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Senhores do Crime

Filme de David Cronenberg deu a Viggo Mortensen merecida indicação ao Oscar

Marcelo Hessel
21.02.2008, às 17:00
Atualizada em 21.09.2014, às 13:33
Atualizada em 21.09.2014, às 13:33

Com exceção de uma extraordinária e já famosa cena de luta numa sauna, Senhores do Crime (Eastern Promises), de David Cronenberg, evita grandes catarses. O filme está no espectro oposto dos gozos de sangue de Crash - Estranhos Prazeres e Marcas da Violência: a cena de catarse se intensifica enquanto o resto do filme repousa numa espécie de suspensão etérea.

Ainda que seja rico em significados, Senhores do Crime é um filme algo fugaz.

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Fugaz porque, antes de mais nada, trata de uma história escusa que não diz respeito a ninguém. Enfermeira em um hospital inglês, Anna (Naomi Watts) acolhe o bebê de uma misteriosa jovem russa que morreu no parto. Junto com o bebê, um diário, que contém segredos da máfia russa em Londres. Anna procura os russos para dar um destino seguro ao bebê, mas periga perder a vida porque se intrometeu no assunto dos outros.

O capanga russo encarregado de cuidar de Anna, Nikolai (Viggo Mortensen), é a personificação do fugaz. Fala mansamente sempre olhando para os lados, age e move-se de forma econômica, responde a ordens com uma submissão lenta. A trama de Senhores do Crime se põe em movimento, principalmente, porque a aflita Anna e o sólido Nikolai são completos opostos. E os opostos... Você sabe.

Mas não se preocupe que o roteiro do filme, escrito por Steve Knight (Coisas belas e sujas), está longe de ser uma melosidade - ao contrário do que o trabalho prévio de Knight poderia sugerir. Cronenberg se apossa da premissa para, mais uma vez, tratar dos temas que o assolam, como a questão do corpo e da identidade, ou, mais exatamente, da identidade como uma questão de corpo.

Tatuagens, atos sexuais, nus e o balé rijo de Mortensen - indicado muito justamente ao Oscar de melhor ator - são as expressões dessa identidade contida no corpo. Aos poucos em Senhores do Crime vamos descobrindo que a trama não se concentra em Anna, e sim em Nikolai, especificamente no trajeto que levará o russo a ter seus méritos reconhecidos dentro da organização para que trabalha.

Se o longa parece fugaz, talvez seja pela "insistência" do espectador em acompanhar a subtrama de Anna a que fomos apresentados no começo, subtrama acima de tudo efêmera perto do que Cronenberg reserva a Nikolai. Digamos que a efemeridade não é um defeito de Senhores do Crime, mas uma contra-indicação.

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