Pânico 6: O que a ausência de Sidney representa para o futuro da franquia?

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Pânico 6: O que a ausência de Sidney representa para o futuro da franquia?

A franquia Scream provou ser capaz de seguir sem sua sobrevivente original nessa sequência... Mas, o futuro dos ataques de Ghostface tem sentido sem ela?

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24.03.2023, às 08H00.
Atualizada em 11.08.2023, ÀS 11H30

Em 1991, uma escritora americana chamada Carol J. Clover lançou um livro que discutia os códigos de gênero dentro do universo do horror. Ela foi reconhecidamente a primeira pessoa a usar o termo “Final Girl” para se referir a uma específica personagem feminina que sobrevivia a um filme slasher. Carol falava sobre essa sobrevivente virginal, indefesa, protegida por um personagem masculino heroico, que “merecia” escapar porque representava a América conservadora, que premiava a inocência com a sobrevivência.

Contudo, não há muito consenso sobre quem foi a primeira Final Girl. Alguns dizem que foi Jess Bradford, de Noite de Terror (1974). Outros dizem que foi Sally Hardesty, de O Massacre da Serra Elétrica (também de 1974). De fato, talvez a referência mais óbvia seja Laurie Strode, de Halloween (1978), já que seu retorno em diversos outros filmes estabeleceu seu nome ali no topo dessa classificação. Resistindo ao filme seguinte ou não, a Final Girl é estabelecida como aquela personagem sobrevivente que foi muito torturada durante os acontecimentos, perseguida, mas que escapou e frustrou os planos do assassino.

Até 1996, quando o primeiro Pânico estreou, a figura da Final Girl confirmava todos os piores machismos estruturais escritos pela história do cinema. As “mocinhas” dos filmes de horror precisavam ser virgens, pudicas, ter modos delicados e boas cordas vocais (porque gritavam muito). E salvando-se algumas exceções, não eram muito boas em enfrentar o assassino que as perseguia. De fato, a partir da ideia reforçada pelos slashers de que os assassinos eram invencíveis e sempre retornavam - dando a eles características quase sobrenaturais – esse enfrentamento era quase impossível.

Pânico veio para transgredir. Quando Sidney (Neve Campbell) foi apresentada no longa, ela até poderia ser confundida com uma clássica Final Girl: virgem, apaixonada, com uma história triste... Mas, os planos de Kevin Williamson incluíam explorar o gênero dos slashers sem deixar de desafiá-los. Conforme os diálogos do filme iam revelando uma sagacidade e metalinguagem incomuns para o gênero, a percepção de Sidney como “mocinha sobrevivente” também foi mudando.

Sidney não era uma Final Girl comum... Já no primeiro filme ela inverteu as posições no terceiro ato e fez com que os assassinos passassem pelo mesmo que ela: a tortura psicológica, a ligação debochada, os ferimentos... Ambos morreram pelas mãos dela. A partir do segundo filme, essa personalidade reativa foi se fortalecendo e o instinto de sobrevivência da personagem a colocava na posição de rival, não de vítima. Sidney nunca permitiu que os assassinos a fragilizassem e nem que lhe privassem de viver, mesmo que sob a constante ameaça de um novo ciclo.

De fato, a franquia chegou a ampliar essa noção de “sobrevivente final”, dando essa posição a outros dois personagens. E dois personagens que tampouco cumpriam requisitos clássicos. Gale (Courteney Cox) era antipática, ambiciosa, implacável, o tipo de personagem que seria condenada em um slasher comum. Já o policial, no contexto do passado, seria o salvador de tudo, durão, machão... Dewey (David Arquette) estava longe disso... era sensível, apaixonado, gentil e afetuoso. Juntos, Sidney, Gale e Dewey formavam uma unidade de sobrevivência – com Sidney ligeiramente à frente – que criava e mantinha o público emocionalmente ligado aos filmes.

Hello Sidney... Gale... Samantha... Tara... Mindy... Chad... Kirby...

