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Omelete recomenda: Filmes cult

Omelete recomenda: Filmes cult

Marcelo Hessel
10.05.2006, às 00H00
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H20
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H20

Estrela solitária

Boa noite e boa sorte

Jogos & trapaças
Quando os homens são homens


A mosca da cabeça branca

Homem do braço de ouro

A noite

Jogos, trapaças e dois canos fumegantes

O homem de palha

A promessa

Enigma de outro mundo

Madame Satã

Crupiê

Cuidado que o prato está quente... A nova seção do site não tem a ambição de ser uma Omelista, indiscutível e definitiva. Está mais para um guia de consumo, em eterna e descompromissada construção. Elencamos abaixo filmes que, na modesta opinião do Omelete, se encaixam bem em gêneros particulares, são fáceis de achar em DVD ou ainda estão em cartaz nos cinemas.

Para começar, algumas dicas de filmes cult - sejam eles cultuados pelo valor histórico, estético, pela excentricidade ou simplesmente porque nós da Cozinha os guardamos no coração. Pode confiar, que o Omelete Recomenda.

*****

Estrela solitária
(Dont come knocking, de Wim Wenders, 2005)

O ator Howard Spence (Sam Shepard) sabe o que é um bom faroeste. Montou toda a sua carreira interpretando mocinhos de bangue-bangue. Mas o que um dia foi um ícone hoje é uma sombra. Conhecendo-o depois, dava até para prever que um dia ele surtaria. E o dia chegou. Howard estava nas filmagens de O Fantasma do Oeste, sua tentativa de voltar ao estrelato, quando abandona o set em cima de um cavalo, com o figurino do personagem no corpo. Foge sem rumo - e acabará tendo que enfrentar sua própria história.

Nos anos 80 o alemão Wim Wenders era sinônimo de cult. Se agora ele retorna à geografia de sua obra-prima Paris, Texas, o Meio Oeste dos Estados Unidos, não é de forma nostálgica, mas arriscando novas linguagens. Estrela solitária é um filme que atiça os sentidos. O Velho Oeste, antes monocromático, monocórdio, mitológico, agora é conspurcado de luzes, cacofonias, exageros de cores vertiginosas. Do barulho de um barbeador elétrico a um carro com a lataria forrada de espelhos, que avança cena adentro como um globo de discoteca sobre rodas, Wenders capta tudo nesse seu retorno ao Oeste, com o ouvido apurado e os olhos abertos de quem ainda se abre a experimentações.

Crítica | Trailer

Boa noite e boa sorte
(Good night, and good luck, de George Clooney, 2005)

O segundo filme do galã George Clooney como diretor tem tudo para virar cult dentro de alguns anos. E não só porque foi injustamente derrotado no Oscar por Crash. Tende a virar objeto de culto porque é um filme corajoso em todos os sentidos - desde a comparação da Era Bush com o Macarthismo, passando pela fotografia em preto-e-branco, até a desavergonhada glamourização do hábito de fumar, atitude impensável para os dias politicamente corretos de hoje.

A história nos situa nos anos 1950, quando o senador republicano Joseph McCarthy (que aparece no filme por meio de imagens de arquivo) empenha-se numa caça às bruxas de supostos comunistas no seio da nação. De seu lado, lutando contra o pensamento único, o âncora de TV Edward R. Murrow (David Strathairn), o produtor Fred Friendly (interpretado pelo próprio Clooney) e sua equipe de repórteres denunciam a aversão de McCarthy aos direitos civis e seus métodos de investigação. Murrow encerra seu programa sempre com o bordão "Boa noite e boa sorte", sinalizando que os tempos que correm não são os melhores para quem preza a liberdade de expressão.

Crítica l Trailer

Jogos & Trapaças - Quando os homens são homens
(McCabe and Mrs. Miller, de Robert Altman, 1971)

Warren Beatty é John McCabe, forasteiro não muito inteligente, metido a macho, que decide montar num vilarejo perdido no Oeste dos Estados Unidos um bordel em parceria com a cafetina Constance Miller (Julie Christie). O negócio prospera aos poucos, logo chama a atenção de compradores vindos de outras regiões do país. É aí que McCabe precisa provar sua hombridade.

