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Entrevista

Omelete entrevista Michelle Pfeiffer

Bela atriz vive a bruxa Lamia de Stardust - O Mistério da Estrela

Soraia Yoshida Evans, de Londres
10.10.2007
22h01
Atualizada em
21.09.2014
13h29
Atualizada em 21.09.2014 às 13h29

Na fantasia Stardust, a californiana Michelle Pfeiffer vive Lamia, uma bruxa decrépita em busca da juventude eterna. A atriz, beirando os 50 anos e com esse mesmo número de projetos no currículo, não parece nem um pouco preocupada com isso. Na entrevista realizada em Londres ela fala sobre a beleza natural, sua carreira e porque mudou-se de Hollywood. Confira!

Foi fácil para você retornar ao set depois de quatro anos? Foi um processo natural?

Michelle Pfeiffer

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Michelle Pfeiffer

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Mais ou menos. Eu fiz primeiro Nunca é Tarde Para Amar (2007), que ainda não foi lançado [nota dos editores: no Brasil já foi, leia]. E me surpreendi porque me senti enferrujada! Eu me senti... não sei, eu nem consigo descrever. E fiquei repetindo para mim mesma que era uma coisa boa, porque eu não podia usar meus velhos truques. Então foi uma coisa boa que eu tenha parado por um tempo, porque às vezes você se pega fazendo coisas que velhos atores fazem, sem perceber, e aí acaba repetindo atuações que as pessoas ja viram... E é isso o que eu ficava repetindo: "isso e uma coisa positiva".

Em Stardust, a sua personagem persegue a eterna juventude, algo que uma porção de atrizes faz hoje em dia apelando para a circurgia plástica. Qual é a sua visão? Você consideraria?

Ahn... (falando devagar) vou dizer uma coisa sobre isso: quanto mais você envelhece, mais difícil fica dizer "eu nunca vou fazer". Minha esperança é que eu envelheça bem (pausa). As mulheres sofrem uma pressão enorme e acho que essa é uma das coisas que Matthew (Vaughn, o diretor) queria explorar, tirar sarro dessa obsessão que a sociedade tem com a juventude e a perfeição - que se tornou uma distorção grotesca. Quando vejo garotas lindas e perfeitas fazendo coisas com seus rostos, eu me pergunto o que vai na cabeça delas, o que elas vêem quando se olham no espelho.

E o que você faz para se manter assim linda e saudável?

Não tem nenhum grande segredo. As pessoas têm que se cuidar, comer de maneira saudável e fazer exercício. E também depende do seu estado mental. Eu sei que quanto mais feliz eu estou emocionalmente, espiritualmente, mais centrada e ligada no que acontece ao meu redor, melhor eu me sinto. Também acho que uma mulher segura de si é extremamente sexy. Eu sempre me impressionei com mulheres que não têm aquela beleza convencional, mas são lindas e mostram isso na atitude, na maneira que se vestem, com que falam com as pessoas... E já vi mulheres de uma beleza mais tradicional que não são nada interessantes ou que eu consideraria sexy.

Você já disse que é uma pessoa tímida e eu me pergunto se confiança e timidez caminham lado a lado.

Não me sinto muito segura em grandes ocasiões sociais, quando estou cercada por muita gente, isso me faz sentir desconfortável. Jantares em que não conheço muita gente não me deixam à vontade porque não sou de ficar falando a noite inteira. Mas isso não significa que eu não seja confiante.

É verdade que você detesta assistir aos seus próprios filmes?

(Abanando a cabeça positivamente) Eu não gosto de assistir aos meus novos filmes, eu não gosto de assistir aos meus filmes antigos...

Mas é verdade que você não assiste aos seus filmes porque tem medo de descobrir que é uma atriz ruim ou isso é mito?

Eu não sou a única. Eu sou muito crítica e é muito difícil para mim me ver na tela grande. Eu sou capaz de apreciar um bom momento "ah, isso foi bom", mas é muito complicado. Eu assisto ao filme assim que ele fica pronto porque eu sinto que tenho de ver como ficou e falar a respeito, mas depois disso, não assisto nunca mais.

Existe algum trabalho com o qual você tenha ficado completamente satisfeita?

Não.

Nem com Scarface?

As performances com as quais fiquei satisfeita nunca são as mesmas que os críticos mencionam... E aquelas que me rendem boas críticas eu odeio.(risos)

Qual foi a maior mudança que você notou desde que deixou Hollywood?

