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Star Wars - A força do mito

Star Wars - A força do mito

Érico Borgo
10.06.2002
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h12
Atualizada em 21.09.2014 às 13h12

Não me lembro da minha primeira sessão de cinema.

O pessoal em casa garante que foi Bambi, no extinto Cinespacial, na Rua São João em São Paulo. Era um cinema bizarro, em formato de arena com três telas que exibiam o filme simultaneamente.

A recordação mais antiga que tenho de uma sala de projeção é mesmo de 1983, quando já tinha oito anos. Estava lá para assistir a um filme cujo anúncio tinha visto no jornal. A propaganda mostrava duas mãos segurando uma espada de luz bacana contra um fundo preto. A história foi de tirar o fôlego. Eu nunca havia visto nada parecido.

O filme era O retorno de Jedi (Return of the jedi, 1983). O terceiro de uma trilogia. Mas onde estavam os outros filmes? Lembre-se de que, na época, vídeo-cassete era artigo de luxo e havia poucas locadoras. Star wars Episódio IV - Uma nova esperança (A new hope, 1977) só foi passar na Rede Manchete (atual Rede TV) alguns meses depois. Já ao segundo filme, O império contra-ataca (Empire strikes back, 1980), assisti primeiro na forma de um making-of no SBT e só alguns anos depois em VHS.

Mesmo com tanta confusão cronológica, eu havia sido fisgado. Os motivos, eu só entenderia alguns bons anos mais tarde.

O poder do mito

No início da década de 90, uma mini-série na televisão ajudou-me a compreender o fascínio que Star wars exerce sobre tantas pessoas. O poder do mito, uma série de entrevistas com o historiador Joseph Campbell, conduzidas pelo jornalista Bill Moyers, trouxe pela primeira vez diversos paralelos entre a saga e os temas mitológicos recorrentes desde o início da humanidade.


Moyers, Lucas e Campbell

Durante a série, fica claro que o cineasta George Lucas buscou inspiração em um livro de Campbell, O herói de mil faces, para delinear a saga intergaláctica de Luke Skywalker, a princesa Leia Organa e o pirata espacial Han Solo contra o temido império galáctico personificado por Darth Vader.

Campbell, que era chamado por Lucas de meu Yoda - referência ao mestre jedi que criou para Star wars -, ajudou o cineasta, por meio de seus livros, a entremear sua jornada com dezenas de elementos das histórias mitológicas criadas pelo homem desde o início da civilização. Mas se Star wars é uma reinvenção da roda, qual o seu valor?

Geração Coca-Cola

Cada período da história da humanidade tem seus próprios conjuntos de mitos e rituais que definem as regras básicas de comportamento. As histórias auxiliam na formação espiritual e social de cada indivíduo e lhe fornecem parâmetros para atuar em grupo. Tais histórias podem ou não vir embaladas com algum conteúdo religioso, mas esta não é uma condição essencial. Basta conhecer seus significados. A fé fica por conta de cada um.


Pôster de Star Wars - Uma nova esperança

Nas culturas primitivas, os mitos eram empregados em dolorosos rituais de passagem e comumente narrados pelos anciãos aos mais jovens. Na cultura ocidental, durante séculos tais histórias fizeram-se presentes na literatura grega e latina e na Bíblia. Hoje, em menor escala, ainda são apresentadas, mas levadas pouco a sério pelas novas gerações, que têm dificuldades em absorver tais mitologias em sua roupagem tradicional.

A geração contemporânea, na qual - por enquanto - me incluo, é muito mais suscetível aos apelos visuais. Crescemos em frente a uma televisão e nada poderá apagar essa influência. Atualmente, a criançada continua crescendo com a TV ligada que, em alguns casos, ela vem aliada a outro companheiro ainda mais poderoso: O computador.

Naturalmente, estamos hoje muito mais interessados nas notícias do dia a dia e nos problemas do cotidiano. Valores eternos? Vida espiritual? Quem tem tempo pra isso no frenético mundo em que vivemos?

O problema é que tais histórias fazem falta. Sem elas, persiste o vazio do conhecimento, algo que pode comprometer o entendimento de fato inéditos em nossas vidas.

É aí que entra Star wars, cuja trama pode se passar muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, mas que, na verdade, está mais perto de você do que imagina.

Um mito moderno


Pôster de O império contra-ataca

Claro, não é só Star wars. A saga é um mero exemplo. Um dos bons. No entanto, outros filmes, seriados de televisão, livros, videogames e histórias em quadrinhos, quando tratados com seriedade, podem estar imbuídos de significado.

O valor essencial da série não são os efeitos especiais, a ambientação em outros planetas ou as espécies alienígenas. Esses são meramente elementos comuns às ficções científicas, alvo de preconceito por muita gente, fruto de milhares de produções de qualidade duvidosa.

A essência de Guerra nas estrelas vem justamente dos arquétipos, as idéias mitológicas presentes em quase todas as religiões e mitos relevantes na História da humanidade. A princípio, é até tanto estranho, pois a palavra mitologia traz à mente estátuas de deuses e musas e não de andróides e naves espaciais. Entretanto, no momento em que entendemos que esse tipo de narrativa é apenas um veículo para compartilhar experiências sobre o mundo, aventuras, crescimento e escolhas, tudo na forma de metáforas que transmitem significados, começa a soar mais palatável a possibilidade de Star wars ser algo mais do que películas com efeitos especiais, não?

A jornada do herói


Luke Skywalker (Mark Hamill)

Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness) - mestre jedi

Yoda, mestre na manipulação da força

Numa estrutura mitológica típica, é um desafio comum deixar o mundo limitado em que se foi criado, enfrentar provações orientado por alguém, adquirir algo que estava faltando e voltar.