Hoje com 81 anos, o cineasta Robert Altman já passeou por gêneros vários, da guerra ao musical. Seu flerte com o faroeste, no caso, não foi menos do que marcante. Não espere duelos ao meio dia ou dançarinas de cancan. O olhar de Altman sobre o Velho Oeste não tem nada de glamourizado. Como todo western digno dos clássicos, Quando os homens são homens trata da bruta transição entre a ingenuidade pré-colonização e a pressa da civilização que nasce então. Nesse meio caminho, McCabe é um símbolo do peso que recaiu sobre os homens de seu tempo.

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A mosca da cabeça branca
(The Fly, de Kurt Neumann, 1958)

Muito antes de Jeff Goldblum perder suas orelhas pelo caminho, A Mosca já andava entre nós. David Hedison é Andre Delambre, cientista obcecado por sua última invenção, um teletransportador de matéria. Como todo bom homem da ciência, Delambre decide testar o experimento em si mesmo. Só não contava com uma pequenina mosca que entrou com ele na câmara. Resultado: o homem ficou com a cabeça e um braço do inseto. Drama maior, a partir daí, sofre sua mulher, Helene (Patricia Owens), que terá que escolher entre a vida e a morte da aberração que um dia foi seu marido.

Não apenas pelo que está impresso na película, mas pelos casos que cercaram a produção, dá pra dizer que este é um cult dos grandes. O diretor Kurt Neumann não chegou a comemorar aquele que seria seu maior sucesso de bilheteria. Ele se matou uma semana antes do lançamento do filme. Se o motivo foi o medo do fracasso ou algum conflito já existente, é difícil saber. O fato é que A mosca da cabeça branca, com sua música tensa e suas luzes fúnebres, transmite a inquietude típica de uma mente perturbada. E o final é, desde sempre, um dos melhores de todos os tempos.

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O homem do braço de ouro
(The man with the golden arm, de Otto Preminger, 1955)

Pelo nome parece até um filme de James Bond. Pelo contrário, não há nada de espetaculoso ou inverossímil nesse drama de temática forte. Frankie Machine (Frank Sinatra) adquiriu o apelido de "Braço de Ouro" por sua destreza como crupiê no pôquer. Ele acaba de sair da prisão, o apelido fica, mas ele não quer mais saber do jogo. A sua luta pela superação, porém, será árdua. Ele precisa lidar com a invalidez da esposa (Kim Novak) e com o vício em heroína, cujos surtos de abstinência corroem todos os seus sonhos.

Os anos 50 são, em Hollywood, aqueles que assistem aos últimos suspiros do star system e da Era de Ouro dos estúdios. Essa transição é marcada, entre outras coisas, pela evidência de temas antes tabu - como as drogas, no caso do filme de Preminger. Muitos chamam a fase de Realismo Americano. Os melhores filmes da época buscavam sua fonte no teatro, em especial nas peças de Tennessee Williams, mas é de um livro, de autoria de Nelson Algren, que Preminger tirou O homem do braço de ouro. O resultado é uma das melhores atuações de Sinatra e um filme emblemático daquela década.

A Noite
(La Notte, de Michelangelo Antonioni, 1961)

Aproveitando a deixa do filme anterior: se os anos 50 são o crepúsculo da Era de Ouro de Hollywood, isso se deve ao crescimento do cinema europeu na década de 60. O melhor em matéria de Sétima Arte era feito pela Nouvelle Vague na França e pelos italianos do pós-Neo-Realismo. Michelangelo Antonioni, no caso, com a sua Trilogia da Incomunicabilidade (da qual A noite é o filme do meio), até hoje é considerado um vanguardista. Poucos criticam o vazio cacofônico da sociedade do século XX como ele, e A noite mostra que a principal vítima desse vazio é o amor.

Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni) é um escritor afamado que leva um casamento morno com Lidia (Jeanne Moreau). No intervalo de um dia eles visitam um amigo moribundo no hospital, Giovanni comparece à divulgação de sua nova obra, Lidia vagueia por Milão, e ambos seguem a uma festa da alta burguesia. É durante essa noite, entre flertes que ela e Giovanni trocam com outras pessoas, que Lidia percebe: o simulacro de casamento que ela vive não tem mais futuro. Parece deprê? Pois Antonioni nos fala com tal sobriedade que só resta reconhecer nossas mazelas e lhe dar razão.

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Jogos, trapaças e dois canos fumegantes
(Lock, stock and two smoking barrels, de Guy Ritchie, 1998)

Eddie (Nick Moran), Tom (Jason Flemyng), Bacon (Jason Statham, antes da fama com Carga explosiva) e Soap (Dexter Fletcher) são quatro jovens da classe média que decidem apostar alto numa mesa de pôquer. Eles conseguem juntar 100 mil libras, 25 mil de cada, e colocam tudo nas mãos de Eddie - malandro de rua que joga cartas desde que se conhece por gente. Claro que eles perdem tudo. Para piorar, saem devendo meio milhão de libras, que devem ser pagas em uma semana, ao custo de um dedo cortado por dia de atraso. A solução que eles encontram parece simples, mas logo degringola entre bares, armas antigas, pacotes de maconha e muita correria.

O filme que lançou Statham é também aquele que tornou mundialmente famoso o nome do diretor Guy Ritchie. Hoje desconfiamos - muitos têm certeza - que o marido de Madonna não tinha bala na agulha e fazia muito barulho com festim. É só conferir o sexista Destino insólito para entender que Ritchie não tem futuro longe dos misóginos filmes de gângsteres. A boa notícia é que desse submundo cheio de eternos moleques, bocas-sujas e tipos excêntricos, o mesmo mundo de Snatch, o diretor inglês entende alguma coisa ou outra, capaz de entreter a audiência por duas horas.

Crítica
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O homem de palha
(The Wicker man, de Robin Hardy, 1973)

O policial Neil Howie (Edward Woodward) chega à ilha de Summerisle, na costa escocesa, com a missão de investigar o desaparecimento de uma jovem. Os habitantes da ilha, no entanto, não parecem dispostos a colaborar. Todos, inclusive a mãe da menina, negam que ela exista ou que tenham ligado para a polícia e relatado o crime. Quanto mais Howie procura, mais se confunde. Para piorar, revela-se diante dele uma comunidade pagã, cheia de amor livre e folclores celtas, que vai contra tudo aquilo em que o religioso e conservador policial acredita.

O clássico do terror político de Robin Hardy entra nas recomendações porque é indispensável conhecê-lo antes que a refilmagem hollywoodiana, atualmente em produção, com Nicolas Cage como Howie, chegue até nós. Ofensiva contra os reacionários, alerta visionário contra o fanatismo ou mera tiração de sarro? Tire suas conclusões entre um deleite sádico e outro, especialmente porque Christopher Lee está impagável como o líder espiritual da comunidade de Summerisle.

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A Promessa
(The pledge, de Sean Penn, 2001)

Prestes a se aposentar, o detetive Jerry Black (Jack Nicholson) parte para o Estado de Nevada, em pleno inverno, tempo de neve e animosidades, para investigar a morte de uma menina. Não demora para o principal suspeito, o índio Toby Jay Wadenah (Benicio Del Toro), confessar o crime com alguma pressão policial. Mas Black não se satisfaz. Usa sua aposentadoria para se instalar nos confins da região, onde continuará seguindo as suas pistas até encontrar o verdadeiro assassino - ou até que sua obsessão o enlouqueça.

O tempo há de valorizar o terceiro filme de Sean Penn como diretor - mas até lá não custa incensá-lo. A proeza de conter os trejeitos de Nicholson e exigir do ator uma atuação minimalista é a primeira das conquistas de Penn. As outras são a segurança com que conta uma história com imagens, com que constrói uma atmosfera de penitência mesmo no cenário mais plácido. Seu exame da mítica abnegação do herói, a maneira como derruba esse pilar do gênero policial, ainda renderá muita discussão. E a cena em que Black dá a má notícia aos pais da menina, dentro do viveiro de aves, é de chorar, de tão boa.

