Filmes

Artigo

Por dentro de Vingadores - Guerra Infinita: a saga de Thanos, a tragédia dos heróis e o futuro da Marvel

Visitamos o set do maior filme do estúdio e conversamos com elenco, roteiristas e diretores do projeto

Thiago Romariz
20.03.2018
10h00
Atualizada em
22.03.2018
19h24
Atualizada em 22.03.2018 às 19h24

A CCXP 2017 acabara há dois dias. O caos, a adrenalina e a alegria de fazer um evento como aquele ainda não tinham saído do meu sangue. Muito pela quantidade de coisas que aconteceram, mas também pelo que viria nos próximos dias. A presença do Will Smith, a plateia conversando com Kevin Feige e as entrevistas com Robert Rodriguez e Simon Pegg pareciam ter sido o auge de dezembro daquele ano. Isso até entrar no set de Vingadores: Guerra Infinita, o maior filme da história do Marvel Studios.

A primeira parte desta jornada vai ser contada aqui e mostrará detalhes, easter eggs e segredos que descobrimos no local de filmagem dos dois filmes da super-equipe liderada por Homem de Ferro. Conversamos com os atores, vimos uma sequência icônica ser gravada e nos encontramos com as mentes por trás desse universo. E se você está se perguntando sobre o próximo longa: sim, o quarto filme também foi assunto durante essa visita. Mas antes, vamos contar como foi falar com os roteiristas de Guerra Infinita, responsáveis por aquela que é possivelmente a missão mais complicada dos Vingadores até hoje, na frente e atrás das câmeras.

O sigilo da Guerra Infinita

Quando jornalistas são convidados para visitar o set de um filme é comum termos em mãos alguns detalhes sobre a trama e personagens. Em raras ocasiões, o diretor e a equipe de produção contam quase a história inteira - o que estraga um pouco a experiência, mas proporciona uma compreensão mais completa de tudo que está sendo feito. Esse não foi o caso de Vingadores: Guerra Infinita. Até entrarmos no Pinewood Studios, nos arredores de Atlanta, pouco sabíamos sobre o que estava acontecendo. O mistério e o nível de proteção eram os maiores na história do estúdio. Nada poderia escapar por um simples motivo: o fã precisa ser surpreendido.

Os constante vazamentos de roteiro e até fotos do set fizeram com que o estúdio optasse por trabalhar dentro dos galpões de Pinewood e longe das ruas de cidades americanas. Pouco de Vingadores 3 e 4 foi visto, se uma comparação for feita com o primeiro e segundo filmes da equipe no cinema. Outro fator que determinou a concentração da filmagem em Atlanta foi o número enorme de atores escalados. São mais de 20 heróis em cena e, em alguns casos, com visuais diferentes e detalhes no figurino que poderiam entregar surpresas feitas para - e somente - a tela do cinema.

Fato é que quando cheguei a Atlanta, sabia somente que veria os bastidores de Vingadores: Guerra Infinita. Não tinha garantia de que os atores estariam por lá ou se conseguiria falar com eles. Existia a esperança de falar com todos? Sim, mas nada era certeza, pois o dia de um set de filmagens é sempre imprevisível e a prioridade é terminar o trabalho. Para a nossa sorte, as coisas deram mais que certo, mesmo com a correria de todos dentro do estúdio. Naquele dia, 15 de dezembro, faltavam cerca de duas semanas para o encerramento das gravações. As mais de duas mil pessoas que trabalharam no projeto estavam há mais de um ano focados somente na produção dos dois próximos filmes dos Vingadores.

A maior batalha da Marvel

Entrei no ônibus e pegamos a estrada. Do hotel no centro de Atlanta até Pinewood foram quase 40 minutos. O estúdio fica isolado e é formado por cerca de 10 galpões gigantescos. Lá foram feitos Homem-Formiga e Vespa, refilmagens de Thor: Ragnarok e Homem-Aranha: De Volta ao Lar, ambos com sinais e imagens ainda espalhados pelo local. Há um ano, porém, Vingadores 3 e 4 tomam conta de quase tudo por ali sem nenhum vestígio ou pista para algum curioso. Na recepção, lacram as câmeras dos celulares. Adesivos da SHIELD ajudam no clima de sigilo e super-proteção e impedem que a lente capture qualquer coisa.

Em um dos galpões, uma estrutura foi montada para receber os jornalistas. O assessor de imprensa se posiciona na frente de uma grande mesa e diz: "Os talentos [como eles chamam atores, roteiristas e diretores] vão conversar com todos vocês aqui. Mais tarde, se possível, vamos conferir uma cena sendo filmada e, com sorte, conseguiremos falar com todos os atores que estão por aqui". Vibro internamente, mas aceno com a cabeça de forma positiva e contida. Quem será que vem aí?, penso.

