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Entrevista

Omelete Entrevista: Dave Filoni, o diretor de Star Wars - The Clone Wars

Uma conversa exclusiva sobre desafios, personagens, temas de episódios e como é trabalhar com Lucas

Érico Borgo
13.08.2008
16h00
Atualizada em
09.11.2016
22h07
Atualizada em 09.11.2016 às 22h07

Antes de entrar no artigo, uma breve constatação pessoal. Enquanto estava transcrevendo minha gravação desta entrevista tive um insight... Percebi que serei pra sempre um escravo de George Lucas.

Apesar de ter me decepcionado com Star Wars - The Clone Wars, enquanto eu ouvia minhas próprias perguntas a Dave Filoni, diretor das novas animações por computação gráfica da saga, senti aumentar minha expectativa pela vindoura série de televisão. Entendi então que não importa o quanto George Lucas arruine a série com cenas bregas de amor, atuações ruins, andróides imbecis, batalhas sem relevância e gungans; eu sempre terei expectativa pelo próximo episódio da história.

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Dito isso, tive a impressão que Dave Filoni também pensa assim. Ele não gosta de usar personagens consagrados, está doido pra mostrar episódios centrados na trama e jura ser super-resistente a qualquer idéia mais esquisita do criador do universo Star Wars. Mas não tem jeito: Quando George "Palpatine" Lucas diz "pule", você mergulha de cabeça na Cova de Sarlack e não faz muitas perguntas. Pelo menos é bom saber que alguém ali ainda se preocupa com certos detalhes que o barbudo cineasta parece ter transcendido. Com vocês, com exclusividade ao Omelete, Dave Filoni:

George Lucas deu liberdade a você ou ficou olhando por cima do seu ombro o tempo todo?

Bom, depende do que estávamos fazendo. Ele é um cara ocupadíssimo, então nossas horas com ele eram agendadas com enorme antecedência. Eu sabia exatamente que dia ele vinha e que horas, então tinha que estar preparado. Mas, no geral, meu dia era mesmo filmar e dirigir sem grandes observações dele, até porque elas já haviam sido passadas nessas reuniões. No começo ele pretendia participar bem mais, mas com o tempo acho que começou a confiar em mim e tive mais liberdade.

Ele tem uma cronologia das Guerras Clônicas? Como vocês sabem o que está acontecendo e quando?

Não. Há um espaço enorme para a invenção nesse período e todas as nossas reuniões de história foram surpreendentes nesse sentido. Eu ficava sempre impressionado com o tipo de tramas que ele queria contar. As histórias dessa época não são apenas batalhas. Há muita intriga, algum romance, e eu não tinha a menor idéia de que isso iria acontecer. Quando entrei no projeto achei que eram só dróides de batalha sendo explodidos por todos os lados. Fiquei muito feliz que as coisas seguiram por esse caminho na série.

Mas e o filme?

O filme é basicamente composto de grandes seqüências de ação e conta uma história completa. É uma grande batalha nesse período chamado de As Guerras Clônicas. Faz sentido ser assim se pensarmos que tínhamos que começar a série mostrando que é um período de guerra.

Eu recentemente assisti ao filme e notei isso, que as batalhas, a ação, são muito mais presentes que a história. Isso foi intencional, já que vocês têm uma temporada inteira pra preencher?

Eh, eh, eh. Novamente, eu acho que isso depende. Sim, existe ação aos montes - mas, acredite, eu tirei boa parte dela da edição final. A ação é a parte mais divertida de fazer dos filmes de Star Wars, é tudo grande, explosivo e caro. Mas entender os personagens e suas interações é a parte mais difícil. Isso é algo a que estamos dando grande atenção o tempo todo na série.

Fizemos um episódio recente, por exemplo, no qual não houve um tiro ou explosão sequer. Então teremos episódios inteirinhos só centrados na história, e estamos contando vários tipos de histórias, como uma em que mostramos as maquinações do Senado, ou o episódio que será todo contado através do ponto-de-vista do General Grievous, algo que dificilmente vemos em Star Wars. Não estamos ficando restritos a um tipo de fórmula, nada disso. Haverá episódios inteiros focados em soldados-clone, que são ótimos. Diferente dos jedis, que são quase como super-heróis, esses caras vestem umas armaduras que não param coisa alguma, é fácil criar tensão ali porque você se preocupa com eles.

Quanto ao visual, como ele foi definido? Você olharam o que Genndy Tartakovsky fez e seguiram a partir dali?

