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Piaf - Um Hino ao Amor

Do instante em que deixa o ventre da mãe, a miúda pardalzinha tem OSCAR escrito na testa

Marcelo Hessel
11.10.2007
16h00
Atualizada em
21.09.2014
13h29
Atualizada em 21.09.2014 às 13h29

Justiça seja feita, são grandes as chances de Persépolis, animação anti-fundamentalismo iraniano, ser finalista do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela França. Mas só pode ter sido falha de comunicação interna o país não escolher a cinebiografia de Edith Piaf para concorrer ao prêmio hollywoodiano. Do momento em que sai do ventre de sua mãe nas ruas imundas de Paris, a mirrada menina de olhos azulaços, que viraria uma das maiores cantoras de todos os tempos, já tem "OSCAR" escrito na testa.

Há filmes que não merecem ser reduzidos a um rótulo, mas neste caso é questão de defesa do consumidor dizer que Piaf - Um Hino Ao Amor (La Môme, 2007) é a típica cinebiografia pensada para comover os votantes da Academia. Como os recentes Ray e Johnny & June, a idéia é honrar o passado do músico sem feri-lo com releituras, transformar ator/atriz na reencarnação fílmica do biografado e vender muito CD de trilha sonora. O fato de Piaf - Um Hino ao Amor ser francês não faz, essencialmente, a menor diferença. Cinema sentimental é igual no mundo inteiro.

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A ordem do diretor Olivier Dahan (Rios Vermelhos 2) é embelezar, em todos os sentidos. Planos-sequências em apartamentos de pés-direitos suntuosos, fotografia saturada diante do mar calmo, close-up na cantora na hora da nota mais alta, hiperdramatização das relações, música ininterrupta, maquiagens mil. Em Piaf todos são maiores que a vida, da meretriz-mãe ao pugilista galã, mas la môme piaf, a miúda pardalzinha, como Edith aprendeu a ser chamada, é ainda maior que todos.

Evidente que a trajetória de vida da intérprete não é como uma qualquer. Edith Giovanna Gassion foi nascer justamente quando a Primeira Guerra vitimava a Europa, em 1915, e cresceu em meio a bordéis e circos. Cantou em muita sarjeta para conseguir comprar seu almoço, e se teve a sorte de ser chamada um dia para gravar um disco é porque o mundo - que quase lhe tirou a visão e a vida quando criança - finalmente estava dando uma trégua a Edith.

Se esta crítica dá ao filme cotação de três ovos, é em respeito a Edith e, especialmente, a Marion Cotillard, que no fim das contas vai acabar sendo indicada ao Oscar de melhor atriz. Bill Murray falou uma vez que nunca ganharia um Oscar porque as pessoas, por fazê-las rir, só lhe davam um obrigado; para ser premiado é preciso fazê-las sofrer.

Costuma-se dizer também que boas biografias desmistificam o biografado e abrem lacunas para que o espectador enxergue aquele ídolo como ele realmente é, ou era. O problema de Piaf não é o over-acting, a extrema mistificação. O problema é que o filme não dá a essa formidável figura, cercada dos mimos do "alto cinema", sequer o direito de ser mundana.

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