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Por dentro de Vingadores - Guerra Infinita: uma conversa com os diretores Joe e Anthony Russo

Irmãos falam sobre experiência grandiosa na última parte da nossa visita ao set

Thiago Romariz
25.04.2018
09h29
Atualizada em
04.05.2018
09h02
Atualizada em 04.05.2018 às 09h02

O fim estava próximo. Olhando no meu celular, aquele mesmo que teve a câmera lacrada pelos seguranças da Disney, notei que ao menos cinco horas tinham se passado desde que cheguei a Pinewood. Os galpões do estúdio, àquela altura, não eram mais um ambiente vazio e cheio de eco e sim o quartel general dos maiores heróis da Marvel. Eu só tinha a sorte de estar ali, recebendo cada um deles para falar sobre as aventuras da Guerra Infinita. E agora era hora de falar com os comandantes: Joe e Anthony Russo.

Wikimedia Commons/Divulgação

Eles chegaram bem agasalhados, com algumas olheiras dando o sinal do cansaço. "É isso, pessoal, últimos dias. Faltam três semanas e terminamos", disse Joe ao sentar na mesa para iniciar a entrevista. Naquele dia, os últimos ajustes de Guerra Infinita e Vingadores 4 estavam sendo feitos. Como a Marvel decidiu gravar os dois filmes juntos, poucas pessoas sabiam diferenciar qual cena era de qual filme. Somente os irmãos Russo sabiam de verdade do que se tratava cada filmagem. Mas pensando bem, um dos maiores desafios da dupla era deixar de lado a pressão gigante que era liderar um filme como aquele. Soldado Invernal e Guerra Civil foram uma boa preparação, mas nada se compara à Guerra Infinita.

"É importante bloquear a pressão. Porque nada de bom vem dela. Não podemos também tomar decisões baseadas no medo [da recepção do filme]. Acho que nós fizemos, até aqui, o melhor possível para bloquear esse papo e essa pressão. Nós amamos os fãs, mas também sabemos que não se pode agradar a todos; e se você tentar fazer isso é bem possível que faça um filme terrível. Nós apenas nos concentramos no que achamos interessante, sobre o que nos empolga para fazer o filme e no fim nós fazemos o filme que nós mesmos queríamos ver”, opinou Joe, o mais sossegado e baixinho dos dois irmãos.

Anthony, que usa óculos e estava com um casaco com estampa do exército, sorria um pouco mais e se prontificou a responder a próxima pergunta. Quem é Thanos e como eles decidiram torná-lo o protagonista do maior filme da Marvel de todos os tempos? "Nós estamos sempre preocupados em mostrar um jeito novo de apresentar um personagem. Acho que fizemos isso em Soldado Invernal. E foi exatamente essa abordagem que nos empolgou com Thanos. Claro que há uma expectativa enorme, principalmente com base no material de origem, e também por que ele é um cara que vem sendo construído no MCU há dez anos. Nós e os roteiristas entendemos isso", falou. "Mas quanto mais a gente pensava no íntimo dele e nas motivações, vimos que o filme praticamente se formava ao redor dele. Foi aí que vimos uma linha narrativa para o filme, pois tínhamos algo completamente novo ali. Ter um vilão como o protagonista é algo diferente", completou.

Apesar de parecer estranho, hoje é fácil se acostumar com a ideia de Thanos como protagonista. Difícil é entender o tom e como essa narrativa se aplica ao Universo Marvel e seu jeito de contar histórias. Os Russo conseguiram transformar um filme de espiões em um longa do Capitão América. O mesmo, porém, não deve acontecer com Guerra Infinita. "Nós sempre tentamos achar algum tipo de linguagem comum, porque esses filmes se tornam mais interessantes quando eles são uma variedade de gêneros misturados. Nós dizemos que é como se você fosse um cientista louco em um laboratório misturando gêneros. Gostamos de desconstruir esses modelos. E acho que usamos alguns filmes de assalto dos anos 90 como inspiração para Guerra Infinita. Foi um ponto de partida para nós, serviu como um ponto de discussão e na forma de ser montado. Principalmente a estrutura do roteiro", falou Joe, dando alguns exemplos em seguida. "Usamos Irresistível Paixão, Contrato de Risco. Filmes que têm um grupo formado por pessoas complexas perseguindo um objetivo, com uma estrutura de perseguição e roubo junto", completou.

