Por que é um problema Vingadores: Ultimato ter ultrapassado Avatar

Créditos da imagem: WETA/Twentieth Century Fox/Marvel Studios/Divulgação

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Por que é um problema Vingadores: Ultimato ter ultrapassado Avatar

Independentemente da qualidade dos dois filmes, tática da Marvel Studios mostra um descompromisso com sua própria arte

Julia Sabbaga
23.07.2019
17h17
Atualizada em
24.07.2019
13h26
Atualizada em 24.07.2019 às 13h26

O painel da Marvel Studios no Hall H da San Diego Comic-Con começou com o já aguardado anúncio de Kevin Feige que Vingadores: Ultimato, o último capítulo da Fase 3 do MCU, se tornou a maior bilheteria de todos os tempos. Atualmente com uma arrecadação de US$ 2,790 bilhões, o longa da Marvel finalmente tomou a liderança de Avatar (em valores não ajustados com a inflação), que permaneceu no topo por quase 10 anos. Mas isto não aconteceu de modo natural. Para atingir a quantia, o estúdio precisou relançar Ultimato nos cinemas com alguns minutos extras, incluindo uma cena não-finalizada. A tática da Marvel se provou efetiva, mas para que a proeza fosse atingida, o estúdio abriu mão da sua arte.

A liderança de Vingadores: Ultimato na bilheteria mundial não é inválido e muito menos surpreendente. Há tempos o estúdio domina as arrecadações semanais e cada lançamento do MCU nos cinemas já é um sucesso garantido. Era até esperado que o capítulo final da Saga do Infinito batesse a bilheteria de Avatar, o que torna compreensível a vontade inconsequente do estúdio de conquistar o topo uma vez que isto não aconteceu naturalmente. O problema é um estúdio que sempre teve tanto cuidado em oferecer uma experiência completa aos fãs ter aberto mão até de seu principal suposto objetivo para colocar o nº 1 no currículo.

A nova versão de Vingadores: Ultimato traz um tributo a Stan Lee, a primeira cena de Homem-Aranha: Longe de Casa e, o mais chamativo de tudo, uma cena não-finalizada do Hulk. Com efeitos visuais incompletos, a cena é claramente um extra de DVD, que faria fãs vibrarem com o produto, mas definitivamente não justifica um relançamento nos cinemas. A versão cai como um golpe baixo do estúdio, que precisava de um último impulso para superar o longa de James Cameron

Seria ingênuo realmente imaginar um mundo em que o objetivo de cada estúdio não seja lucro. Mas não é a vontade de arrecadar dinheiro que torna a tática da Marvel desleal. É uma priorização do marco acima da experiência do fã. Um dos elementos que faz do estúdio o que ele é hoje é seu proclamado compromisso com seus seguidores. Cada passo na jornada dos heróis que levou até Ultimato, cada cena recheada de fan service, momentos que fizeram os fãs gritarem com a tela e, inclusive, o espetáculo que Kevin Feige faz em cada aparição na Comic-Con, soa como um “estamos aqui por vocês”. Relançar um produto não-finalizado para que fãs gastem um pouco mais é o oposto disso. Mais do que isso, o lançamento de uma cena como essa em um filme que culmina uma jornada de dez anos, tão bem calculada e realizada, mostra um descompromisso com a sua própria arte. Pode ser surreal imaginar um mundo em que estúdios não priorizem lucro. Mas não é surreal também viver em um mundo em que estúdios lançam rascunhos de seus filmes no cinema?

Em sua época, Avatar também foi relançado nos cinemas, mas o caso foi muito diferente. Quando retornou às salas, oito meses depois de sua estreia, o longa já tinha o primeiro lugar mundial. Ele foi relançado pela própria experiência cinematográfica, com nove minutos adicionais totalmente finalizados. Como a superprodução de Cameron prezou o visual acima de muita coisa, o movimento fez sentido com a sua proposta. A nova versão, inclusive, não foi fácil; cada minuto adicional custou US$ 1 milhão à produção. 

Deve-se enfatizar, claro, que nada disso diz respeito à qualidade dos dois filmes. Inclusive, estar no topo da bilheteria nada diz respeito à qualidade crítica de uma produção. Mas James Cameron, o diretor que preza tanto pela estética e tecnologia, nunca consideraria um truque como o que a Marvel fez. Na realidade, a liderança da Marvel Studios, principalmente do modo que se deu, é apenas mais um sintoma do caminho do cinema atual, de remakes, reboots e sequências. É a liderança na bilheteria acima de qualquer experiência ou arte.