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Enigma de outro mundo

(The Thing, de John Carpenter, 1982)

Repare na sinopse. Um time de doze pesquisadores trabalha numa remota estação no Ártico e descobre um ser alienígena submerso na neve há mais de 100 mil anos. Descongelada, a criatura mutante, que possui a habilidade de transformar-se em seu hospedeiro, descarrega sua fúria espalhando o terror na estação. Parece a premissa mais trivial possível, até mesmo o título original é a coisa mais sem originalidade do mundo. Mas o que vale nesse gênero - é fácil perceber pela obra-prima de John Carpenter - não é o material, e sim a maneira como ele é trabalhado.

No caso, a aula de cinema é dada em matéria de construção de atmosfera. Não é preciso muito malabarismo digital ou litros de sangue para provocar medo, e Carpenter prova essa tese com algumas escolhas de luz e fotografia. Basta um tom de azul escuro mais abaixo do discernível para transformar todo o enquadramento em espaço do terror. Vemos pouco nas cenas externas, só o suficiente para entender o que se passa, e é esse pouco que cria o suspense. Carpenter transforma o estúdio da Universal, na Califórnia, num Ártico ermo e aterrador, daqueles capazes de levar um homem à loucura, de tanto breu e tanta solidão.

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Madame Satã

(de Karim Aïnouz, 2002)

Em 2002, forte ano do cinema brasileiro, que teve Cidade de Deus monopolizando bilheterias e discussões, Madame Satã não caiu na boca do povo. Na crítica especializada, porém, houve quem soubesse identificar ali um clássico no nascedouro. Mas de que é feito um clássico? Não há só uma resposta. Um clássico pode ser um filme que torna-se instantaneamente modelo para os demais, paradigma desde o início. Nesse sentido a estréia na direção do cearense Karim Aïnouz, filme que lançou Lázaro Ramos e Flávio Bauraqui, merece sim uma menção.

Malandro, homossexual, transformista, capoeirista, cozinheiro e pai adotivo, João Francisco dos Santos (1900-1976) personificava o lado mais obscuro da Lapa carioca dos anos 30 e 40. No carnaval de 1942, libertado depois de cumprir dez anos de prisão por homicídio, João Francisco incorpora uma personagem num baile e vence o concurso de fantasias - o traje, de nome Madame Satã, saiu de um filme homônimo de 1930 de Cecil B. DeMille. O filme de Aïnouz culmina com o concurso. Até lá João Francisco (Ramos) sofre de preconceito, sofre de amor, sofre de inadequação. O uso da luz para criar uma Lapa fidedigna e o roteiro certeiro em suas elipses e idéias abertas são duas lições que devem ficar na história do cinema nacional.

Crítica

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Crupiê - A vida em jogo
(Croupier, de Mike Hodges, 1998)

Jack (Clive Owen) é um escritor sem sorte. Quer criar seu primeiro romance, mas ninguém aceita publicá-lo. Quando aparece a chance de trabalhar como carteador em um cassino, ele pensa em recusar. Apesar de saber tudo das cartas, desde menino, ele jurou a si mesmo que jamais dependeria daquilo para viver. Mas de repente a chance pode servir a um livro - e se ele escrevesse sobre o que mais entende, o universo dos jogos de azar? Jack aceita o trabalho como parte da sua "pesquisa", mas no fim acaba se envolvendo em lances que não conseguia antever.

No final dos anos 90, Owen tentava fazer a difícil transição da TV para o cinema. Provavelmente ainda estaria tentanto se Mike Hodges não tivesse lhe dado um papel, que lhe serviu como uma luva, em Crupiê. O tipo no limite entre o grosseiro e o galante que desde então marcaria a carreira de Owen foi moldada neste filme de 1998. A premissa do tipo "não consigo ficar longe de uma mesa de cartas, é mais forte do que eu" já está um pouco batida, é verdade. Mas ver o ator inglês atuando é um desbunde. Vale rever o filme, também, para tentar achar algum sentido naquele maldito final.

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