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Entrevista

Omelete Entrevista Brad Bird, diretor de Ratatouille

Cineasta comenta nova animação, projetos da Pixar e mais

Steve Weintraub
05.07.2007
15h00
Atualizada em
11.11.2016
04h07
Atualizada em 11.11.2016 às 04h07

Os Incríveis, O Gigante de Ferro. Esses são os dois filmes pelos quais Brad Bird tornou-se famoso. Ele é um desses raros artistas que só aparecem em quantidade ínfima a cada geração, um sujeito capaz de contar histórias com naturalidade, fazer o público rir e chorar em espaço de segundos e sequer perceber as mudanças de humor que se aproximam. Parece exagero? Acredite, estou longe de fazer justiça ao talento dele.

E se os filmes citados são maravilhosos, Ratatouille provavelmente é o melhor trabalho do diretor até hoje. Equilibrado, sem dramalhões e não forçando as piadas.

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Brad Bird

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Brad Bird

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Conversamos com Bird em Los Angeles, no Four Seasons Hotel em Beverly Hills. Foi a primeira vez que eu o encontrei e, como um grande fã, estava empolgadíssimo pela conversa. E não sai decepcionado. A entrevista foi honestíssima - e ele explica por que a Pixar é a Pixar. Com vocês, Brad Bird.

Entrevista realizada em parceria com o Collider

Então, como é ter um novo sucesso numa carreira de sucessos?

Brad Bird: Não sei... já é um sucesso? Nem estreou direito...

É um sucesso

Bom, obrigado. Fico feliz que você gostou. Foi um enorme desafio fazer esse filme porque tive um cronograma muito apertado, mas estou muito satisfeito com o resultado.

Nós raramente fazer esse tipo de comentário em entrevistas, mas caramba... o filme é realmente muito bom.

Que ótimo! Sabe, essa foi uma temporada difícil pra gente, por que, com tantos filmes gigantes saindo, dos quais todo mundo já provou e sabe que gostou, a concorrência é pesada. O nosso filme, bem, ele é sobre um rato que quer cozinhar... então contamos com caras como você pra falar pra todo mundo que ele merece ser visto.

Fale um pouco sobre esses desafios que você comentou... foi difícil retratar Paris?

Nosso objetivo sempre foi dar a impressão da cidade, não montar uma cópia real dela. Quisemos dar a sensação de Paris. E a coisa com os computadores é que eles basicamente geram imagens limpas e perfeitas, que não têm história atrelada a elas. Se você quer fazer algo diferente você precisa lutar contra o computador. E ele não é muito a fim de fazer isso não... Paris é uma cidade riquíssima, cheia de história e viva. Tudo é maravilhoso, mas usado, com história e imperfeições. Parte do fascínio dela é que você pode encontrar história em cada lasca ou defeito. E nós quisemos que tudo isso pudesse ser sentido no filme. Então, se há uma rachadura, tivemos que desenhá-la - e se você notar, os ladrilhos no chão do restaurante não são perfeitamente assentados - cada um têm um ângulo ligeiramente diferente e capta a luz de maneira distinta. Então alguém teve que sentar lá e mexer cada azulejo cuidadosamente. Sem falar na comida. É um filme sobre comida e ela tinha que parecer deliciosa. E como definir o que transforma uma comida em deliciosa? Enfim, foi uma montanha de pequenas e complexas sutilezas em que trabalhamos muito duro.

O que atraiu você a um filme sobre ratos?

Eu não fui exatamente atraído. Eu sempre gostei da idéia de Jan Pinkava [animador de Vida de Inseto e Toy Story 2], na qual ele já trabalhava desde a época de Os Incríveis. A idéia foi dele e eu nem sonhava em dirigi-lo. Mas eles tiveram problemas com a história e um ano e meio atrás os fundadores da Pixar John Lassiter, Ed Catmull e Steve Jobs me pediram pra assumir o projeto, escrever um roteiro novo e cuidar para que ele chegasse à telona. Então minha motivação inicial foi mais por respeito a esses caras geniais que, por algum desígnio da natureza, acabaram juntos numa empresa genial que é um lugar fantástico, que eu quero ajudar com todas as minhas forças.

Mas logo caiu a ficha - Oh meu Deus! O que fui fazer? Assumi o projeto atrasado e prometendo o cronograma original! - ahhhhh! Fiquei apavorado. Era como dirigir na contramão, tentando criar um filme que fosse fiel à visão original de seu criador e ao mesmo tempo tentando dar sentido a tudo. Mas deu tudo certo. Terminamos há poucas semanas e ainda estou com taquicardia dessa minha direção perigosa. Mas fico muito, muito feliz em ver a reação de vocês. Eu nem entendi o filme ainda, foi tudo uma loucura, muito intuitivo.

É realmente uma direção bem diferente se comparado aos seus outros filmes.

Ele não teria acontecido se não fossem essas circunstâncias. Não é uma idéia que eu teria inventado. Mas é uma idéia que eu sempre gostei - e via nela uma série de ótimas possibilidades. No final, me apaixonei por esse mundo e esses personagens e estou muito satisfeito de tê-lo feito.

Quem foi para Paris e quanto tempo vocês ficaram por lá?