Eu não tinha intenção de deixar Hollywood, embora fisicamente eu tenha me mudado de Los Angeles. Acho que muita gente interpretou isso como um sinal de que eu estava me aposentando. Algumas mudanças já estavam acontecendo enquanto eu ainda estava trabalhando muito. O surgimento e o crescimento da reality TV afetou muita gente que eu conheço. Às vezes eu tenho a impressão de que trabalhei na melhor época para nós, atores, quando ainda se faziam grandes filmes de estúdio. Os estúdios também tinham suas divisões de filmes de arte que produziam filmes de menor orçamento - e você podia ir de um para outro, sem problemas. Tinha ainda os filmes de médio orçamento. Hoje você tem os filmes de grande orçamento e os independentes - e quase nada é produzido entre uma coisa e outra. Essa é uma grande mudança.

Qual é o seu próximo projeto?

Estou fazendo um filme independente que se chama Personal Effects com Ashton Kutcher e direção de David Holland.

A grande razão que te levou a deixar Hollywood foi a sua decisão de passar mais tempo com os seus filhos. É muito duro ser mãe e atriz?

Durante muito tempo, quando as crianças eram menores e eu estava trabalhando muito, eu era como qualquer mãe que trabalha, equilibrando as duas coisas. O maior desafio não é quando eles ainda são pequenos porque aí você pode levá-los para todo lado. Mas à medida que eles vão crescendo e desenvolvendo suas próprias vidas e interesses, você não quer interromper a rotina deles, então começa a pensar mais, o processo de decisão fica mais complexo.

E os seus filhos assistem aos seus filmes? Bom, pelo menos Stardust...

Ah, eu os levei para ver Stardust. Eles adoraram me ver de bruxa! Eles gritavam toda vez que eu aparecia horrorosa na tela. Eles estão naquela fase, com 13 e 14 anos, e ficaram encantados em me ver caindo aos pedaços.

E você se divertiu com o filme?

Ah, eu me diverti, sim. Não gostei de usar toda aquela maquiagem, vou ser honesta. Batman também foi assim, mas desta vez foi pior. Mas meu papel era tão divertido, tão desafiador, que valeu a pena. Eu tive de seguir meus instintos e isso foi muito bom para mim porque minha tendência é ser uma pouco cautelosa e eu vou indo aos pouquinhos numa certa direção e desta vez não tive tempo para aclimatar meu personagem, foi tudo um pouco aos trancos, mas eu ficava o tempo todo me convencendo que era a coisa certa.

O fato de ser mãe mudou a maneira com que você escolhe os filmes que vai fazer?

Não em termos de conteúdo, mas em relação a quando vou trabalhar, em que lugar, qual época do ano, quanto vai exigir de mim, quanto tempo vou ficar longe dos meus filhos.

Algum dos seus filhos mostrou interesse em seguir sua carreira?

Não. Se fosse o caso, eu daria o meu apoio, mas não sei se encorajaria. Eu me sinto muito afortunada por fazer uma coisa que eu adoro, que eu sempre quis fazer. E também tive muita sorte. Agora as coisas ficaram mais difíceis para quem está começando porque há menos trabalhos disponíveis e consequentemente aumentou a competição. Por essas razões eu talvez os encorajasse a escolher algum outro caminho. Mas eu me lembro de Jeff Goldblum dizendo "se você não consegue fazer outra coisa, se no seu coração não existe outra coisa que você tenha de fazer, então seja um ator".

Foi o que aconteceu com você?

(pausa) Eu... eu... eu tive de fazer isso porque eu tinha de fazer. E acho que a maioria dos atores se sente da mesma maneira. Antes, eu não me sentia completa e equilibrada a não ser que estivesse trabalhando. Eu não me sinto mais assim e não sinto isso há muito tempo. Mas isso também não é bom.

O que você mais gosta no seu trabalho?

(pausa) Ahn... Há momentos em que você está atuando e é como se pegasse uma onda, como se voce desparecesse dentro do personagem. Esse processo é muito catártico, liberador. E é esse momento que estamos sempre procurando. Uma vez uma atriz me disse que é uma questão de percentagens. Ela viu quanto eu tinha me esforçado para fazer aquela cena e como eu fiquei furiosa porque queria que tivesse saído de outro jeito e ela me disse "você só vai atingir 100% algumas poucas vezes na vida, se tiver sorte. O resto do tempo você vai trabalhar em um nível abaixo disso". Acho que é isso que estamos sempre procurando. Além disso, o trabalho é sempre diferente, nunca entediante, cada roteiro que voce lê pede coisas diferentes e cada filme que você faz te leva a partes diferentes do mundo, trabalhando com gente interessante - e isso te força a olhar o mundo de uma maneira que de outra forma você não olharia.

Você pretende celebrar seus 50 anos com uma grande festa ou vai ficar tudo em família?

Eu não gosto muito de festas de aniversário. E não é por causa da idade. Eu... eu acho que... dada a natureza do meu trabalho, eu tenho amigos de diferentes lugares e campos. E aí você convida seus melhores amigos, eles não se conhecem e de repente estão todos ali, sem conversar uns com os outros... É muita pressão.