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Obscurinho do cinema

Obscurinho do cinema

André Conti
24.01.2005
01h00
Atualizada em
02.11.2016
08h05
Atualizada em 02.11.2016 às 08h05

Samurais e bandoleiros

Os filmes de samurai estão para o Japão assim como os faroestes estão para os EUA. Ambos os gêneros são fenômenos culturais que existem quase há tanto tempo quanto o cinema destes países. É o caso do Grande roubo de trem, clássico de 1903 e mito fundador do bangue-bangue. O mesmo acontece com Chushingura (1910), primeiro longa-metragem da história do Japão. Uma explicação razoável para este fenômeno pode ser o fato de que tanto a corrida para o oeste retratada nas fitas americanas como o feudalismo japonês acabaram não mais do que cinqüenta anos antes do surgimento do cinema. No Japão, deve-se levar em conta também a importância do teatro Kabuki, cujas histórias de intrigas entre senhores de terra e samurais influenciaram muito os primeiros diretores do país.

Nesse caso, há uma aproximação temática entre os dois gêneros. Bons filmes de bangue-bangue geralmente tratam, ou têm como pano de fundo, o capitalismo e a chegada do desenvolvimentismo no oeste dos EUA. Os de samurai costumam envolver disputas de terra e de títulos, bem como guerras comerciais de todo o tipo.

No quesito estético, as trocas de influência são ainda mais gritantes. Para começar que, sem Os sete samurais, de Akira Kurosawa, não há cinema de ação e, portanto, nunca haveria faroestes. Kurosawa fez também Yojimbo, que Sergio Leone plagiou no seu primeiro bangue-bangue, Por um punhado de dólares. Resumir a importância da trilogia do Homem-sem-nome de Leone ficará difícil até na futura coluna sobre ela. Vale dizer por enquanto que os melhores filmes japoneses de samurai são dirigidos por japoneses. Já os melhores westerns são de um italiano.

Hoje em dia, os faroestes estão meio fora de moda. Kevin Costner tentou com Pacto de justiça, mas não conseguiu. Na TV por assinatura, há um seriado chamado Deadwood, que é bem lamentável. A última grande fita do gênero ainda é Os imperdoáveis, uma espécie de final simbólico para o personagem de Clint Eastwood nos filmes de Leone. Já os espadachins sofreram uma retomada no Japão e nos EUA. Takeshi Kitano, por exemplo, resgatou uma séria clássica com Zatoichi, e Tom Cruise se fantasiou de samurai em outro de seus deploráveis filmes. Mas estas coisas são cíclicas, e hora ou outra alguém há de fazer um bom faroeste. Quentin Tarantino, que bebeu nas duas fontes para o seu Kill Bill, já declarou no passado a intenção de dirigir um.

Lobo solitário

Isso tudo para chegar ao assunto principal: os filmes baseados no gibi Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Quem acompanha as revistas, que finalmente devem ser publicadas na íntegra e sem cortes no Brasil, pode ir atrás das inúmeras versões em DVD dos seis filmes produzidos na década de 1970, no Japão. Nenhuma delas, é claro, existe aqui, mas é possível encontrar algumas bem baratas em leilões online ou lojas especializadas. Vale lembrar que estes filmes foram amplamente censurados, e apenas alguns países lançaram as versões originais. No Brasil, quem tiver sorte e uma boa locadora por perto pode se contentar com o primeiro longa, que chegou a ser lançado em fita, com o nome de A saga do renegado.

Na revista, um dos grandes baratos é justamente o andamento cinematográfico que Goseki Kojima aplica nas imagens. Todos os elementos que Kurosawa condensou em Os sete samurais para criar a ação do filme - câmera-lenta, zoom, cortes rebuscados - são transpostos com muito êxito para o papel. Nas fitas, há também uma notável influência de Sergio Leone e Sam Peckinpah nos freqüentes duelos e massacres, só que com muito mais sangue. Até porque, ser fiel ao roteiro das revistas implica em realizar um filme tão absurdamente violento, que muitas vezes chega a beirar o cômico. Mesmo tratando o material com seriedade, é impossível manter o tom do gibi e, vez ou outra, o realismo descamba para o ridículo. Ainda assim, a saga é boa e faz jus a uma das HQs mais importantes de todos os tempos.

Os trejeitos de cinema B têm uma justificativa. Basta levar em conta que os seis filmes que compõem a série foram realizados em apenas três anos, a toque de caixa. Isso significa resumir mais de oito mil páginas e cento e quarenta capítulos, dando coerência a eventos que são desenvolvidos vagarosamente nas revistas. Mas o grosso da história do samurai Itto Ogami está lá. Supremo executor do Xogum, Itto é traído e falsamente acusado pelo clã Yagyu, que também assassina sua mulher. Ao invés de aceitar a pena imposta e se suicidar, ele foge com o filho Daigoro e se torna um matador de aluguel. Ao mesmo tempo, busca se vingar dos Yagyu e de seu líder, Retsudo, que secretamente governa boa parte do Japão.

O melhor episódio da série é o quinto, Lone Wolf and Cub: Baby Cart in Land of Demons, de 1973. Nele, Itto é obrigado é enfrentar cinco testes, para provar aos seus empregadores que está apto a realizar a missão para a qual foi contratado. Cada desafio que ele enfrenta dá um quinto da pista que ele precisa para exercer sua função. Land of Demons é o que mais se parece com a revista, além de contar com quebra-paus espetaculares.

Apesar de ser um pouco pançudo, Tomisaburo Wakayama lembra um pouco Charles Bronson, o que cai como uma luva para o papel. Ele viveu o samurai nos seis filmes, com enorme competência em todos os episódios. O mesmo não se pode dizer do ator que faz Retsudo. Como o velho Yagyu luta - e muito! - na série, os produtores foram obrigados a colocar no papel um sujeito mais novo, disfarçado em uma barba branca de algodão. O resultado não é dos melhores.

Ao fim das fitas, são quase nove horas de filme e algumas dezenas de cabeças cortadas. Para não estragar a história do gibi, evite assistir a todos de uma vez, e só veja o último capítulo depois de ler os 28 volumes da revista. Apesar de ser diferente, o desfecho no mangá é tão sensacional que merece uma leitura sem nenhuma dica do que vai acontecer.

Quem sabe, se as revistas fizerem sucesso por aqui, alguém se anima a lançar também os filmes em DVDs nacionais. Poderiam também resgatar o programa de televisão do Lobo Solitário, que teve três temporadas no Japão. De acordo com os Cozinheiros mais velhos, ele foi exibido aqui com o nome de O samurai fugitivo, quando o SBT ainda se chamava TVS. Assim como os filmes e os mangás, era violento e tinha cenas de nudez. É possível encontrar alguns episódios à venda, em VHS e sem legendas.

Há rumores de que Darren Aronofsky pretende filmar sua versão de O Lobo Solitário em 2005. Talvez fosse o caso de deixar a direção nas mãos de um japonês. Ou, pelo menos, de um italiano.

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