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Entrevista

Omelete entrevista: Flávia Moraes, diretora de <i>Acquária</i>

Omelete entrevista: Flávia Moraes, diretora de <i>Acquária</i>

Marcelo Forlani
19.12.2003
01h00
Atualizada em
06.11.2016
04h13
Atualizada em 06.11.2016 às 04h13

Acquaria
Brasil
, 2003
Ficção - 103 min.

Direção: Flavia Moraes
Roteiro: Flavia Moraes, Claudio Galperin

Elenco: Sandy, Junior, Emílio Orciollo Netto, Igor Rudolf, Milton Gonçalves, Júlia Lemmertz, Alexandre Borges, Serafim Gonzalez, Daniel Ribeiro


Antes de estrear como diretora de filmes, em Acquaria, Flávia Moraes já era bem conhecida por seus filmes publicitários. São mais de 2 mil comerciais, alguns deles premiados nos mais diferentes festivais do mundo, como Argentina, Japão, França, Inglaterra e Estados Unidos. Quando decidiu aceitar o trabalho de dirigir este projeto, ela sabia onde estava se metendo e o resultado final prova que Sandy e Junior não podiam ter feito uma melhor escolha. A direção de Flávia é segura e está arrancando elogios até mesmo daqueles que tinham preconceito contra a dupla de cantores/atores. Mas Acquaria já é passado. Ao lado do roteirista Claudio Galperin, ela já prepara seu próximo longa-metragem, cujo nome provisório é A verdadeira história do mundo segundo Martin. O filme conta a história de um menino curioso ao extremo, que quer saber como as coisas funcionam. Por seu caráter questionador Igor Rudolf inspirou a história e vai ser o protagonista. Confira agora a entrevista exclusiva que Flávia concedeu ao Omelete:

Antes de fazer este filme, você já havia dirigido Sandy e Junior em shows. Qual a diferença dos cantores para os atores?

A diferença é basicamente a formação e, obviamente, a experiência. No entanto, Sandy e Júnior são artistas talentosos desde crianças e sempre trabalharam com a emoção de forma disciplinada. Isso certamente facilitou muito o excelente trabalho de preparação feito pelo Sergio Pena, que também trabalhou com não atores em Carandiru.

Acquaria foi feito para os fãs cativos da dupla, ou você acha que os não-fãs podem vencer o preconceito e também se interessar pelo filme?

Ao realizar Acquaria tínhamos a responsabilidade de satisfazer os fãs que acompanham Sandy e Junior. Sabíamos, porém, que a dupla está vivendo um momento na carreira em que é importante a ampliação e renovação deste público. Queremos acreditar que um filme delicado e bem realizado pode, em muitos casos, quebrar não só a indiferença, mas também a resistência e o preconceito que existe em alguns segmentos em relação a esses artistas.

Você não tem medo do filme ser elaborado demais pro público da dupla, a ponto disso comprometer a bilheteria? Existem algumas situações avançadas de fantasia, como o conceito da casa quadrada, que a criançada e os pré-adolescentes podem não entender.

Poderíamos ter realizado algo muito mais simples e certamente menos arriscado, mas preferimos acreditar que um filme de vocação popular não precisa, necessariamente, ser primário. Pense bem, a dupla poderia ter simplesmente encomendado uma transposição do seriado de tv para o cinema... Teríamos outro programa de TV em tela grande, que seria um sucesso na certa e que demandaria um investimento muito menor. Mesmo assim, optaram por estrelar Acquaria, filme que, do nosso ponto de vista, é um passo importante para a produção cinematográfica brasileira. As pessoas podem até não entender alguns conceitos, mas isso não invalida a magia do filme. No caso da Casa de Závos, por exemplo, não há nada fundamental que precisa ser entendido e sim vivenciado.

Quanto do roteiro foi mudado ou sugerido por Sandy e Junior? Eles são do tipo que interferem no seu trabalho e opinam?

De certa forma, Acquaria foi um filme feito sob medida. Desde o início sabíamos que precisávamos cumprir com expectativas que eram muito diferentes e que existiam as seguintes premissas:
1. Sandy e Junior não queriam representar a si mesmos.
2. Sua música deveria ocupar um lugar importante no filme.
3. Era fundamental que o filme tratasse de alguma questão relevante, sobretudo ao público infanto-juvenil.
No entanto, é importante dizer que nosso trabalho não sofreu nenhuma grande interferência e que houve muito respeito e confiança ao longo de todo processo.