Quando viro as costas percebo que galpão gigante está decorado. Uma mesa expõe itens dos Vingadores. São cartazes dos filmes anteriores, quadrinhos clássicos como "Infinity" e "Guerra Infinita", além de vários capacetes do Homem de Ferro, martelos do Thor e escudos do Capitão América, todos autografados. Na descrição de cada um, o filme em que foram usados. Aquele foi o primeiro contato surreal com a magia Marvel. O quanto brilha e pesa um item desses, só tendo em mãos para entender.

No devaneio das anotações, o assessor avisa com urgência: os roteiristas estão a caminho. Stephen McFeely e Christopher Markus serão os primeiros entrevistados. Os dois estão na Marvel desde o primeiro Capitão América, acompanharam os Irmãos Russo em Soldado Invernal e Guerra Civil e agora vão encerrar essa Fase 3 da Marvel com Guerra Infinita e o quarto filme, ainda sem título. Agasalhados e com fisionomia visivelmente cansada, a dupla senta em duas cadeiras em frente à mesa gigante e começa a responder as perguntas.

De cara, fica claro que os segredos e a história de Guerra Infinita não serão revelados aqui. O sigilo e o cuidado com as informações é o primeiro assunto da entrevista e motivo de piada entre os escritores. "O nível de segurança desse set chega a ser cômico. Muitos atores só têm partes do roteiro e somente umas 10 ou 12 pessoas sabem o que realmente teremos no filme todo, no 3 e 4. Muitas vezes no set vejo os atores se perguntado o motivo deles estarem lutando", disse Markus, que já completou falando sobre o misterioso título do quarto filme: "somente meia dúzia de pessoas no mundo sabe qual é o nome verdadeiro. A internet não acertou. Olho isso tudo e vejo que ninguém tem noção do que vai acontecer. Muito em breve vocês saberão". Insisto perguntando sobre o tempo que se passa entre os dois e a era de Capitã Marvel, situado em 1990. "Como vai ser essa ligação com o quarto filme?".

McFeely diz que não pode falar muito sobre o assunto, dá um sorriso e vem com uma resposta para despistar e instigar ao mesmo tempo. "Homem-Formiga, Vespa e Capitã Marvel terão papel importante em Guerra Infinita e no quarto filme. Nós colocamos algumas coisas nesses dois filmes, pequenas coisas, que ajudarão as pessoas a entender o que acontece no 4. Capitã Marvel não se passa nos anos 90 por acaso, há um motivo ali que vai ajudar a entender o próximo filme".

Marvel Studios/Divulgação

No embalo sobre a divisão da trama em dois filmes, pergunto sobre o que haverá de diferente entre ambos. "Guerra Infinita e o 4 são filmes completamente diferentes. Claro que é bom você ver um para assistir o outro, mas eles são bem distintos e têm arcos muito distintos. Não é uma história partida em duas, não estamos armando algo no 3 para entregar no 4. Eu diria que o primeiro filme é sobre Thanos e o quarto é sobre os Vingadores", respondeu McFeely.

O vilão, que será vivido por Josh Brolin, é um mistério. Mesmo que tenham sido mostradas imagens e várias cenas, o personagem ainda é uma incógnita dentro da trama em si. Por outro lado, está claro que ele é o protagonista e o motor de Guerra Infinita. De acordo com McFeely, "o filme é do Thanos e é isso que diferencia ele de todos os outros [longas da Marvel]. Ele não é um vilão comum, é um filme que mostra o propósito e o que ele quer. Não é só jogado lá. Em muitos aspectos, essa é a história de Thanos".

Tendo em vista esse protagonismo de um vilão e o tão aguardado "fim da Fase 3", como definir o tema do filme? Se pudéssemos escolher uma palavra ou frase, quais seriam? "Acho que seria 'você é o arquiteto do seu próprio destino'. Muitas decisões tomadas ao longo dos anos vão culminar nesse filme. Acho que o sacrifício também é uma palavra boa. Veremos muitos heróis escolherem e fazerem coisas que mudarão a própria vida", opinou Markus. Mas a melhor definição vem de McFeely, que complementa a resposta do companheiro.

"Diria que Guerra Infinita é quase um filme esotérico. Ele só aconteceu pois o Universo da Marvel chegou até aqui. Se fizemos esse mesmo filme há alguns anos ele, com certeza, não daria certo. Estamos falando de um cara de quatro metros, roxo e que procura umas pedras mágicas. É difícil imaginar que pessoas se interessem por isso. Mas aí surge o logo da Marvel e há uma credibilidade e um universo por trás disso. Estamos com medo todo dia, pensamos nessa recepção dos fãs todo dia. Kevin Feige pensa nisso todo dia. Nós não estamos acomodados. Eu gostaria de estar, mas não estamos", falou.

