Otto Guerra: Mesmo se novo governo desmontar Ancine, “nosso progresso não será apagado”
Animador estreou novo longa, O Filho da Puta, no Festival do Rio 2026
Créditos da imagem: Otto Guerra em entrevista ao Omelete, e cena de O Filho da Puta (Reprodução)
Otto Guerra está esperançoso para o futuro do cinema brasileiro, e principalmente do cinema de animação brasileiro. Em entrevista ao Omelete no Festival do Rio 2026, durante tapete vermelho de O Filho da Puta, o renomado animador de clássicos como Rocky & Hudson (1994) e Wood & Stock (2006) apontou que uma nova guinada política rumo ao conservadorismo não deve apagar o progresso feito pela indústria do audiovisual nos últimos anos.
Guerra definiu o momento que vive a animação brasileira como “o melhor até hoje, mas também o mais assustador”, se referindo ao crescente movimento legislativo pelo desmonte do aparato cultural governamental – uma possibilidade mais próxima, é claro, caso Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito como presidente e continue a tendência observada no governo do pai, Jair Bolsonaro, onde mecanismos de incentivo cultural foram congelados ou desestruturados.
Confira a íntegra da nossa conversa com Guerra a seguir!
OMELETE: Queria saber de você, Otto, que está trabalhando nesse mercado há um tempo, viu a animação brasileira crescer e aparecer, apesar de todas as dificuldades. Como você vê esse momento de agora? Para você, é o melhor momento que a gente já teve?
GUERRA: Bom, é o melhor momento e também o mais assustador, na verdade. Acabei de ler que tem um deputado já encaminhando o fim da Ancine [o cineasta parece se referir ao PL 994/2026, do deputado Capitão Augusto]. É uma loucura, assim, porque o Brasil tem essa questão dos ciclos do cinema, e talvez esteja acabando o ciclo da Ancine agora. Isso é muito triste, mas o que foi conquistado está aí. Nem nos sonhos mais loucos da minha vida eu imaginei estar fazendo meu oitavo longa! Chegar nesse nível que a animação brasileira chegou, nesse patamar… é inacreditável o processo que a gente teve nesses últimos 25 anos. É um sonho absurdo, mesmo que agora o Brasil entre nessa derrocada da cultura. A gente já fez um trabalho, e vamos seguir fazendo de algum jeito. Já está construído o caminho e não tem volta, né, cara? Este filme mesmo tem o trabalho de muitas pessoas, é um puta roteiro, animação, direção de arte. Eu vi a reação do público lá em Belo Horizonte, aqui, e eu acho que ele funciona muito bem.
OMELETE: Estava falando com seus codiretores e eles falaram que você recebeu esse roteiro por e-mail, com o título O Filho da Puta, que já chamou sua atenção. O que foi que fez você querer contar essa história?
GUERRA: [Risos] Sim, eu gostei do nome no começo, porque fiquei chocado. Aqui no Brasil a com o "filho da puta", que nem o "vai tomar no cu", que são palavrões horríveis, absurdos. Então eu li com muito interesse, e eu vi a história da Carla Magalhães, que mora em Madri, mas é da Bahia. É uma jornada do herói que é clássica, funciona. Mesmo quando é ruim, é bom – que nem pizza! [Risos] E eu sempre falo: O Filho da Puta é um road movie a pé. A Carla tem a manha, né? Ela trabalhou como roteirista, ghostwriter lá na Globo, então sabe como pegar a mão do público. É importante ter público, que é uma coisa que a gente [na animação brasileira] não conseguiu ainda. Mas o caminho está aberto através do boca a boca, da mídia... Vamos ver o que acontece com esse filme. Eu estou bem otimista, apesar desse momento horrível, e muito contente com o resultado do filme, com a repercussão que está dando. Fico pensando: Nossa, eu sou um gênio! Não parece, mas sou. [Risos]
*O Filho da Puta foi exibido no Festival do Rio 2026. Ainda não há previsão de estreia para o circuito comercial brasileiro.
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