Unir essa narrativa, essa estética cinematográfica, ao desafio de unir o maior time de atores de Hollywood é o que mais chama atenção no trabalho dos Russo. Da primeira à última entrevista, o elenco sempre destacou a habilidade da dupla em administrar tudo. "Nós temos uma ideia muito clara da narrativa, estamos tratando isso tudo como um evento cinematográfico. A complexidade de tudo vem da quantidade de pessoas envolvidas nisso", comentou Joe. "Normalmente você planeja um dia de filmagem e começa a pensar nos personagens que vai precisar. Hoje, por exemplo, fizemos uma cena enorme com um grande número de heróis. É muito difícil prever como e quando você vai conseguir levar algum ator. É um desafio, pois nem sempre você tem eles disponíveis. Por isso, você meio que tem que saber como abordar a cena, com ou sem eles. No fundo, é mais um desafio logístico do que um desafio criativo em alguns aspectos", completou.

Sem parar de falar, apesar de visivelmente cansados, os diretores demonstram uma empolgação fora do comum para quem está há um ano enfurnado naqueles galpões. De acordo com as informações que circularam na internet, os dois estão trabalhando em Guerra Infinita desde o fim de Guerra Civil. O que denota muito mais que um ano envolvido no projeto. No fim das contas, boa parte da vida desses dois é estudar quadrinhos da Marvel. "A gente sempre tenta honrar e se inspirar no que veio antes, nas obras originais. Mas sempre temos que pensar que é necessário surpreender a audiência, trazer algo novo e que tenha impacto. A gente tem um trabalho muito colaborativo com os roteiristas e outras pessoas do estúdio, acho que é isso que faz a Marvel tão diferente", disse Anthony, que em seguida falou sobre a liberdade dada pelo estúdio.

"Desde Guerra Civil, quando começamos a nos encontrar com a Marvel sobre a ideia de fazer o filme, o que mais nos impressionou foi como eles estavam tão focados em aproveitar ao máximo daquele longa em particular. Claro que há uma preocupação com o todo, mas eles estavam focados naquela história", disse Joe. "Existe sim uma preocupação com a visão dos diretores para aquela história. E há a liberdade de levar o filme para onde quer que ele vá. Para falar a verdade, em Guerra Infinita, tivemos uma imensa liberdade. É quase como se a gente fosse um estúdio pequeno, de pessoas que cresceram com quadrinhos. Eu, Anthony, McFeely. E é interessante notar como a Marvel confia nessa visão. Sinto que Guerra Infinita é a culminação do que a gente começou, artisticamente, lá em Soldado Invernal", finalizou.

E como é o trabalho entre os dois? Não rola nenhuma briga? Quem ganha os argumentos? Como uma ideia diferente é negada e outra aceita? "Nós temos método socrático, nós passamos por ideias, meio que explorando elas de todos os pontos de vista. Eu acho que é isso que nos empolga sobre a nossa colaboração, pois temos a liberdade de correr em direções opostas o tempo todo. Assim a gente explora o material e descobre de verdade onde está a força, o centro dele", disse Anthony. "Nós estamos fazendo há muito tempo e mantemos a complexidade dessa relação apenas entre nós. E no fim a gente tenta mostrar isso para as pessoas de uma forma, digamos, mais amigável", finalizou.

