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No novo Resident Evil, você descobre que não é o Leon - e aí está o problema

Zach Cregger propõe uma visão diferente para adaptações e a revolta de alguns é compreensível, mas talvez por outros motivos

Omelete
4 min de leitura
18.09.2026, às 20H06.

Durante muito tempo, as adaptações de videogame foram avaliadas pela capacidade de reproduzir personagens, acontecimentos e imagens que os fãs reconhecem. A roupa precisa estar certa, o monstro deve se parecer com o original e a história não pode se afastar demais daquilo que os fãs conhecem. O novo Resident Evil escolhe um caminho diferente porque, mais do que adaptar a mitologia da franquia ou recriar aquilo que já vimos nos jogos, tenta colocar no cinema a experiência de jogar um survival horror.

É compreensível que isso provoque uma quebra de expectativa. Quem acompanha Resident Evil há anos naturalmente espera encontrar a mesma história dos jogos ou, pelo menos, uma narrativa parecida, com personagens, conflitos e situações que remetam diretamente àquilo que conhece. Quando o filme se afasta disso, a primeira reação pode ser de frustração, especialmente porque estamos falando de uma franquia que possui uma mitologia extensa e heróis muito queridos.

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Mas adaptação também é tradução. Não precisa significar a repetição da mesma história em outra mídia, principalmente quando aquilo que torna uma obra especial não está apenas em seu roteiro. No caso de Resident Evil, está também na experiência de jogar, e é justamente esse o elemento que o filme decide colocar no centro.

Isso significa aceitar toda a lógica absurda que às vezes faz parte de um jogo. Chaves aparecem nos lugares mais improváveis, munições estão espalhadas por ambientes completamente desconexos e enigmas elaborados impedem a abertura de portas que poderiam ter apenas uma maçaneta. Quando estamos jogando, porém, nada disso parece realmente estranho. Entendemos as regras daquele universo e seguimos em frente sem fazer muitas perguntas.

A parte cômica do filme trabalha muito em cima disso e, principalmente, da maneira como nós mesmos jogamos. Erramos o caminho, gastamos munição sem necessidade, tomamos decisões ruins e insistimos em soluções sem qualquer lógica real. Se uma parede parece estar nos chamando para atravessá-la, aceitamos. Se encontramos balas no banheiro de uma casa abandonada, não perguntamos quem colocou aquilo ali. Apenas pegamos e continuamos jogando.

A revolta pode ficar ainda maior porque o filme não adapta apenas o gameplay, mas troca o herói idealizado por alguém muito mais simples. Quando jogamos Resident Evil, nós nos projetamos em Leon, Jill, Claire ou Chris. Sentimo-nos preparados, inteligentes e capazes de sobreviver a qualquer coisa. O videogame diminui a distância entre quem está com o controle e quem aparece na tela. Não estamos apenas acompanhando o herói, nós acreditamos que somos o herói.

O filme quebra essa fantasia ao colocar em cena alguém muito mais próximo da pessoa que realmente está segurando o controle. É um sujeito sem físico heroico, com barriguinha, hesitação, problemas amorosos e aluguel para pagar. No fim das contas, ele só precisa concluir uma entrega e conversar com a namorada, mas acaba preso em uma situação completamente absurda.

Por isso, a identificação proposta pelo filme é menos confortável. O público nem sempre procura um espelho quando vai ao cinema, especialmente em uma adaptação como essa. Muitas vezes, quer escapar da própria realidade, acompanhar personagens idealizados e acreditar que poderia ser como eles. Você queria se enxergar como Leon, mas o filme mostra alguém cansado, atrapalhado e sem qualquer preparo para enfrentar o que está acontecendo.

Essa reação não deve ser tratada simplesmente como resistência de fãs a qualquer mudança. Existe uma expectativa legítima de reencontrar a história, o universo e os personagens que fizeram Resident Evil ser amado. O que o filme faz, porém, é buscar essa fidelidade em outro lugar. Em vez de reproduzir a narrativa, ele tenta reproduzir a sensação de estar no controle, inclusive nos erros, nas decisões ruins, nos absurdos que aceitamos e na satisfação de finalmente superar alguma coisa.

Por isso, a adaptação pode ser dolorida, engraçada e, em alguns momentos, irritante, mas também recompensadora. Videogames são muito sobre essa mistura de poder e vulnerabilidade, inteligência e estupidez, controle e improviso. Nós nos sentimos imbatíveis quando resolvemos um enigma difícil, mesmo que tenhamos passado os dez minutos anteriores tentando abrir a porta errada.

No fim das contas, o que realmente torna um jogo único não é apenas a história, a iconografia ou a mitologia, mas o gameplay. Resident Evil entende isso de uma maneira que poucas adaptações conseguiram e tenta levar para o cinema não apenas aquilo que aparece na tela, mas também a experiência da pessoa que está diante dela. O filme coloca o jogador no centro de tudo, só que, no lugar do herói que imaginávamos ser, revela alguém muito mais simples e parecido conosco.

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