A pergunta seguinte acompanha a óbvia ideia de que algum herói vai morrer, devido ao clima dramático e, claro, ao poder de Thanos. "Não tivemos nenhum tipo de restrição para matar alguém ou algo do tipo. Se existe uma boa história por trás de uma atitude a Marvel compra. Mas nós pensamos que não é legal matar uma flor que está crescendo e ganhando forma agora, mais fácil matar uma flor grande que já está estabelecida, não é mesmo?", indagou misteriosamente Markus, que de cara complementa. "Apesar disso tudo, ainda é um filme da Marvel. O tom continua sim a ser leve, de acordo com os personagens. Mas com certeza é o mais sério de todos. Eles terão que tomar decisões que afetam toda a jornada que vimos até aqui".

É curioso notar que os dois escritores não renegam o rótulo de filme leve, ainda que as prévias e o tom de tudo até aqui pareça mais trágico que cômico. No fundo, porém, uma definição de McFeely desenha bem o sentimento que esse filme terá, permeando os personagens: "Existe muito amor nesse filme. Não é só romance, mas como o amor muda e afeta relações e suas decisões. O que você faz por amor na sua família, na sua vida, com seus amigos. Tudo isso estará espalhado pelo filme".

Marvel Studios/Divulgação

As peças da Guerra e o desafio dos atores

Existe o desafio de encerrar um arco e apresentar Thanos como o maior vilão que os fãs da Marvel já viram? Existe. Mas quando os roteiristas sentaram para escrever Guerra Infinita, uma coisa não saia das suas cabeças: como encaixar tantos personagens em um filme só. O problema é dar espaço para todos, não decepcionar quem gosta de um ou outro e ao mesmo tempo todo mundo se sentir representado. Markus, de cara, deixa claro quem será prioridade.

"Além de ter o foco em Thanos, temos sim uma preocupação maior com Capitão América e Homem de Ferro. Durante os dois filmes damos foco a muitos personagens e esperamos que a maior parte dos fãs consiga ver um bom momento deles. No entanto, Capitão e Tony são ainda os principais alicerces desse tabuleiro que estamos apresentando", disse. A decisão é lógica e compreensível, tendo em vista os 10 anos de história construídos até aqui. Por outro lado, é preciso lidar com os novos fenômenos que surgiram, como por exemplo, os Guardiões da Galáxia.

McFeely definiu esse trabalho dizendo que "a dinâmica dos Guardiões da Galáxia é diferente. Eles não levam muito a sério o próprio trabalho e isso vai dificultar um pouco o relacionamento com os Vingadores. Às vezes é preciso parar de brincar com o Rocket, por exemplo. Mas é bom lembrar que eles conhecem Thanos e são os únicos a conhecer o espaço". As novas prévias do filme meio que deixam clara essa dissonância entre a equipe, seja Guardiões com Tony Stark, seja Homem-Aranha com Doutor Estranho.

Ao lado desse planejamento intenso, como fica a veia de improviso da maioria dos atores? Robert Downey Jr., o líder dentro e fora das câmeras, fez fama mudando textos e situações no dia da filmagem. E isso não escapou dos olhos dos escritores. "Quando escrevemos Guerra Civil ficamos com medo do que Robert Downey Jr. poderia fazer com o roteiro. Improvisar demais ou algo do tipo. Mas no fim foi ótimo. Muito melhor do que imaginávamos, e hoje temos um trabalho em conjunto. De outro lado, sempre esperamos e vemos Chris Pratt e Paul Rudd melhorar o que escrevemos. Com a câmera neles, nosso roteiro melhora 20%, no mínimo", disse um aliviado Markus.

Nessa hora, o assessor de imprensa chega de lado pedindo para a fazer a última pergunta. Não tinha como ser diferente: há poucos dias a Disney havia anunciado a compra da Fox, algo que permite a Marvel reunir os X-Men e o Quarteto Fantástico com os Vingadores. A dupla, como de costume, não fez muita cerimônia e foi direto ao ponto. "Esse é um problema de outra galera. Só esperamos que eles não acelerem tudo. Todo mundo quer ver os Vingadores lutando contra os X-Men, mas não precisa enfiar os mutantes do nada no Universo. É por essa calma e parcimônia que o Marvel Studios deu certo".

A dupla se despede e deixa o galpão. "Os próximos serão Robert, Chris e Tom". Homem de Ferro, Thor e Homem-Aranha. De novo, aceno a cabeça positivamente - por dentro aquela vibrada meio fã, meio jornalista. Esperamos mais uma meia hora e o trio entra no galpão. Não achava que fosse vê-los vestidos como heróis. Estava literalmente no meio dos Vingadores, como num sonho. Na próxima parte da nossa entrevista, conto como foi esse encontro.