Quando Pânico 5 saiu do papel, ele não tinha o propósito de recuperar as motivações que levavam os assassinos a procurarem por Sidney. Era a coisa certa a ser feita. Seria completamente sem sentido continuar tirando parentes vingadores da cartola todas as vezes que a revelação fosse feita. Quando os assassinos do quinto filme começam a entrar em ação, eles não têm nenhum interesse em Sidney que não seja pautado pelo mais completo fan service.

Mas, se Pânico era uma reverência aos clássicos, agora ele tinha se tornado, ele mesmo, um clássico. Então, Pânico 5 precisaria honrar o passado da própria franquia. Por isso, era necessário que a Final Girl também fosse diferente de tudo. Samanta (Melissa Barrera) é ainda mais brutal que Sidney e ela ser filha do assassino original só deixa a coisa toda ainda mais interessante. Além disso, os novos roteiristas fizeram com que Tara (Jenna Ortega) sobrevivesse ao icônico assassinato da primeira sequência e se tornasse outra das Final Girls. Assim como aconteceu a partir do filme de 1996, Mindy (Jasmin Savoy) e Chad (Mason Gooding) também já sobreviveram a dois longas, servindo para fortalecer a unidade emocional desse momento onde uma nova franquia se inicia. Para que nos importemos com os personagens, eles precisam viver.

A grande questão em meio a todos esses conceitos é que por questões de afeto, os fãs de Scream querem sempre ver Sidney agindo. A presença dela obrigava os roteiristas a fazer conexões. O aspecto mais promissor de encararmos um futuro em que Sidney não apareça mais é a liberação dessas ligações. Os assassinos podem agir com motivações mais ousadas (como as do quinto filme), sem que a razão maior para os crimes seja sempre a vingança contra ela. Nos slashers clássicos os assassinos eram sempre os mesmos, o que justificava a perseguição contra uma única pessoa. Em Pânico os assassinos são sempre diferentes, obrigando os roteiros a tirar essas conexões de algum lugar (e o lugar não é sempre bom).

É possível entender que na hora de explicar os crimes de Pânico 6, os roteiristas pensaram que se aquele era o estabelecimento de uma nova franquia, fazia sentido repetir os motivos da franquia anterior. A mãe de Billy (Skeet Ulrich) matou por vingança em Pânico 2; então, o pai de Richie (Jack Quaid) veio matar por vingança no sexto filme (correspondente ao filme número 2 desse novo universo). É possível entender, mas sem Sidney, com “novas regras” e novos códigos cinematográficos, por que repetir motivações nas vidas dos novos personagens seguindo a organização da Era Sidney, sem Sidney?

A franquia Pânico já provou ser capaz de sobreviver sem sua primeira grande sobrevivente. Sidney é amada pelos fãs a ponto de vários deles deixarem de lado a vontade de vê-la em ação, para vê-la sendo feliz. Reside nessa ideia de “nova franquia”, um potencial imenso para tratar os personagens antigos como descartáveis, o que seria, sem dúvida nenhuma, lamentável diante do que eles fizeram pela cultura pop como um todo. O futuro sem a presença de Sidney nos filmes, jamais seria um futuro sem Sidney (exatamente sem Sidney). Podemos brincar com novos motivos, com novas possibilidades, livrar as sequências das conexões com ela que não fazem sentido sem a presença dela. Mas, Sidney sempre será a Final Girl mais incrível da história do cinema. Ela é a sobrevivência em descrição lúdica, a vontade de viver em profusão, a coragem, a força, mas também a ternura.

A franquia Scream sabe lidar com a ausência de Sidney, mas precisará sempre reverenciar a “presença” dela. Ainda que ela nunca mais atenda aquele telefonema, é o "Hello Sidney" que ficará conosco desde sempre. Ainda precisamos ouvi-lo, nem que seja na secretária eletrônica.

Relembre a trajetória da personagem e da franquia a seguir:

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