maior parte graças à dificuldade do público em se conectar à história, os diretores tomaram uma direção ao destacar a importância dos relacionamentos. Porém, metade do orçamento foi gasto durante a produção da nova versão, criando outra camada de dificuldade, o que obrigou a equipe a ser criativa. A mais significativa das alterações foi o reaproveitamento de um personagem, que de figurante se tornou o pai de Flint. A mera ideia de dar uma família para o herói criou uma nova dinâmica para a história, dando a ele alguém com quem se relacionasse e fosse uma das “cobaias” das invenções. Lord relembrou depois que essa escolha transformou o filme, que “finalmente fez sentido”, pois a história se tornou emocional e mais universal.

Divulgação/Sony Pictures

Aprovado, Tá Chovendo Hambúrguer finalmente chegou aos cinemas norte-americanos em 18 de setembro de 2009. Ele se tornou um grande sucesso ao contar a fantástica história sobre deliciosas comidas caindo do céu que, durante 90 minutos, apostou em uma comédia afiada, baseada em piadas curtas. Com um orçamento de aproximadamente US$ 100 milhões, a animação arrecadou mais de US$ 240 milhões no mundo todo, garantindo uma sequência, lançada em 2013, e uma série animada que atualmente está em sua segunda temporada. A turbulenta jornada para o lançamento do filme foi um grande aprendizado para Phil Lord e Chris Miller, que foram contratados para comandar a comédia Anjos da Lei. Porém, a dupla se encontrou novamente no gênero com Uma Aventura LEGO, produção que levantou suspeitas de ser apenas um longo comercial da linha de brinquedos e caiu no gosto tanto do público quanto da crítica.

Phil Lord revelou que o processo ensinou valiosas lições a respeito do desenvolvimento criativo das animações. Segundo o diretor, como ele é realizada ao contrário, começando pela edição para só no final “filmar”, nunca é tarde para ter novas ideias, embora admita que reescrever é sempre difícil. Lições valiosas que Lord utilizou ao escrever o roteiro de Homem-Aranha no Aranhaverso ao lado de Rodney Rothman. Aclamada por público e crítica, a animação venceu grandes premiações, inclusive o Oscar de Melhor Animação. Durante sua conferência no Ted Talk, o diretor, que foi criticado por não conseguir contar uma história, refletiu a respeito da grande moral de toda essa jornada: “quando você faz filmes ou conta histórias, você se torna escravo da história. Você tem que deixar seu ego na porta, trazer toda a humildade e aprender o máximo que puder, do público e dos seus amigos, para fazer um filme tão bom quanto puder".