Se por um lado os atores elogiaram a capacidade de organizar o colosso que é Guerra Infinita, todos eles reclamaram da proteção em relação ao roteiro. "Eles reclamaram? Como eles ousam", perguntou Joe, em tom de brincadeira. "Nós não demos roteiro para ninguém por causa do Tom Holland. E do Mark Ruffalo", disse, provocando risadas no galpão em Pinewood. Os dois atores ficaram famosos na internet por falarem demais sobre seus filmes; Ruffalo inclusive fez uma transmissão ao vivo da exibição de Thor: Ragnarok, mostrando as primeiras cenas do longa. Tudo isso sem saber. "A verdade é que existem coisas muito grandes que acontecem nesses filmes que queremos manter segredo, para manter a experiência dos fãs. Queremos proteger todo mundo deles mesmos, para proteger a experiência no cinema", disse Anthony.

E o relógio, naquele momento, insistia em acelerar. O dia estava acabando e não havia mais tempo para Guerra Infinita. Precisava perguntar sobre o quarto filme. Quão diferente ele é de Guerra Infinita? "Eles são filme completamente diferentes. São histórias diferentes em termos de tom e narrativa. Foram escritos de forma separada, inclusive. Ambos são os maiores filmes que a Marvel já fez, eu acho. Até em termos de lugares onde vai. Na Terra e no Espaço", contou Joe. E o título, você já o tem? "Sim, sabemos há uns dois anos. Acho que umas seis pessoas no mundo sabem o título real desse filme", provocou Anthony, que olhou para o assessor em seguida, vendo o aceno dele para a última pergunta. Respirei fundo e perguntei sobre a compra da Fox pela Disney. Qual a visão deles para esse negócio?

"Ainda faltam dois anos para terminarmos esses filmes. E claro que essa compra de personagens é muito empolgante para os fãs de quadrinhos como nós. Mas temos que ver como eles vão estruturar isso. Nós não tivemos nenhuma discussão sobre nada além desses filmes [Vingadores 3 e 4]. Mas ainda há muito tempo para ter essas discussões, se quisermos", respondeu Joe. Com eles se levantando, a pergunta vem: e qual seria o seu próximo filme? Vocês fariam um novo filme na Marvel depois disso tudo? Ou um projeto dos sonhos, que vocês pudessem escolher. "Vou dizer pra você. A gente vai tirar uns cinco anos de folga e aí vamos voltar. Vamos voltar para unir todo mundo. X-Men, Quarteto, Guardiões e os Vingadores. A gente precisa criar essa expectativa. Se preparem", respondeu com um sorriso Joe Russo.

Eles se levantam, agradecem e eu ataco o teclado com tudo, para escrever o que tinha acontecido. Mas aí eu paro por um instante, tomado pelas palavras dos irmãos nos segundos finais da entrevista. "Um filme com Vingadores, X-Men, Quarteto e os Guardiões". Será mesmo que isso um dia será possível? Não havia tanta descrença nos olhos de Joe, não era algo para não levar em conta. Mas é claro que eles estavam focados em Guerra Infinita e no misterioso Vingadores 4. De toda forma, durante aqueles microssegundos, viajei cinco anos no futuro, vi um filme com todos esses personagens juntos e pensei: que dia incrível.

Um colega jornalista me acordou do transe e mostrou o assessor nos chamando. Saí do galpão e sentei no ônibus, indo de volta para o hotel, cheio de ideias na cabeça. Aquele não foi um dia normal e só naquela hora comecei a processar tudo que acontecera. Enquanto os estúdios sumiam na escuridão dos pinheiros de Atlanta, eu começava a acordar do sonho. Conheci os Vingadores, falei com os realizadores de uma era de ouro no cinema e vi de perto a magia sendo feita. Naquela hora pensei "preciso escrever, preciso contar isso pras pessoas" e comecei a digitar sem parar. Agora, a poucos dias da estreia do filme vejo que o "dia incrível" da estreia daquele filme com Guardiões, Vingadores e Quarteto já chegou. Na verdade ele é toda uma época, a época dos filmes de heróis, da cultura pop. Dos fãs. Vivemos uma era especial. Só vem, Guerra Infinita!

Por dentro de Vingadores: Guerra Infinita