Os 20 anos que transformaram a nerdice

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Os 20 anos que transformaram a nerdice

Uma reflexão sobre a evolução do nerd pela história do Omelete

Marcelo Hessel
29.05.2020
16h05
Atualizada em
29.05.2020
15h58
Atualizada em 29.05.2020 às 15h58

Eu não tive muito tempo de lamentar que completei 40 anos de vida isolado no meio da quarentena, porque ao longo deste mês de maio passei boa parte do meu tempo na companhia de velhos conhecidos, celebrando outro aniversário, buscando nos arquivos sem poeira da Internet uma seleção de conteúdos que representassem a produção do Omelete nestes 20 anos de existência do site. O que encontrei estava coberto com outro tipo de resíduo, o pó do tempo, depositado não só em cacos de HTML (tantas formatações, tantas migrações) mas principalmente nos vícios de linguagem. Como éramos jovens (e ingênuos, e bobos, e simplistas), e que jornada! Não acho exagero dizer que o Omelete mudou porque a nerdice, em si, pokevoluiu.

O site começou na época da bolha das Ponto Com, quando todos achavam que a Internet seria o novo lar dos formatos de mídia e negócios já existentes. Não havia um ecossistema de Internet, propriamente, embora já funcionassem muito bem os grupos de troca de emails (de onde saiu a primeira geração de colaboradores do Omelete), como o saudoso Yahoo! Groups. Nesse contexto, é compreensível que a linha editorial seguisse casos consagrados como da revista Wizard, que cobria o mercado de quadrinhos como uma grande conversa de entendidos, feita de piadas internas, opiniões de consenso e uma visão de mundo essencialmente juvenil. Todo mundo zoava o Rob Liefeld, e por anos escreveu-se no Omelete assumindo que o planeta inteiro sabia quem ele era.

A evolução teve muitas fases. Depois dos textos engraçadinhos, de incorreção política e cheios de trocadilhos do início, veio uma safra especialmente assoberbada, que acompanhou os primeiros set visits e o encanto das entrevistas exclusivas, quando as críticas saíam prolixas, acadêmicas. A transição não deixa de seguir um arco de amadurecimento: estávamos saindo do nicho, do conforto do berço, e para que o mundo nos recebesse como somos (nerds traumatizados pelo estereótipo, nada menos) era preciso falar a língua dos adultos. Foram uns bons anos até que o Omelete chegasse ao lugar que ocupa até hoje, e do qual me orgulho mais: no epicentro das mudanças, sem medo de mudar com elas, de aprender e rejuvenescer, de ser leve mas falar difícil e repensar as coisas quando a situação pede.

Quando o mundo percebeu que ser nerd, hoje, é muito mais assumir gostos sem culpa do que reivindicar a exclusividade desses gostos, a roda já tinha girado. Batendo o pó das caixas que guardam a história do Omelete, foi um prazer constatar que tivemos o privilégio de testemunhar esse movimento de dentro. Eu me envergonho de muita coisa equivocada que já escrevi, dos preconceitos e das verdades absolutas, e desconfio de quem não passa por processo parecido, num período tão longo. Depois de tudo, com o tamanho que o Omelete tem hoje, fica obviamente uma sensação de realização cumprida, mas acima disso fica a certeza do aprendizado.