Mulher-Hulk: Defensora da Lei/Liga da Justiça/Morbius

Créditos da imagem: Marvel Studios/Warner Bros./Sony Pictures/Divulgação

Filmes

Artigo

Sim, o público pode (e deve!) reclamar do CGI ruim de blockbusters

44 anos depois de Superman - O Filme nos fazer acreditar que o homem pode voar, grandes filmes têm deixado muito a desejar em seus efeitos visuais

Omelete
5 min de leitura
Nico Garófalo
26.05.2022, às 12H23
ATUALIZADA EM 26.05.2022, ÀS 12H48
ATUALIZADA EM 26.05.2022, ÀS 12H48

Lançado na semana passada, o trailer de Mulher-Hulk: Defensora de Heróis dominou a discussão nas redes sociais. Não porque a série parece divertidíssima ou porque traz semelhanças com os quadrinhos, mas porque a prévia trazia efeitos visuais decepcionantes. Embora tenha ficado claro que o CGI usado para transformar Tatiana Maslany na Gigante Esmeralda ainda não estava pronto, o Twitter se dividiu entre pessoas exigindo maior cuidado com a computação gráfica e aqueles que consideram estas críticas um exagero. Dentro do segundo grupo, aliás, há quem insista que essa é uma espécie de perseguição, o que não é exatamente verdade. É claro que, em alguns casos, as críticas são, de fato, exageradas. Na prévia de Mulher-Hulk, por exemplo, faltou compreender que o trailer havia sido lançado durante o Upfronts, evento em que grandes emissoras de televisão norte-americanas apresentam seus lançamentos futuros para o mercado. É compreensível, por isso, que o CGI ainda estivesse “cru” e que, muito provavelmente, veremos um visual muito melhor quando a série estrear no Disney+.

Acontece que esta não é a primeira vez que o Marvel Studios foi alvo dessa “birra” com efeitos visuais. Vários dos lançamentos recentes do estúdio, incluindo Cavaleiro da Lua, Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa e Viúva Negra, foram criticados por seus efeitos mal-acabados, que de fato dificultaram a imersão de muitos fãs. Como várias pessoas argumentaram no Twitter, é inaceitável que um estúdio que lucra cerca de US$500 milhões por filme e cobra cerca de R$30 mensalmente por seu serviço de streaming lance um produto inacabado, por mais divertido que ele seja.

É importante frisar que a decadência dos efeitos não vem do descaso ou falta de preparo dos profissionais da área e sim da estratégia à la linha de produção dos grandes estúdios. Diferentemente do que era há 15 ou 20 anos, empresas como Disney, Warner, Universal e Sony passaram a lançar mais e mais blockbusters por ano, diminuindo drasticamente suas janelas de lançamento e, consequentemente, o tempo hábil para que as equipes dos filmes trabalhem nas produções. Considerando que filmes de grande orçamento atualmente contam, em média, com cerca de 2 mil tomadas que requerem uso pesado de computação gráfica (contra 63 do primeiro Jurassic Park, por exemplo), percebe-se que o modelo de fast food criado pelos gigantes de Hollywood tem interferido - e muito - na qualidade do produto que chega ao público.

Embora os efeitos visuais sejam parte importante dos grandes blockbusters atuais, não há, por parte dos estúdios, um cuidado para que os profissionais que cuidam desses efeitos possam trabalhar com calma e entregar um bom resultado. Em 2020, por exemplo, a equipe por trás de Sonic - O Filme trabalhou 17 horas diariamente, sem folgas, para arrumar o design do ouriço azul. Em 2017, os profissionais de Liga da Justiça tiveram que correr para finalizar a pós-produção porque a Warnerse recusou a adiar a estreia do longa da DC, resultando na infame “boca de sacola” criada para cobrir o bigode de Henry Cavill. A situação é a mesma dentro da Marvel, cujos lançamentos praticamente mensais impedem que os nomes por trás dos efeitos visuais tenham algum respiro entre uma produção e outra.

Quando refletimos no avanço dos efeitos visuais ao longo dos anos, é inevitável comparar a finalização apressada de Viúva Negra, por exemplo, com Superman - O Filme, de 1978. Enquanto o filme de Richard Donner trouxe efeitos revolucionários para a época, fazendo valer a frase “você acreditará que o homem pode voar”, o longa estrelado por Scarlett Johansson fez um dos usos mais amadores possíveis do chroma key, transformando sequências que deveriam ser emocionantes em momentos de comédia não-intencional.

O descaso que os grandes estúdios têm com seus principais lançamentos hoje é ainda mais bizarro quando pensamos que, há 23 anos, George Lucas criava planetas, cidades e criaturas 100% digitais - e críveis - em Star Wars: A Ameaça Fantasma. 10 anos mais tarde, James Cameron e Avatar revolucionaram o cinema com visuais estonteantes que deixam muitos filmes novos e de grande orçamento parecendo projetos amadores. O diretor, aliás, demorou quase 15 anos para voltar a Pandora, justamente por querer aperfeiçoar ao máximo o uso da computação gráfica, prezando mais pela perfeição do que pela pressa da indústria.

Um produto como outro qualquer

Se vamos a um restaurante e recebemos um prato errado ou diferente daquele que pedimos, é natural reclamar e pedir por uma correção. O mesmo vale para quando compramos um celular que não funciona ou um brinquedo que quebra após poucos minutos de uso. Por que então seria “injusto” reclamar dos efeitos visuais - especialmente em obras em que o CGI aparece de forma constante?

Como clientes dos grandes estúdios, o público tem todo o direito de exigir um produto satisfatório. Por mais que muitos aspectos de uma obra cinematográfica sejam subjetivos, a qualidade do CGI afeta diretamente a forma como ela é recebida pelo público. Elemento essencial da suspensão da descrença, a computação gráfica faz tanta parte dos filmes e séries quanto roteiro, direção e atuação e, por isso, está mais do que suscetível a críticas.

A apressada linha de montagem das grandes empresas tem resultado em produtos com qualidade muito abaixo da esperada. Aceitar esses erros em silêncio passa aos estúdios a certeza de que, por mais medíocre que sejam seus lançamentos, eles darão um retorno financeiro certo, encorajando criações genéricas e mal acabadas e forçando cada vez mais artistas de efeitos visuais a trabalharem sob pressão e condições precárias. Ao invés de usar sua influência para bater palma para qualquer arrasa-quarteirão meia-boca que chega aos cinemas, os fãs precisam exigir maior cuidado por parte dos estúdios, em um movimento que melhoraria os blockbusters e proporcionaria condições de trabalho decentes para os profissionais que tanto trabalho para deixá-los apaixonantes.

Conteúdo Patrocinado

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.