Ben Affleck deixou atores mexicanos dirigirem cenas em espanhol de Sobrevivência
Set do thriller da Netflix foi muito colaborativo, contam Affleck e seus atores
Créditos da imagem: Detalhe do pôster de Sobrevivência (Reprodução)
Quando se trata de incentivar seus atores a participar do processo criativo, Ben Affleck talvez seja um dos diretores campeões de Hollywood. No set de Sobrevivência, seu novo thriller sobre um candidato à prefeito (o próprio Affleck) que tem seu filho sequestrado às vésperas da eleição, colegas de cena como Kerry Washington, Steven Yeun, Gillian Anderson, Adriana Paz e Luis Gerardo Méndez foram encorajados a modificar ou reescrever completamente os seus diálogos… e, em um caso específico, até “assumir a direção” no lugar de Affleck.
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Em conversa com o Omelete, Méndez (que vive Ramón, um imigrante mexicano ilegal que está conectado aos protagonistas através de Cecilia, a babá do menino sequestrado) contou que Affleck o pediu para agir como “a polícia da autenticidade” nas cenas em que os seus dois personagens conversam em espanhol: “Ele me pegou e disse: ‘Preciso que você seja meu preparador linguístico. Vou falar bastante espanhol nesse filme, e se eu disser algo estranho, se não acreditar no que estou dizendo, quero que você me diga’”.
Confira a seguir um trecho do nosso papo com Méndez, Paz, Affleck e Washington sobre esse aspecto tremendamente colaborativo de Sobrevivência, e de que formas essa história multicultural sobre Los Angeles (EUA) se transformou por causa da abordagem.
OMELETE: Pelo que li sobre a produção deste filme, parece ter sido um processo muito colaborativo - o Ben até disse em outra entrevista que alguns dos atores escreveram seus próprios diálogos. Então, eu queria saber: como foi esse processo, e o que acham que mudou no filme por causa disso?
PAZ: Sim. Quero dizer, o Ben estava muito aberto a ouvir nossas opiniões e, de fato, nos disse: "Vocês são mexicanos, eu não sou mexicano, então se precisarem mudar algo, têm que fazer. É o filme de vocês. Eu apenas escrevi este roteiro, mas vocês vão trazer a realidade e a verdade para os seus personagens. Sintam-se livres para mudar o que quiserem, até mesmo sem me perguntar, ou podemos conversar sobre isso". Ele esteve muito aberto o tempo todo e isso foi ótimo.
MÉNDEZ: Sim, isso aconteceu no primeiro dia. Ele veio até nós e nos abraçou com suas costas enormes de Batman, porque ele é muito grande e muito forte. [Risos] E ele disse: "Eu preciso de vocês. Este também é o filme de vocês, é um filme mexicano de certa forma, então o que quer que queiram fazer, apenas façam". Então ele me pegou e disse: "Preciso que você seja meu preparador linguístico. Vou falar bastante espanhol nesse filme, e se eu disser algo estranho, se não acreditar no que estou dizendo, quero que você me diga. Quero que você seja como a polícia da autenticidade no set". E eu fiquei tipo: "Sim, senhor". [Risos] Então foi muito surreal porque, sabe, eu cresci assistindo ao Ben na tela. Argo é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Então, sim, ele estava me dirigindo, mas às vezes eu estava dirigindo ele, principalmente quando estávamos fazendo uma cena juntos falando em espanhol. Tudo foi muito surreal, mas também muito bonito.
AFFLECK: Acho que não há nada nos diálogos da Kerry que ela não tenha tocado, escrito ou ajustado...
WASHINGTON: Você está fazendo eu parecer tão difícil. [Risos]
AFFLECK: Não, de forma alguma! É porque precisava ser real, sabe? Você está tentando construir um casamento. A coisa mais difícil de fazer é essa familiaridade. Quando você está casado há anos, é uma questão de intimidade. Você fica confortável sentado perto da pessoa quando de certa forma não estaria, ou no meio de uma cena você pode colocar o braço ao redor dela...
WASHINGTON: … E não se preocupar com isso.
AFFLECK: Sim, exatamente! E até mesmo de forma muito mais profunda, tipo, qual é a história deste casamento? Nós escrevemos isso juntos, o que, em parte, envolveu uma vulnerabilidade real de pensar: "Quais são as suas experiências reais? Quais são as minhas experiências reais?". Compartilhamos esse tipo de coisa e nos baseamos nisso. Esse é um lugar muito vulnerável a partir do qual construir, e o que você está dizendo aos seus colegas de cena é: "Ei, estou disposto a compartilhar isso com você para pedir isso de você".
Com a Kerry, toda vez que ela tocava em algo ou mudava algo, mesmo que ela decidisse no fim das contas que queria voltar para o diálogo original, sempre ficava melhor do que início, porque já tinha passado pelo DNA dela de alguma forma. E eu estou, mais do que nunca, convencido de que essa é uma abordagem muito inteligente dentro de um set de filmagens. Você precisa de bons atores, atores inteligentes, pessoas que entendem as coisas mais amplas. Claro, não foi só a Kerry. O Steven [Yeun], a Adriana e o Luis escreveram quase todas as cenas deles. Para mim, quando assisto ao filme e o amo, essa é a primeira coisa que amo nele.
*Sobrevivência já está disponível para streaming na Netflix.
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