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Entrevista

Omelete Entrevista: Pete Docter, diretor de Up - Altas Aventuras

De cães com voz de Darth Vader ao padre baloneiro, conversamos de tudo com ele

Eduardo Graça
08.09.2009, às 00H00

Pode parecer exagerado, mas Up - Altas Aventuras é o Wall-E deste ano. É também uma virada de mesa para a Pixar, que apresenta desta vez um desenho sem grandes malabarismos técnicos, com uma história quase lacrimogênea que lembra os clássicos da Disney. Mas a conversa com o diretor Pete Docter revela o que há por detrás da história aparentemente banal de um velhinho viúvo que decide partir para a Amazônia brasileira munido apenas de boa-fé, sua casa (inteira) e milhares de balões.

Ao lado do insuportavelmente hilário menino Russell, Carl Friedrickson enfrenta cachoros com vozes de Darh Vader (bem, mais ou menos) e perigos inimagináveis no topo da Amazônia (mais precisamente no platô das montanhas que marcam a divisa entre Roraima, Venezuela e Guiana) para descobrir que sua vida foi um festival de maravilhas. Imagens fortes, de dor, perda, ataques e grandes perigos, especialmente quando voando pelos dois lados da América, levam Up - Altas Aventuras ao limite que fizeram a animação conquistar uma bilheteria de US$ 290 milhões nos cinemas dos Estados Unidos.

Seguem os melhores trechos da conversa com Docter, que fala até das (poucas) semelhanças da aventura do senhor Friedrickson com o padre Adeli de Carli, morto no ano passado depois de tentar viajar pelo Brasil sentado em uma cadeira com balões amarrados. "Não tentem isso em casa!", avisam os responsáveis pelo delicioso Up.

Up - Altas Aventuras

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Up não traz um enredo exatamente ordinário quando pensamos numa animação da Pixar. O herói é um senhor idoso que vai parar na Amazônia a bordo de uma casa flutuante...

De fato, houve alguns momentos na construção deste filme em que pensamos: "será que a gente está indo um pouco longe demais"? E, cá entre nós, deixamos de lado algumas idéias que pareceram ser exageradas demais. Mas propositadamente decidimos que a primeira parte do filme seria bem emocional mesmo. Daí o filme continua, fazendo mais sentido.

E por que um herói em idade tão avançada?

É que ele pareceu ser tão engraçado! Sentei com o Bob [Peterson - codiretor] em uma sala e começamos a pensar no que nos interessaríamos em fazer agora. E um senhor idoso ranzinza nos pareceu algo sensacional. Pensamos nos desenhos de George Booth para a New Yorker, em Spencer Tracy e Walter Matthau. E, para nós, é fundamental tentar fazer algo que nunca fizemos antes.

Aonde exatamente o Carl Fredricksen e o menino Russell descem depois da viagem com a casa flutuante?

Nas montanhas do imenso platô na fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana. Claro, tudo é ficcional, mas passamos por lá com uma equipe, andamos, vimos cachoeiras, nos inspiramos. Foi sensacional.

E por que o Brasil e logo nas imediações de Roraima, uma área pouco conhecida até para os brasileiros?

É que precisávamos que Carl estivesse em um lugar em que ele não pudesse contar com o auxílio de ninguém, a não ser uma criança, que o ajudaria a se transformar. No início pensei numa ilha perdida no Pacífico Sul, mas achei que era uma idéia batida. E a ilha no céu de Roraima foi a resposta perfeita. É um lugar de extrema solidão. Até os dias de hoje, mais de 100 montanhas da região jamais foram exploradas. Foi o cenário para uma aventura famosa de Sherlock Holmes, imaginada por sir Arthur Conan Doyle e há aquela sensação de "huum... talvez até os dinossauros ainda estejam por aqui". As rochas lembram imagens de Marte. É inacreditável.

Há uma clara mensagem de proteção dos animais e do meio-ambiente no filme. E como ele é passado na Amazônia...

Não! Juro que evitamos qualquer mensagem ou tentativa de pregar algo sobre a proteção da Amazônia. É a última coisa que queríamos fazer, juro! Focamos na força emocional e visual daquela área. Só isso.

Então, se você pudesse sintetizar a mensagem do filme, qual seria?

A transformação deste homem, Carl Fredrickson, que não sabia que já havia realizado a grande aventura de sua vida: a relação de amor com a mulher que ele escolheu, e por quem ele foi escolhido.

Pensei em filmes como O Mágico de Oz ao ver a casa viando. Vocês se inspiraram em algum clássico?

Não mesmo. Acho que a platéia inconscientemente faz as ligações, mas nós tentamos fazer algo completamente original, o mais distante possível dos clássicos.

Vocês não contam com nomes famosos, mas as vozes funcionam com perfeição. Como encontraram o Russell ideal?

Foi uma história engraçada. Nós testamos pelo menos 40 meninos. E os atores não eram ideais, eram quase muito "atores" pro papel, sabe? E um dos meninos que veio para o teste trouxe o irmão como acompanhante. Ele começou a falar de suas aulas de futebol no microfone naturalmente, não parava de falar, e pensamos: ele é o Russell! O Jordan (Nagai) não é um ator profissional, mas trazia esta autenticidade que estávamos procurando para o papel.

Uma dos aspectos mais engraçados do desenho é a voz malvada do cachorro. Qual foi sua inspiração?

Quando criança a gente adorava pegar os discos e tocar na vitrola em rotação diferente da original. Era hilário! Seria algo como um Darth Vader com uma voz falha (risos).

No ano passado nós tivemos a história do padre brasileiro que morreu depois de tentar viajar um trecho de longa distância usando balões de encher. Vocês temem algum tipo de reação do público brasileiro?

Por favor, gente, não tentem isso em casa! (risos). Já estávamos no fim do filme quando a tragédia aconteceu, mas este tipo de situação não é exclusiva do Brasil. Tem um cara que eu conheço que todos os anos coloca balões numa cadeira e já conseguiu viajar por cinco ou seis vezes. Mas não sei como será a reação no Brasil. Para a casa, seriam 10 mil balões, fizemos a conta! (risos).

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