De Odisseia a Vingadores: a nova moda da internet é enxergar IA em tudo
Entre os efeitos de Vingadores, os vazamentos modificados e a repetição de fórmulas de Hollywood, a internet encontrou uma acusação pronta para substituir qualquer argumento
Na internet, tudo parece ter sido feito por IA. Quando entra no mundo do entretenimento então... Um roteiro comm vira “roteiro de IA”, um elenco grandioso, como o de A Odisseia, vira “elenco de IA”. Alguns segundos de efeitos visuais em acabamento ou simples CGI são suficientes para concluir que tudo foi gerado por isso. A expressão deixou de ser uma hipótese e virou um veredito sobre valor: parece IA, portanto é falso, preguiçoso, sem alma e não merece ser levado a sério.
Recentemente, não só A Odisseia sofreu com isso, como Vingadores: Doutor Destino, com o trailer, com a arte conceitual e com o cartaz oficial do filme - estes dois últimos feitos por Andy Park, longevo e consagrado líder de arte do Marvel Studios. Moana, o live-action da Disney, ficou no mesmo barco após imagens de trailer e The Rock como Maui. A verdade é que não importa muito o filme, a série ou o produto - se você quer invalidar algo, o argumento da moda é a inteligência artificial.
O problema todo do argumento (além de ser algo ridiculamente vazio) é que Hollywood nunca precisou disso para repetir fórmulas. O cinema sempre trabalhou com arquétipos, estruturas narrativas, padrões visuais, estrelas recorrentes e histórias que se reorganizam ao redor de conflitos (muito) conhecidos. Isso tem o famigerado e tradicional cunho comercial do cinema estadunidense, e denota um crescente medo do risco, além do desgaste criativo ou simplesmente os hábitos de uma audiência treinada para consumir aquilo que reconhece. Ela não revela, por si só, a presença de IA. Hoje, o que chamamos de “estética de inteligência artificial” é apenas a estética do nosso próprio consumo, e preguiça natural que as redes sociais emplacaram em todos nós.
É verdade que a tecnologia tornou essa fronteira mais confusa. Vazamentos são transformados em trailers falsos que incorporam imagens reais, vozes sintéticas e cenas inventadas. Já não sabemos com facilidade onde termina o material original, onde começa a intervenção e em que momento a especulação vira informação. O lance é que essa incerteza deveria produzir mais cautela, não mais arrogância ou busca por atenção. Quando tudo pode ser IA, chamar tudo de IA deixa de ser discernimento e passa a ser apenas algo... artificial, sem sentido, mais um no meio da manada.
Repetir “parece IA” até a exaustão acaba reproduzindo exatamente o que a crítica afirma combater: uma fórmula sem personalidade. É mais fácil acusar a máquina do que explicar por que um roteiro falha, por que uma escalação parece artificial ou por que uma imagem não convence. Na economia da atenção, invalidar gera mais capital social do que compreender. Primeiro odeie, depois converse. E melhor ainda: não assuma erro, apague ou só siga a vida, pois aqui vale tudo. A acusação muitas vezes importa menos pelo que esclarece e mais pela oportunidade de quem a faz parecer mais atento, autêntico ou mais inteligente do que os demais. Isso fala muito menos sobre a tecnologia do que sobre a nossa carência de reconhecimento e validação pública.
Hollywood, é verdade, também alimenta esse cenário. Não é como se o cinema ali ajudasse no debate também. A indústria sempre se repetiu, mas hoje essa receita parece carregar uma ansiedade maior e mais frequente. Franquias, continuações tardias, participações especiais e nostalgia funcionam como salva vidas para um setor que ainda tenta definir sua identidade em um mundo que questiona a experiência coletiva do cinema. Um (possível) paradoxo é que isso acontece justamente quando as salas voltam a demonstrar força. A projeção mais recente aponta para uma bilheteria mundial de US$ 34,7 bilhões em 2026, o melhor resultado anual desde 2019, embora ainda abaixo dos níveis anteriores à pandemia - mas com crescente presença de um público da geração Z.
Fato é que hoje IA pode ser ferramenta, moda, ruído e, em alguns (muitos) casos, um atalho para suprir a demanda de rapidez e ânsia de consumo ágil de todo e qualquer público. Ela pode ser tudo isso, mas não é um argumento. Dizer “parece IA” é apenas a forma mais recente de não dizer nada.
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