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Entrevista

Omelete Entrevista: Henry Selick, o diretor de Coraline e o Mundo Secreto

Cineasta comenta com exclusividade, o filme, a técnica e as mudanças em relação ao livro

Érico Borgo
08.02.2009
22h00
Atualizada em
21.09.2014
13h44
Atualizada em 21.09.2014 às 13h44

Não se deixe enganar pelo nome enorme de Tim Burton no pôster e DVDs de O Estranho Mundo de Jack (Tim Burton´s Nightmare Before Christmas). Ele, na verdade, apenas produziu e criou a história os personagens do filme. O diretor foi Henry Selick (James e o Pêssego Gigante), que agora ganha os holofotes com seu maior projeto até hoje, Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009), uma impressionante animação stop-motion em 3-D rotoscópico (que requer óculos especiais para ser assistido). Conversamos com Selick em Los Angeles em três ocasiões. A primeira você deve ter assistido há alguns meses (aqui). As outras duas aconteceram no final de janeiro em Santa Monica, Califórnia. Leia agora como foi nossa mais recente entrevista com o talentoso animador e cineasta e aguarde nosso próximo vídeo exclusivo.

Henry Selick: Você outra vez? Essa é nossa terceira conversa.

Coraline

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Sim, três vezes já. É que você tem muito o que falar do filme! É um projeto de sonho, não?

Sim, é um filme que eu insisti muito pra realizar. É um sonho transformado em realidade graças ao apoio de Neil Gaiman, do estúdio e minha equipe de artistas, que foram fantásticos. Foi a produção na qual tive mais apoio desde O Estranho Mundo de Jack. Daquela vez tínhamos Tim Burton por trás. Desta vez temos a Paramount... foi um projeto que levou anos...

Três anos direto, correto?

Quase quatro anos, sem contar o tempo que levei para escrever os primeiros roteiros e meus primeiros encontros com Neil Gaiman. Aí já se foram oito anos.

E agora que o filme está pronto está sendo difícil abandoná-lo. É como um filho, imagino.

É como um filho, sim. E você tem medo de deixar seu filho sair de casa porque pode haver valentões lá fora que vão dar umas porradas nele. É difícil... Mas tudo bem. As pessoas esperam que eu esteja aliviado de me ver livre dele, mas não estou. Trabalhei ao lado de pessoas fantásticas, as melhores do ramo. É triste encerrar o projeto.

Por que fazê-lo em 3-D estereoscópico?

Eu havia adaptado O Estranho Mundo de Jack para o 3-D há alguns anos. O trabalho ficou muito bom. Mas este é o primeiro realmente filmado dessa maneira - o que me deu controle total sobre a profundidade e efeitos. É meio que uma moda agora usar essa técnica. A DreamWorks Animation está fazendo todos os seus filmes assim, a Pixar está relançando Toy Story 1 e 2 no formato. Mas pra mim a técnica do stop-motion pareceu simplesmente perfeita para esse projeto. Afinal é tudo real. Os personagens e cenários existem de verdade e o 3-D exalta isso.

Comente um pouco as mudanças do roteiro em relação ao livro, por favor. Por que mudar?

Há muitas mudanças. O objetivo desde o início foi passar com o filme a exata mesma sensação que o livro dá. Mas para tanto ampliamos alguns personagens, mudamos o diálogo - ainda que a premissa seja exatamente a mesma. Também mudamos a ambientação para os EUA, porque me senti mais confortável escrevendo os diálogos no inglês daqui. Nos extras do DVD teremos um documentário inteiro sobre essas mudanças, discutindo cada uma delas.

O Estranho Mundo de Jack tem uns momentos sinistros, mas com coração. É um filme amado por muita gente - que está esperando seu novo projeto. Você acha que Coraline é um filme pra esses fãs, que cresceram com Jack?

Cada trabalho que você realiza obviamente influencia o seu próximo. Eu gosto de pensar em Coraline como um "próximo passo", algo com o mesmo equilíbrio de humor, ação e horror leve. Espero, sim, que ele consiga estabelecer uma conexão com quem aprecia Jack.

Uma das minhas coisas preferidas em Coraline é como você guarda o 3-D para certas cenas de impacto. Foi difícil segurar sua equipe para que ela não exagerasse no uso dos efeitos?

Ah! Uma das coisas mais difícieis para um diretor de animação é segurar sua equipe. As pessoas tendem a pensar em cada cena como se ela fosse o filme todo. Diretor de fotografia, iluminador, animadores... todos querem que cada cena, por menor que seja, fique arrebatadora! Então, sim, é uma batalha constante. Inclusive ela me exigiu um roteiro só para o 3-D que explica exatamente onde e como o 3-D deveria ser usado. Porque se você usa demais ele perde todo o valor. É esse o perigo, as pessoas pensarem "estamos fazendo 3-D, vamos detonar". Se tudo é alto, nada é alto.

Por que stop-motion? Não é o tipo de filme que faz tanta bilheteria assim.

Há apenas um pequeno punhado de animações em stop-motion e nenhuma delas foi um sucesso tão grande feito um filme da Pixar. Mas eu acho que elas têm uma longa vida útil no merdado de home video. A stop-motion não tem aquele apelo de filme de fim de semana, em que as pessoas se esbarram pra ver logo na abertura, mas eles duram décadas...

A técnica stop-motion evoluiu de alguma maneira desde que você começou?

Muito pouco. Ainda é o mesmo princípio do fotografe, mova um pouco o boneco, fotografe de novo. Os bonecos e cenários estão mais elaborados e o uso de câmeras digitais permite que assistamos às tomadas conforme as estamos fazendo. Antes era filme, tinhamos que revelar pra ver como ficou. O trabalho ficou mais fluido, muito melhor.

Uma das cenas mais lindas do filme é o jardim fantástico e ela não está no livro. Como foi o processo de criação dela?

Eu senti que o roteiro precisava de alguma coisa específica, algo que Coraline quisesse fazer com seus pais - algo que ela nunca conseguia no mundo real, mas que estaria ao seu alcance no mundo dos Outros. No livro há uma frase "o tempo está perfeito para jardinagem" e eu gostei dela, então criei toda essa idéia a partir daí. Seus pais não são apenas escritores, mas escrevem sobre jardinagem - é o trabalho deles - mas eles nunca têm tempo para efetivamente ir lá fora. Dessa maneira, quando ela vai para o outro mundo ela encontra o jardim fantástico... Foi muito desafiador criar o visual do jardim também, o funcionamento das flores e plantas, o trator louva-a-deus... levou muito tempo, mas quando ficou pronta percebi que ela tinha exatamente o equilíbrio que eu precisava e resolvi então terminar o filme dentro da mesma idéia. É uma cena crucial, ela me deu motivação para os personagens, uma maneira mais dinâmica de realizar o confronto dela com o Outro Pai, um visual incrível e o final que eu queria. Uma coisa levou à outra.

Coraline conta a história de uma garotinha que vive com seus pais em um enorme e antigo casarão. Acostumada a explorar os vastos jardins e pátios, Coraline fica um dia trancada em casa por causa da chuva, aborrecida. Decide então contar as coisas azuis, as janelas e as portas - e atrás de uma delas acaba achando um universo alternativo, sombrio, estranho e aterrador, onde existem versões de seus pais com enormes botões no lugar dos olhos. O filme estreia no Brasil em 13 de fevereiro de 2009.

Tem muito mais no nosso ESPECIAL CORALINE