Shibal | Curta vencedor em Gramado retrata o caos de São Paulo
Filme dirigido por João Rubio Rubinato venceu a Mostra de Curtas-Metragens do festival
Quando pisa num lugar novo, João Rubio Rubinato não consegue simplesmente estar ali. "Eu começo a ver essas coisas e começo a pensar", diz o diretor, formado em Ciências Sociais pela USP, sobre o instinto que carrega desde a adolescência, quando se mudou do interior de São Paulo para a capital, em entrevista exclusiva ao Omelete. Foi esse mesmo olhar — parte sociológico, parte afetivo — que resultou em Shibal (씨발), curta-metragem rodado em 16mm no bairro do Bom Retiro e vencedor da Mostra Competitiva de Curtas-Metragens do Festival de Cinema de Gramado 2026.
O filme acompanha um dia na vida de Tom, gravurista falido interpretado por Tavinho Teixeira, que precisa cumprir uma única tarefa em meio a uma sucessão de contratempos absurdos: entregar uma placa a um restaurante coreano chamado Shibal. No elenco também estão Bianca Comparato, Marcelo Médici, Suk Kim, Paulo Goya, Boni Tao e Stephanie Kim, entre outros. Para Rubinato, o projeto funciona como uma síntese pessoal: "É um filme que reúne minha relação com São Paulo, meu interesse pelas comunidades que a compõem, minha formação como sociólogo, o desejo de fazer um cinema popular profundamente humano, e a força das amizades que fui construindo ao longo desses anos", resume o diretor.
A referência a Kafka, que o próprio Rubinato cita como inspiração, não nasceu do acaso — nem do bairro. Veio de uma percepção sobre a vida cotidiana em São Paulo, a de que escapar de golpes e burocracias exige um tipo de vigilância quase administrativa. "Você tem que tá muito esperto nos procedimentos para você não cair", explica, sobre o absurdismo burocrático que ficou represado em sua memória até encontrar, no Bom Retiro, bairro que ele diz conhecer bem, o território certo para se manifestar. O resultado é uma trama tragicômica em que o caos da cidade grande vira, ele mesmo, personagem.
Tavinho Teixeira, que já havia cruzado com Rubinato em festivais antes de receber o convite para o projeto, conta que o roteiro do filme inteiro se fechou em uma única conversa. Sem conhecer a fundo a antropologia do Bom Retiro, o ator diz ter compensado pelo instinto: "Sinto São Paulo com muita força, porque é uma cidade infinita, onde nunca se acaba", afirma, comparando a experiência de filmar ali à descoberta de uma cidade que parece conter todas as outras — "Isso é Nova York? Isso é Londres?", lembra ter pensado ao ver o ateliê do personagem. Para compor Tom, ele recorreu a referências literárias como Bartleby, de Melville, e ao teatro de Beckett, enxergando no gravurista perdido em meio ao caos paulistano um imigrante nordestino que aprendeu a viver entre outras comunidades — no caso, a coreana do Bom Retiro.
Essa relação entre Rubinato e a cidade não é nova nem exclusiva de Shibal. O diretor já havia usado a Marginal Pinheiros como pano de fundo para discutir desigualdade em seu primeiro filme, e o litoral de Guarujá para tratar de especulação imobiliária em Pérola do Atlântico. Formado em cinema autoral desde 2018, ele soma seleções em festivais como Gramado, Curta Kinoforum, CineBH e Midwest Film Fest, além de trabalhos como diretor de fotografia exibidos em Oberhausen, Biarritz, Locarno e Palm Springs — caso do longa Deuses da Peste, vencedor do Grande Prêmio Carlos Reichenbach na Mostra de Tiradentes. Membro da ABC desde 2025, ele agora desenvolve seu primeiro longa como diretor, Prova de Vida.
Com roteiro e direção de Rubinato e produção de Enzo Celulari, a vitória em Gramado consagra o retrato mais recente de uma cidade que, segundo o próprio diretor, "é infinita" — e que, para quem a observa com olhar de sociólogo, nunca para de revelar novas camadas.
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