Uma das idéias preliminares era justamente essa, transformar aqueles modelos em 3-D. Mas o visual deles era bem mais estilizado que o nosso, o que tornaria mais difícil a realização de alguns momentos mais dramáticos. Eu sei que existem muitos fãs que gostam daqueles curtas [leia artigos aqui e aqui], então não quis recomeçar do zero. Dá pra reconhecer na nossa versão alguns dos traços deles. Genndy e sua equipe são mestres naquele estilo e tentei casar isso com a versão live-action de Star Wars e levar a essa mistura um pouco da minha influência dos animês, algo que adquiri fazendo Avatar - The Last Airbender. Levou um tempo pra acertar, especialmente a luz. Os personagens foram criados tendo em mente o melhor uso possível de luz, sombras e sua utilização em fundos de alto constraste.

Houve uma preocupação especial com uma iluminação mais arrojada então?

Sim. Se você olhar o que gente como Frank Miller está conseguindo em termos de luz e sombra no cinema live-action, torna-se obrigação das animações apresentar algumas novidades também. Claro que não vamos levar isso ao extremo como ele levou, mas é bacana discutir possibilidades e lançar algumas coisas novas.

E como está sendo a migração da cinematografia tradicional para a animação por computação gráfica para o estúdio?

Para George não há muita diferença. Na trilogia mais nova ele já olhava todas as seqüências e as planejava em um ambiente 3-D, então pra ele dá na mesma - é só trocar as filmagens por uma renderização posterior. Pra mim, que venho de animações 2-D tradicionais, é bem estranho. Mas acredito que seja quase como dirigir um filme live-action. Logo pela manhã eu entrava no meu cenário virtual, dava uma olhada geral e saía fazendo minhas marcações: Quero que Anakin venha daqui pra cá, que Padmé pare aqui... É direção como seria na vida real, posicionamento de câmera, coberturas, etc. Esse foi o maior desafio pra mim, aprender a lidar com essa tecnologia toda. Foi difícil no começo, especialmente em termos de velocidade e qualidade, porque nossa diretriz não era fazer um programa de televisão, mas um filminho semanal.

Vocês têm um problema narrativo nas mãos com essa série e filme, afinal, todo mundo sabe que Anakin, Obi-Wan, Yoda... tantos desses personagens chegam inteiros ao final. Como tornar então o destino deles suficientemente dramático?

Esse é mesmo um problema. Mas depende muito da qualidade da história, de fazer com que o público acredite de verdade que eles estão em perigo. Mas não é um desafio novo à série. Nos prelúdios eles já tinham que lidar com a expectativa dos fãs, que esperavam o tempo todo Anakin tornar-se mau. Uma das maneiras que usamos para driblar isso foi a introdução de uma nova personagem, Asohka Tano, de quem sabemos coisa alguma. A jogamos no meio desses personagens consagrados, sendo que um deles, justamente o mestre dela, vai se transformar em Darth Vader. É uma relação complicada - ela é imatura, mas ele também é, já que pouco tempo antes teve seu momento de vingança em Tatooine com o Povo da Areia. Para esta versão de Anakin Skywalker exploramos bastante a relação entre Han Solo e Luke Skywalker nos primeiros filmes. Anakin é convencido e cheio de recursos feito Han, mas inocente como Luke. Como o filho, ele também foi tirado de Tatooine e lançado em algo muito maior que ele, esse conflito no qual ele pode ter habilidades físicas suficientes para se virar, mas certamente não tem a maturidade emocional necessária para entender.

Que tipo de entendimento maior do universo Star Wars teremos com o filme e a série?

O filme, por exemplo, começa dando um grande enfoque em como os jedis agem na liderança do exército de clones, como eles, com estratégia e astúcia, são capazes de vencer uma força dezenas de vezes maior que a deles. A relação mestre-aprendiz é também bastante explorada e terá foco em Clone Wars. É algo clássico da saga, com Obi-Wan e Luke, Yoda e Luke, Obi-Wan e Anakin... e agora Anakin e Asohka. A diferença é que Asohka é uma personagem que não víamos há algum tempo em Star Wars, ela é muito mais Princesa Léia, daquele jeito esperto e sagaz, uma garota que anda com os garotos, que Padme, que era mais educada e diplomática.

Quanto disso você pôde explorar no filme e quanto teve que guardar para o programa?

Ah, o filme é só uma introdução. Nele só mostramos como serão as interações entre os personagens. Há muita coisa que será desenvolvida apenas na série, como o principal problema de Anakin, que são as ligações emocionais.

