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Entrevista

Omelete Entrevista: Ray Winstone, o Beowulf

Ator inglês explica como foi viver o guerreiro lendário

Érico Borgo
02.12.2007, às 00H00
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H31
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 13H31

Quem assistir ao filme A Lenda de Beowulf e sair buscando fotos de Ray Winstone, ator que interpreta o guerreiro geata, vai levar um choque. Barrigudo e aos 50 anos, o físico dele está mais para Tony Soprano que Rei Leônidas. O visual do herói do filme, com abdômem sarado e mais alto que todos os outros, foi criado por computação gráfica. Os seus traços lembram apenas levemente o ator de Sexy Beast. Conversamos com ele em Los Angeles e o papo foi ótimo. Totalmente à vontade e disparando histórias com seu sotaque fortíssimo e cativante do oeste londrino, Winstone falou sobre seus tempos de boxeador, como foi interpretar Beowulf e como foi chamado para o papel.

Como foi esse processo tão diferente pra você?

Beowulf

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Ray Winstone

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Ray Winstone

Eu nunca havia feito algo parecido. Só tinha visto O Expresso Polar - e acho que este ficou muito melhor. Mas, como tudo, é um processo. Quanto mais eles fizerem, melhor ficará. E adorei a técnica, dá uma enorme liberdade. Você fica ali, sem qualquer preocupação a não ser atuar. [Winston refere-se a ausência de pausas para arrumar câmeras, iluminação, etc, como explicamos aqui].

E por que Zemeckis o escolheu para Beowulf?

Ele, obviamente, é um homem inteligente! Ahahahahaha. Ele me viu em Henrique VIII, que eu fiz na Inglaterra para a TV, e gostou. No primeiro dia de filmagem, foi engraçado, eu cheguei lá e comecei a fazer um vozeirão, com sotaque irlandês - e o cara, "o que você está fazendo". E eu respondi que estava acompanhando Brendan Gleeson [o personagem Wiglaf, braço-direito do guerreiro]. E ele, "nada disso... quero o Henrique VIII". Então eu entendi e segui daí, com uma enorme liberdade.

Quantos quilos de ego você teve que colocar sobre seus ombros para viver um herói desses?

No começo foi mais coragem que ego, porque eu me senti extremamente vulnerável nos primeiros dias de filmagem. Saí do camarim com aquela roupa apertadíssima [o macacão colante com sensores da captura de movimentos], com cada uma das minhas gorduras aparecendo. E tinha que atuar com Angelina e Robin Wright Penn, lindíssimas naquela roupinha, tentando parecer bacana e fingindo que era todo saradão. Ehehehe. Aí tive que superar isso rápido.

Bom, e para mim Beowulf não é egocêntrico. Ele simplesmente realmente acredita em tudo o que se fala dele. E é aqui que a ganância e a ambição se instalam - e pra mim é exatamente isso que a história é sobre. Celebridade.

E essa transformação física em um gigante musculoso exigiu adaptações no set?

Sim. Beowulf é o mais alto do filme, e eu sou baixo. Então para que eu pudesse falar com as pessoas olhando na direção certa sempre andava sobre uma pequena passarela. Então essa era a única coisa que me restringia... fazíamos uma vez só pra ver para que lado seria melhor caminhar, depois novamente, com a plataforma. De qualquer forma, o filme foi a experiência mais livre que já tive no cinema.

Quanto tempo levou de preparação para você ficam com aquele corpo?

Ahahahahahahahaha, umas três semanas! Falando sério, a coisa é que mesmo que a computação gráfica consiga me transformar naquele cara, ainda assim eu preciso me mover como ele. Imagina o Beowulf se mexendo como eu... ahaha. Então atuei como um homem musculoso, com braços enormes, por todos os cantos.

Sua esposa deve ter ficado feliz.

Ahahaha, ficou sim. Somos casados há 28 anos, ahahahaha. Na verdade, ela pegou uma foto muita de quando eu tinha uns 18 anos pra comparar. Na época eu fazia boxe, era um moleque atlético, loiro. Realmente, me parecia mais com Beowulf.

E a batalha entre Beowulf e Grendel? Como foi feita?

Me amarraram em arames, eu escalava um Grendel falso, pulava pra lá e pra cá... fiz várias peripécias de verdade! Eles me disseram "o que você se sente capaz de fazer", e eu fiz a besteira de dizer "tudo o que vocês acharem que eu consigo", todo seguro porque havia um dublê ali. E eles "ok", me amarraram nums arames e fiz quase tudo. E - quer saber? - estou muito feliz que eles tenham feito isso. Me sinto orgulhoso do resultado, apesar das dores todas. E machuquei umas costelas na briga final. Fiquei todo empolgado, brincando de Errol Flynn, me balançando na corda para arrancar o coração do dragão e *BAM* fui direto de peito na estrutura. Mas foi legal. Umas seis semanas de exercício físico intenso.

Você acha que, com tudo isso, o filme exija ser visto numa tela 3-D?

Eu não acho não. A coisa com esse filme é que ele tem uma ótima história e isso é o mais importante. Mas, claro, se você quiser ter o potencial máximo do visual, tem que ver num 3-D. De qualquer maneira, a história é fantástica.

Este é seu primeiro filme realmente comercial, mainstream. Isso fará diferença na sua carreira?

Estou muito feliz que esse sucesso todo só tenha acontecido agora que estou velho. Já passei da idade de me impressionar comigo mesmo. E se isso acontecer, pode ter certeza que minha família me dará uns bons chutes no traseiro.

Bom, você tem um papel em Indiana Jones...

Isso foi divertido. Terminamos há algumas semanas. Filmamos por todo lado, foi uma enorme brincadeira. Me senti um moleque. Mas não posso falar nada ou terei que matar você. Hahahahaha.

Fale então sobre a sua carreira. Você foi até boxeador quando jovem...

Eu fui! Eu adorava. Venci 80 das minhas 88 lutas. Minha carreira como ator começou só mais tarde. Fiz uma peça na escola, gostei e minha mãe me colocou na escola de teatro. Na verdade não fazia a menor idéia do que estava fazendo ali, mas dei uma sorte enorme, com uma ótima professora. E acabei aprendendo. Mas minha vida profissional mudou mesmo quando trabalhei com Gary Oldman [no filme roteirizado e dirigido por Oldman, Violento de Profano (Nil By Mouth)]. Esse sim foi um professor incrível. O cara está acima de todos e peguei um pouco do seu estilo. Quanto ao boxe, acho que a grande contribuição do esporte para a minha carreira foi que quando você está apanhando na frente de 5 mil pessoas dói pra caramba... então levar uma vaia no palco é nada comparado a isso. Pode acreditar. Além disso, boxe é um combate entre duas pessoas, olhos nos olhos, como um diálogo. Você tem que saber como responder e antecipar. Atuar é quase a mesma coisa.

Minha carreira começou a despontar com o filme Scum (1977), que fez um bom sucesso na Inglaterra. Mas depois disso, aprendi a duras penas, não significa que você esteve num sucesso para conseguir trabalho de novo. Demorei uns anos pra trabalhar outra vez. Mas felizmente deu tudo certo. Gosto muito do que faço.

Leia tudo sobre o filme no ESPECIAL A Lenda de Beowulf

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