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São Paulo Sociedade Anônima retorna aos cinemas mais relevante do que nunca

Nova restauração em 4K do clássico de Luiz Sérgio Person está em cartaz

Omelete
5 min de leitura
03.03.2026, às 11H46.
Atualizada em 03.03.2026, ÀS 12H42
São Paulo Sociedade Anônima

Créditos da imagem: Vitrine Filmes

No último fim de semana, em debate após a estreia da versão remasterizada de São Paulo Sociedade Anônima no Cinema da Fundação em Recife, a atriz e cineasta Marina Person descreveu o filme como “uma anti-cinebiografia” de seu pai, o diretor Luiz Sérgio Person, responsável pela obra-prima brasileira que completou 60 anos em 2025, e agora retorna com visuais restaurados aos cinemas do país através da iniciativa Sessão Vitrine Petrobrás. Impecável em 4K, o longa se revela mais relevante do que nunca, e tudo isso começa justamente com Carlos, o protagonista ansioso vivido por Walmor Chagas.

Como explicou Marina, seu pai via Carlos como uma espécie de reflexo num espelho quebrado. “O homem que ele poderia ter sido, ela disse, sugerindo que Person enxergava o personagem de seu maior filme como um caminho alternativo para sua vida – quem ele seria se as coisas tomassem outro rumo. Não é difícil entender o que ele quer dizer. Em São Paulo S/A, Carlos é mesquinho, egoísta, machista e explosivo. O que o filme todo aponta, porém, é que ele se tornou tudo isso por uma razão. Um homem de muitos defeitos, Carlos, ao menos, não parece ser ganancioso, e repetidamente diz que só quer viver em paz, seguir seus dias e não se preocupar. Ao contrário da sociedade cada vez mais industrializada ao seu redor, ele só quer ter dinheiro o suficiente para não se preocupar com ter dinheiro o suficiente.

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O filme sem dúvidas não o isenta de seus erros, mas à luz de como Marina detalha a visão de seu pai sobre Carlos, está claro que o cineasta – nascido e criado na capital paulista – estava interessado nos fatores que levam alguém a surtar como ele surta aqui. Assistindo ao filme em 2026, não é difícil traçar paralelos com obras modernas sobre a ansiedade da vida dos jobs no capitalismo moderno. Joias Brutas, Anora e Marty Supreme são apenas alguns dos exemplos recentes que vêm à mente quando o cinema aborda o corre-corre na cidade grande. No caso de São Paulo S/A, a metrópole titular só potencializa o nervosismo de Carlos e daqueles a seu redor. Como informa Marina, seu pai originalmente pensava em chamar o filme de Agonia.

Seria apropriado, mas o título final – que sugere a privatização de uma cidade, assim como a presença de uma entidade julgando seu trabalho na mesma  – é mais do que perfeito. Olhando para a São Paulo atual, cada vez mais corporativa e cara, indiferente a seus cidadãos, São Paulo S/A ganha ares de profecia. A fotografia de Ricardo Aronovich, especialmente nesta linda restauração, captura a essência frenética e imponente dessa Babilônia brasileira. Seus prédios frequentemente cercam a todos como uma muralha, enclausurando-os numa sopa de pessoas apressadas, propagandas e cacofonias. É um trabalho visual que, por si só, justifica a tentativa desesperada de Carlos de fugir daquele local no clímax do longa, assim como a sensação de derrota que permeia sua face quando ele retorna, entregue ao magnetismo de uma gigante cidade-escritório.

São Paulo Sociedade Anônima
Vitrine Filmes

Ainda nessa linha, a montagem ágil de Glauco Mirko Laurelli traduz bem para a tela o frenesi de um lugar onde tudo é longe, e portanto é preciso correr o tempo todo. Nascendo do ritmo dessa correria está a trilha sonora de Cláudio Petráglia, cujos sons parecem constantemente empurrar os personagens para fora da zona de conforto. Afinal, não é assim em São Paulo? Não é assim no corporativismo? Nunca chegamos ao suficiente. “Mais,” é o que demanda a tal sociedade anônima. São Paulo S/A está sempre em movimento, e Carlos está sempre tentando parar. Eis a tensão que torna essa obra tão desconfortável.

Na nova projeção cristalina do filme, todos esses elementos se anunciam como tão modernos que a única coisa nos impedindo de concluir que São Paulo S/A foi feito agora é justamente seu interesse em examinar as raízes do Brasil industrializado. Diagnosticando a origem de grandes fábricas e as motivações de homens de negócio, Person repetidamente identifica a corrupção, o jeitinho e os acordos como motores. Assistindo ao filme em 2026, cientes de como são as árvores podres que ali, seis décadas atrás, estavam sendo plantadas, é espantoso ver como pouca coisa mudou. Por outro lado, é assustador ver como tudo cresceu. Usamos menos ternos em público, os carros são mais feios e os penteados mudaram, mas os temas explorados no roteiro do cineasta não só continuam urgentes, como também ganharam novas facetas com o passar do tempo. Como os prédios de SP, eles ficaram maiores.

São Paulo Sociedade Anônima
Vitrine Filmes

Observe, por exemplo, a subtrama sobre Hilda (Ana Esmeralda) ex-namorada de Carlos que, graças aos contatos de homens com certo poder, usa sua beleza para iniciar uma carreira na mídia sem perceber, ou ligar para, a perversão de quem está lhe abrindo a porta. Pense na presença recorrente das aulas de inglês, onde Carlos conhece Luciana (Eva Wilma, cuja atuação e presença ficam ainda mais grandiosas na remasterização), e como a internacionalização se tornou inseparável do mercado nos anos desde a estreia do filme.

Se São Paulo S/A termina com seu protagonista discursando, quase no tom de uma oração desesperada, sobre a necessidade de recomeçar, então o relançamento do filme abre a oportunidade perfeita para redescobrir a miríade de ideias que Luiz Sérgio Person aplica aqui. No caso de Carlos, o recomeço quase certamente será em vão, e ele será novamente preso num ciclo vicioso. Para o público, porém, visitar o filme agora trará riquezas mil.

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