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Sunshine - Alerta Solar

Estréia ficção científica espacial de Danny Boyle

Marcelo Hessel
12.04.2007
15h10
Atualizada em
06.11.2016
13h02
Atualizada em 06.11.2016 às 13h02

Em um primeiro contato, Sunshine chama a atenção pela plasticidade das imagens, em desequilíbrio com a dramaturgia flácida. Repensando o filme, o que fica na memória, mais do que o drama dos personagens, é o imaginário que os cerca. Em outras palavras, o visual não se esvai.

O bailado de imagens grandiosas, registradas em travellings lentos, como se a câmera estivesse mesmo solta na gravidade zero, relembra bastante a linha estética imposta ao gênero desde 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968). Antes do clássico de Stanley Kubrick, ficção científica espacial era assunto de ficção barata, antecipação fantasiosa da era dos videogames. Com 2001, o senso existencialista de que o homem é como um grão de areia no universo se impôs - o cineasta inglês Danny Boyle (Caiu do céu) retoma com Sunshine essa idéia de infinito engolindo o indivíduo.

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Na trama, 50 anos no futuro, o Sol está morrendo e a última esperança da Terra é depositada nas oito pessoas que embarcam na nave Ícaro 2. Eles portam uma carga delicada e perigosa, capaz de engatilhar um mini-big-bang dentro da estrela, o que voltaria a fazê-la brilhar. O problema são dois: se aproximar do sol não é a coisa mais fácil do universo, coisa que a Ícaro 1 (esse é o problema número dois) não conseguiu fazer tempos atrás, em sua missão fracassada.

Michelle Yeoh (O tigre e o dragão), Cillian Murphy (Batman begins, Extermínio), Chris Evans (Quarteto Fantástico, Celular), Rose Byrne (Tróia), Cliff Curtis (Encantadora de baleias), Troy Garity (Ladrão de diamantes), Hiroyuki Sanada (O último samurai) e Benedict Wong (Coisas belas e sujas) formam o elenco/tripulação. Nem todos sobrevivem, evidentemente - no gênero, sacrifício humano é uma constante. Sobreviver em condição adversa ou morrer em nome do ideal maior são as marca do herói na ficção científica.

Se o descarte dos personagens chama a atenção de início, a tentação num segundo momento é relembrá-los como grupo. Destacam-se especialmente os atores orientais, Sanada, Yeoh e Wong. Há algo de herança milenar, de sexto sentido, na maneira como o japonês Sanada observa o ambiente. Talvez seja reminiscência dos filmes de samurai, mas o caso é que Sanada, no seu transe misterioso, parece enxergar mais do que os outros. A hegemonia oriental no elenco não foi por acaso. Boyle compartilha, conscientemente ou não, essa percepção de que os atores não-ocidentais transmitem mais facilmente uma imagem de introspecção.

Não são eles, contudo, os protagonistas. E a necessidade de eleger um - fica evidente desde o princípio que Cillian Murphy é o cara - banaliza a importância dos demais. Optar por seguir a linha kubrickiana, da ficção existencialista, tem esse demérito: a experiência só se amplifica quando se individualiza. Não dá pra ter oito tripulantes alcançando a transcendência ao final da jornada, mesmo porque a identificação do espectador tende a se concentrar em uma pessoa só.

Até pela semelhança do nome, Sunshine se aproxima de Solaris (1972). Como 2001, o clássico de Andrei Tarkovsky abre mão dos coadjuvantes para individualizar a trajetória do protagonista. O problema de Danny Boyle talvez seja a dificuldade que ele tem de eliminar coadjuvantes que teriam rendido ótimos protagonistas.

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