Em Star wars, Luke Skywalker (Mark Hammil), deixa o planetinha desértico em que vive, inicia suas viagens pela galáxia na companhia de Obi-Wan Kenobi, o mesmo mestre que orientou seu pai no passado, enfrenta o lado negro da força, torna-se um jedi e retorna ao seu planeta para libertar seus amigos, incluindo sua irmã gêmea - outra idéia arquetípica. Essa é a jornada do herói, apenas uma entre dezenas de estruturas míticas existentes nos filmes.

O lado negro da força que Luke precisa enfrentar é o emprego com fins destrutivos do poder da natureza. A força é o campo de energia que liga todas as coisas existentes. Um misto de física quântica com religiões orientais. Ciência mesclada a fé. Algo difícil de explicar, mas facílimo de entender.

Os mestres na manipulação da força são os cavaleiros jedis, membros de uma ordem quase religiosa, formada por nobres guerreiros e mantenedores da paz. Tornar-se um jedi exige o maior comprometimento que um homem é capaz. Um cavaleiro dessa ordem não deve ter medo, ódio ou mesmo amor no coração.

Foram inspirados nos guerreiros Samurais do Japão feudal, que viviam apenas para seu objetivo - proteger seu mestre. Qualquer desvio em sua conduta deveria ser punido com a morte, pelas mãos do próprio samurai. Alguns desses preceitos também são encontrados nos Cavaleiros Templários da idade média e - claro - nos mitos. Sir Percival, o cavaleiro que buscava o cálice sagrado nas lendas Arturianas é nitidamente uma das inspirações para os jedis.

Religião nas Estrelas

Utilizando os jedis e a força, Lucas agrupa todos os elementos religiosos arquetípicos e torna-os mais modernos e acessíveis para as gerações de hoje.

Utilizei a força nos filmes para despertar um certo tipo de espiritualidade nos jovens - mais como uma crença num poder superior do que num sistema religioso em particular, disse Lucas em uma antiga entrevista. Quis utilizar esses meios para que as pessoas começassem a fazer perguntas do tipo Existe ou não um Deus?. Não ter esse tipo de interesse na vida é a pior coisa que pode acontecer a um ser humano. Mesmo que nunca se descubra a resposta, ninguém deve parar de procurá-la, completou.

Qualquer comentário meu a esse respeito, apenas tiraria a força das palavras do próprio cineasta.

Darth Vader - o vilão definitivo


Darth Vader - (David Prowse, voz de James Earl Jones)

O conflito dos rebeldes contra o império galáctico existente em Star wars é uma metáfora para a resistência aos principados e poderes, preocupação existente desde a Idade da Pedra.

Lorde Darth Vader, o vilão máximo do cinema, é a representação dos burocratas. Parte homem, parte robô, Vader também personifica a máquina do estado e é uma dualidade ambulante, misto de ciência com fé. Afinal, ele também foi um cavaleiro jedi.

Outrora Anakin Skywalker, sua queda para o lado negro está sendo revelada por Lucas na nova trilogia, que começou com Ameaça fantasma e teve seqüência recentemente com O ataque dos clones. A transformação de Anakin em Darth Vader acontecerá justamente pela sua falta de respeito aos ensinamentos jedis. O jovem e impetuoso cavaleiro falha em sua missão e, como um samurai, deve sacrificar seu corpo. Morre o homem, nasce a máquina.

Não é à toa que as orientações de Lucas para o designer Ralph McQuarrie sobre o visual de Vader incluiam um manto negro esvoaçante, um capacete largo, como o dos samurais japoneses e uma máscara cobrindo o rosto. McQuarrie conseguiu reunir tudo isso na figura e ainda adicionar elementos que lembram as máscaras utilizadas pelos médicos nas pragas do século XVII, elmos romanos e ainda as vestes de um monge.

Outro fator absolutamente central na estrutura arquetípica de Star wars é Anakin ser PAI de Luke. Boa parte das aventuras mitológicas começa com o filho sendo criado pela mãe, até que, um dia, ela lhe diz: Agora parta em busca do seu pai. O significado da frase - um tanto óbvio - é que o filho deve ir à cata do pai para buscar seu próprio horizonte, sua própria natureza. No caso de Luke, a busca torna-se ainda mais relevante no final, quando ele deve escolher entre manter-se em seu recém-descoberto caminho, confrontando o pai, ou desviar-se dele e abraçar a causa de Vader e o lado negro.

Outras referências


O mestre Obi-Wan apresenta ao jovem Skywalker os caminhos da força

Claro que este artigo inteiro apenas arranha a superfície da história escrita por Lucas. Há centenas de outros detalhes e subtramas. São abundantes também as referências e explicações para cada item de vestuário, espécie, cultura e armamentos criados para os filmes. Cada uma tem sua explicação e raízes na mitologia da série.

São tantas explicações que o Instituto Smithsonian criou, em parceria com a Lucasfilm, uma exposição itinerante sobre o universo de Guerra nas estrelas. Star wars: the magic of myth já dura cinco anos e está atualmente no Brooklyn Museum of Art, em Nova York.

Bibliografia

  • The magic of myth

    http://www.nasm.edu/StarWars



  • O poder do mito

    Joseph Campbell, Bill Moyers (Editora Palas Atena)



  • O herói de mil faces

    Joseph Campbell (Editora Pensamento)



  • As transformações do mito através dos tempos

    Joseph Campbell (Ed.Cultrix)

    Imagens © Lucasfilm