O grupo de sortudos era composto por vários dos caras que trabalharam originalmente na história. Jan foi pra lá com Sharon Callahan, o diretor de fotografia, e Harley Jessup, o diretor de arte, e vários outros. Eles foram e voltaram várias vezes. Eu fui só uma vez, logo no começo. Foi muito proveitoso. Uma noite eu estava andando pelas margens do Sena com o supervisor de roteiro, Mark Andrews, e pensamos como seria legal ter aquele lugar em alguma parte do filme - e acabou sendo um momento importante da história. Isso não teria acontecido se não fosse essa viagem, se eu não tivesse passeado por ali.

E vocês comeram bem por lá?

Comemos até bem demais por lá.

A vida é dura...

Sério. É difícil sim, pois sou ignorante nessas coisas. Sou dos Estados Unidos. Aqui você come um prato, talvez uma sobremesa depois, ou uma salada antes. Mas é só. Lá eles chegam com todos esses pratos, com tudo arrumadinho e pequenininho. Ahahahahaha. Aí você come um e vem o outro, bem parecido. E você segue comendo aquelas coisinhas. Tudo muito gostoso. Até que percebe que as coisinhas não vão parar tão cedo e você pensa, "cara, vou ter que pular um". Mas se faz isso vem alguém e pergunta "há algo errado?" E quando você acaba vem o carrinho de queijos com cinco tipos de queijo para serem degustados na ordem correta, e depois o de sobremesas e ahhhhh. Eu achei que fosse morrer. Então foi bom que fiquei pouco tempo.

Você não é um entusiasta da culinária então.

Bom, minha esposa é uma excelente cozinheira e eu tenho meus restaurantes favoritos, mas Patton [Oswalt, a voz do rato Remy] é o verdadeiro entusiasta da equipe. Eu não sabia disso quando estávamos montando o elenco, só descobrimos depois. Se ele vai até uma cidade ele vasculha ela inteira em busca da melhor experiência gastronômica possível.

O protagonista é um rato. Você tinha medo desses bichos antes do filme?

Eu não tinha medo, mas certamente não iria procurá-los por aí. Mas acabei gostando muito dos bichinhos de tanto brincar com os que tínhamos no estúdio. Eles eram fofinhos e adoro o jeito como é o nariz que os guia.

Você escondeu surpresas no filme, um Buzz Lightyear num canto ou coisa assim?

Escondi. Temos, por exemplo, o caminhão do Pizza Planet [veículo que aparece em todos os filmes da Pixar desde Toy Story] e alguns A1-13 [número da sala do curso de animação do California Institute of the Arts, usado por vários cineastas que passaram por lá], mas não vou contar mais nada. Procure!

Por falar em passado e referências, há alguma chance de você voltar ao universo de Os Incríveis, ou de deixar alguém visitá-lo?

Deixar alguém visitá-lo: não sem briga. É a minha família e eu ficaria bem triste se outra pessoa cuidasse deles. Eu amo esse universo e seus personagens. Se eu tiver uma idéia para uma história tão boa quanto a primeira, eu farei. Tenho só algumas inspirações no momento, nada concreto. E, você sabe, continuações não são exatamente parte do plano de negócios da Pixar. Só se alguém tiver uma idéia que deixe todos empolgados...

Tipo Toy Story 3?

Sim, essa é uma ótima idéia que não pára de crescer e estamos muito empolgados. Todo mundo está ansioso por Toy Story 3, mas não fazemos filme por dinheiro, sabe? Walt Disney disse certa vez "Eu não faço filmes por dinheiro, faço dinheiro para fazer filmes". Essa é exatamente a idéia na Pixar, mas não sou contra continuações. Alguns dos meus filmes favoritos são seqüências. 007 Contra Goldfinger, O Império Contra-Ataca, O Poderoso Chefão 2, Mad Max 2, Toy Story 2, por exemplo, são ótimas continuações, mas fogem da idéia de sempre, que é fazer dinheiro, não fazer algo que você realmente queira assistir no cinema.

Há planos para um Procurando Nemo 2?

Não. Acho que Andrew não quer contar outra história desse universo. Mas se outra pessoa surgir com uma ótima idéia... talvez. Mas, novamente, não pode ser por dinheiro. Você pode até chegar e falar "meu objetivo com esse filme é fazer dinheiro", mas que objetivo tedioso, não? Há maneiras muito melhores de investir dinheiro, na bolsa ou coisa parecida.

E seu próximo filme? Será mesmo live-action (com atores reais)?

Sim.

1906?

Sim, esse é o título. Mas não estou preparado pra falar dele ainda. Estou muito feliz de poder continuar na Pixar e dirigir esse filme ao mesmo tempo..

Você usará colaboradores da Pixar nele?

Sim, alguns amigos entrarão nessa comigo. Estou entusiasmadíssimo.

Gostaria de saber sua opinião sobre os próximos projetos da Pixar, Wall-E e Up.

Eu vi aquele teaser de Wall-E e achei incrível. Estou muito ansioso para vê-lo, não só pelo filme, mas porque é algo totalmente diferente de Ratatouille, que é muito diferente de Os Incríveis, e por aí vai... todos são filmes únicos. Talvez esses novos projetos sejam mais fáceis ou mais difíceis que os outros, mas todos têm o empenho da nossa equipe. E o meu também.