Como Sandy é um sex-symbol brasileiro, a cena do banho foi alardeada pela internet e revistas de fofoca assim que o boato surgiu. Podemos dizer que isso foi uma jogada de marketing para atrair a atenção da mídia? Afinal, ver a Sandy tomando banho é o sonho de 11 em cada 10 homens brasileiros.

O alarde da cena partiu da própria imprensa, aliás, alarde é o esporte nacional quando se trata da vida da Sandy . Nunca prometemos uma cena de nudez explícita. A cena do banho era importante para a história. Além de mostrar como os personagens do filme utilizam e reciclam água, é uma cena fundamental para a construção da relação entre Sarah e Gaspar.
Agora, se 11 em cada 10 homens querem ver a Sandy tomando banho, o filme já está em cartaz...

Tecnicamente, Acquaria pode ser considerado um dos mais avançados feitos no Brasil, principalmente se levarmos em consideração que é um filme de fantasia. Os efeitos especiais nem se comparam, por exemplo, a um filme da Xuxa. Onde está a diferença entre o que vocês fizeram neste filme e o que se faz em Hollywood? Afinal, o orçamento de vocês é considerado minúsculo para um filme americano. E em que ponto você acha que vocês começaram a superar as demais produções nacionais?

Costumo dizer que em Acquária existem dois tipos de efeitos, os que estão lá para serem apreciados e aqueles que foram concebidos para não serem sequer percebidos pelo público. Eles foram realizados com o objetivo de construir na imagem situações que jamais ocorreram. Por exemplo: a dupla jamais viajou ao Chile, onde filmamos as seqüências de deserto. Hoje, no Brasil, graças a empresas como Casablanca e TeleImage, temos tecnologia e mão-de-obra que nada deixam a desejar em relação a parâmetros internacionais. Os limites residem basicamente em prazo e verba, ou seja, estão muito mais relacionados a questões de mercado do que de capacitação técnica. Mas, só a título de ilustração, realizamos Acquária com os mesmos softwares que os outros filmes nacionais citados por você também utilizaram. É importante sublinhar que grande parte do sucesso dos efeitos especiais depende de um rigoroso estudo que tem início antes mesmo das filmagens. De nada adianta o melhor equipamento do mundo se a filmagem não tiver sido previamente concebida para dialogar com o que vai ser construído em computação gráfica depois.

Na entrevista coletiva você disse que algumas das principais influências foram quadrinhos de Moebius e Enki Bilal. Você é leitora de quadrinhos? Quais são seus personagens e histórias preferidas?

Comecei minha carreira como quadrinhista anos atrás na Folha da Manhã, em Porto Alegre. Adoro o gênero. Quando criança, herdei do meu pai coleções inteiras de Bolinha, Luluzinha, Fantasma, Tintin, Dick Tracy, Flash Gordon, Príncipe Valente, Asterix, Charlie Brown, Mafalda e muitos outros. Entre os autores vou citar o Will Eisner, o Quino, o Hergé e o Bilal, claro.

A cena da história da caixa mágica mostra um musical totalmente Bollywoodiano. Você é fã do gênero? Acha que um dia o Brasil pode ter a força que tem o cinema indiano?

Não tinha pensado nisso. De qualquer forma sim, o cinema de Bollywood me interessa por alguns dos seus temas e pelas características de produção. A Índia também é um país pobre, com uma cultura rica.

A piada da música dos Bales ("Blackbird") pode passar desapercebida por algumas pessoas que não estejam prestando atenção, ou não são fãs de Lennon e McCartney. Existem piadas internas no filme? Coisas que nós só vamos descobrir quando for lançado o DVD e estivermos vendo na faixa comentada?

Sem dúvida o filme tem várias situações cômicas sutis que passarão desapercebidas por alguns. De qualquer forma isso não prejudica a compreensão ou a apreciação da história. Funciona como um bônus para os mais atentos. Ao contrário do que todos esperavam, Acquaria é um filme para prestar atenção e não um filme de ação.

Qual o material que foi filmado pensando no DVD? Qual a importância que vocês deram para esta "continuação" do projeto Acquaria ?

Para o DVD guardamos duas seqüências inéditas. São cenas plasticamente bonitas, que aprofundam a relação dos personagens com a música. Além disso, teremos os extras que todos adoram neste tipo de produto.