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Os Delírios de Consumo de Becky Bloom

Filme sobre heroína ciclotímica sofre, ele mesmo, de transtorno bipolar

Marcelo Hessel
09.04.2009
15h00
Atualizada em
21.09.2014
13h46
Atualizada em 21.09.2014 às 13h46

Rebecca Bloomwood chegou ao fundo do poço. Seu vício por compras já custou mais do que um mero estouro do limite do cartão de crédito. Ela é confortada pelo pai: "Se os Estados Unidos devem bilhões emprestados e ainda assim conseguem prosperar, você também consegue!".

A crise econômica é um vulto que somente pairaria sobre a comédia Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, não fosse mencionada tão descaradamente. Talvez sejam mudanças de última hora no roteiro para adequar o longa - que esperou na fila oito anos para ser produzido - ao cenário mundial atual. O fato é que Becky Bloom vive, em mais de um sentido, em uma fantasia colorida que não condiz com a realidade.

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Fantasia colorida literalmente, porque o que há de mais extravangante nos editoriais das revistas de moda Becky faz questão de usar. A história começa como um Ugly Betty vestido por Patricia Field (a figurinista de O Diabo Veste Prada, que trabalha também neste filme). Isla Fisher interpreta a fashion victim do título, que precisa arrumar um novo emprego para pagar todas as suas faturas. O acaso a transforma em uma colunista de finanças pessoais numa publicação de Nova York.

Uma compradora compulsiva que dá dicas de como economizar - a irônica premissa dos livros mezzo autobiográficos de Sophie Kinsella é levada com fidelidade ao cinema. Atriz acima da média dentro do gênero das comédias físicas, Isla Fisher corresponde bem nos momentos de pantomima, e o retrato caricato que traça de Becky Bloom é o que a aproxima da cafonice consciente de um Ugly Betty. (A cena da mendiga com o vestido, que acumula humor em cima de tragédia, é Ugly Betty puro.)

Mas há a obrigação de incluir a crise. E se toda comédia romântica contemporânea tem seu arrastado lado edificante (valorizar o amor, a família, blabla), Os Delírios de Consumo de Becky Bloom adiciona mais uma lição de moral - e tome jornalista fazendo discurso naïve pela transparência, tome presidente de empresa levando sermão porque recolheu bônus milionário enquanto a empresa caía...

Esses reflexos do mundo real na ficção fazem da comédia uma amarga combinação de conto-de-fada alienante e cautionary tale, fábula-de-sobreaviso. O que pode até ser uma coisa interessante, mesmo porque é um paradoxo parecido com aquele que compõe a personalidade bipolar de Becky Bloom.

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