Anakin é carente, ligado demais à mãe, ligado demais aos dróides, ligado demais a Obi-Wan, ligado demais à esposa... Mas o que isso realmente significa? É algo que estou muito interessado em descobrir. Como esses problemas psicológicos eventualmente vão derrubá-lo e transformá-lo em um flagelo da galáxia? A idéia é que o Conselho Jedi está ciente disso e tentando lidar de sua maneira com o problema, dando uma aprendiz a ele. Com uma padawan você precisa ter uma ligação, ajudá-la, treiná-la, mas toda a idéia do treinamento é transformar aquela pessoa em alguém auto-suficiente e deixá-la partir ao final. Então ao dar uma aprendiz a Anakin o Conselho espera que ele aprenda essas lições. Esse é um elemento-chave da trama.

Asohka, por sua vez, terá problemas mais comuns, relacionados à sua idade. Será que ela vai se apaixonar? Sei lá... Os jedis são extremamente bem treinados, mas pensar que um bando de jovens de 13, 14 anos, mesmo treinado, consegue suprimir todo seu despertar sexual é meio absurdo. Talvez tenhamos que lidar com isso, com os jedis como pessoas, sua fraquezas, etc.

Quem teve a idéia para aquela incrível seqüência da batalha vertical?

Essa é uma história curiosa, porque aquela batalha seria em uma planície normal em um planeta rochoso. Aí um dia George entra na sala e decide que ela deveria ser em um planeta florestal, o que é bem mais difícil em termos de computação gráfica, e resolveu situar o mosteiro no alto de um pilar de pedra. Aí um de nossos designers disse 'lá se vão os nossos tanques'. E eu retruquei: 'quem disse? Eles têm seis pernas, parecem besouros... vamos simplesmente fazê-los subir o pilar - por que não?'

No final foi um desses acidentes fortuitos que transformaram algo legal em algo muito mais legal. A cena acabou uma melhores do filme em termos de ação e exemplifica bem uma das nossas intenções com Clone Wars - pegar coisas que já deram certo no cinema e mostrá-las sobre um novo ângulo.

E como é ter ao alcance das mãos toda essa gama de personagens, poder brincar a vontade com eles?

É incrível. Estou muito empolgado com tudo isso. Mas ao mesmo tempo estou respeitando demais tudo o que já foi feito. Eu não gosto de mexer com personagens icônicos mas pouco definidos, não me sinto à vontade explorando demais eles, personagens tipo Grand Moff Tarkin. George é o único que deveria defini-los. Se ele quiser vê-los na série, tudo bem. Mas eu nunca parto do princípio de que poderia trazer qualquer um para a tela. Prefiro criar novos personagens, como Asohka. Me sinto muito mais confortável metendo a colher nesse universo através desses personagens.

Mas apesar disso você está explorando raças e conceitos, com o Clã dos Hutt, que ganhou até um bebê Hutt.

Sim, mas não foi fácil me convencerem que eu deveria ter aquele bebê no filme. De cara achei a idéia insana e não tinha noção de como realizá-la. Mas depois pensei bem e achei que deveríamos, sim, tê-lo. Afinal, ele sintetiza alguns elementos de Star Wars que os fãs renegam, ou não se lembram que gostavam, como os jawas ou os ewoks. É algo fofo, mas colocado de maneira bacana, como Lobo Solitário, um guerreiro protegendo um bebê. Como essa tivemos vários outras discussões acaloradas que acabaram forjando a série e o filme. E sabe como é, quando o mestre do universo chega pra você e diz "o sequestrado vai ser filho do Jabba", você tem que concordar. Tudo bem que aquilo nunca foi explorado antes, mas dá pra discutir como fazê-lo ter sentido, esse é o espírito de colaboração que cultivamos na produção. Só que até me convencerem leva um tempo.

Qual seu filme preferido da série?

Episódio IV - Uma Nova Esperança. E minha razão para isso é porque foi lá que tudo começou. Eu sei que todo mundo prefere O Império Contra-Ataca, que eu adoro, mas é impossível fazê-lo sem Uma Nova Esperança antes. E há algo no primeiro filme que dá a ele um tom mais documental, uns fragmentos de THX 1138 [primeiro filme de Lucas, de 1971] ainda no sistema de George aqui e ali. Eu adoro isso e sempre que posso estou colocando esse sentimento em Clone Wars. E a história é simplesmente incrível. É só lembrar de Luke voando e tentando acertar aquele exaustor da Estrela da Morte e a voz de Obi-Wan dizendo "use a Força, Luke". O cinema vinha abaixo...

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