Overman é o “Homem de Ferro que faz terapia”: “Ele não sabe o que quer”
Elenco e equipe do filme falam ao Omelete sobre a importância de ter um herói brasileiro
Créditos da imagem: Raphael Logam e Caco Ciocler em Overman: O Filme (Reprodução)
Em certo ponto de Overman: O Filme, a sessão de psicanálise do personagem título (Caco Ciocler) se volta para os diferentes tipos de super-heróis que existem na ficção. Enquanto Overman se identifica mais com Batman, soturno e perturbado, o Homem de Ferro é identificado como "um bobo alegre" por ele e pelo terapeuta Dr. Lights (Raphael Logam).
É uma citação curiosa, que está no DNA do próprio personagem, criado por Laerte nos quadrinhos como um "abrasileiramento" das histórias de herói que dominavam (e ainda dominam) o formato. Mas, conforme o longa de Tomás Portella (Impuros) se desenrola, fica claro que a jornada do beberrão e mulherengo Overman - que é contratado pelo governo como "super-herói oficial do Estado" e deixa a fama subir à cabeça - lida com muitas das mesmas questões que as histórias do Cabeça de Lata da Marvel.
A seguir, o Omelete conversa com Portela e com os atores Victor Lamoglia (Ésquilo, melhor amigo do Overman) e Maria Lucas (Poline, a influencer por quem ele se apaixona) sobre os temas do filme, e a delícia de ter um super-herói brasileiro na tela grande.
OMELETE: Eu queria saber por que vocês acham que é importante a gente ter super-herói brasileiro, e o que uma história como Overman adiciona nesse cantinho nosso da cultura pop?
LUCAS: Nossa, eu acho que ele traz um grande questionamento do que é a figura pública, né? Do quão frágil é a masculinidade, do quão frágil é você ser um super-herói - ou uma super-heroína - cheio de músculos, vestindo máscara. Eu sinto que essa questão é ainda mais importante nesse momento que a gente vive, dos memes no poder, das grandes figuras midiáticas que têm muitos seguidores porque amarraram um sapato ou porque deram um lugar para alguém no avião... Muito mais seguidores que uma Fernanda Montenegro, ou que o presidente do país. Acho que essa questão muito importante pra gente pensar sobre - ou só rir também.
LAMOGLIA: E eu acho legal essa energia de às vezes você ver um filme desses grandiosos lá de fora, e ter o pensamento: "Queria ver se fosse aqui [no Brasil], não ia se criar aqui não". É em Overman que você vê que, realmente, ia ser outro rolê.
LUCAS: E é legal a gente poder ter super-heróis tipo Maníaco Flatulento, Capitalista Imundo... Só a gente podia ter pensado nisso. Só num país que tem a Cuca, o Saci-Pererê, a Elke Maravilha, sabe? [Risos]
PORTELLA: Eu acho que a piada com os outros super-heróis vem muito no DNA da própria Laerte, acho que a gênese desse personagem é brincar também com os super-heróis clássicos. Mas também acho que, por trás desse personagem, existe uma visão um pouco over do que se passa dentro da maioria dos homens cis do Brasil. Tem uma uma dificuldade no nosso filme, que é resistir à tentação de corrigir o Overman. Seria o arco clássico: o cara começa de um jeito e acaba de outro. Mas o nosso filme fala muito sobre o que que você quer de verdade. Qual é o seu sonho, de verdade?
Às vezes a gente quer mais reclamar, falar que a gente queria outra coisa, e no fundo não é nem verdade. Então existe uma distância interessante no personagem, e que eu acho que existe dentro de todos nós: a distância entre o que você acha que você quer, e o que você quer de verdade. O Overman acha que quer uma coisa, mas essa coisa que ele acha que quer não vai fazê-lo feliz. E isso acontece muito com a gente. Eu me vejo preso nessa pegadinha o tempo inteiro. Então acho que é isso que o identifica enquanto ser humano, assim.
Mas falar pra você, o Tony Stark [Homem de Ferro] é um bobo alegre porque a gente não vê a análise dele. Se a gente visse o Homem de Ferro na psicanálise, você ia ver a quantidade de problema que ele tem na cabeça [Risos].
*Overman: O Filme chega em 22 de outubro nos cinemas brasileiros.
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