Filmes

Entrevista

“O Touro Ferdinando foi meu filme mais difícil, mas é um dos mais emocionantes”, diz Carlos Saldanha

Cineasta carioca lança sua nova animação no Brasil apreensivo com os rumos da Blue Sky pós venda para a Disney

Rodrigo Fonseca
09.01.2018
19h21
Atualizada em
11.01.2018
05h06
Atualizada em 11.01.2018 às 05h06

Com uma bilheteria estimada em US$ 185 milhões pelo mundo afora, O Touro Ferdinando estreia nesta quinta-feira no Brasil, cercado de apostas em torno de seu potencial futuro na disputa pelo Oscar de Melhor Filme de Animação, e colecionando críticas positivas acerca da coragem de seu realizador, o carioca Carlos Saldanha, por sua adesão a uma trama pacifista.

Divulgação/Fox/Touro Ferdinando

Dublado nos EUA por John Cena e no Brasil por Duda Ribeiro, seu protagonista – um jovem bovino que prefere cheirar flores a disputar touradas - é alvo de polêmicas desde 1936, quando fez sua estreia no universo infantojuvenil, nas páginas do livro The Story of Ferdinand, de Munro Leaf (texto) e Robert Lawson (ilustração). O personagem gerou controvérsia àquela época por trazer um herói da não agressão, que faz da paz sua bandeira e carrega, no modo de ser, a certeza do que é – algo incompatível com o conservadorismo de ontem e mais ainda com o de hoje da Era Trump. Mas o projeto começou bem antes do atual presidente americano tomar posse na Casa Branca. É o que Saldanha, recém-chegado da cerimônia do Globo de Ouro (onde concorreu nas categorias Melhor Longa Animado e Melhor Canção) explica nesta entrevista por telefone ao Omelete, na qual fala sobre seus projetos para o amanhã.

Omelete: Quanto tempo você dedicou à aventura de adaptar o livro de Munro Leaf e Robert Lawson e quantos técnicos e animadores embarcaram nessa com você?

Carlos Saldanha: Outro dia, eu estava olhando os primeiros storyboards desse filme e vi que eles eram datados de 2010. Eu ainda estava terminando o primeiro Rio. Foram sete anos de trabalho, sendo os três primeiros dedicados ao roteiro e aos storyboards. Foi um dos processos mais longos, com uma equipe de cerca de 300, 350 profissionais, mesmo número de meus outros projetos. O Touro Ferdinando foi meu filme mais difícil, mas é um dos mais emocionantes.

Omelete: Onde estava a maior dificuldade, na técnica ou na dramaturgia?

Carlos Saldanha: Na dramaturgia em si. Imagina uma coisa: quando eu fui vender Rio pros executivos da Fox, bastava dizer que era uma história com passarinhos coloridos que cantavam samba nas paisagens do Rio de Janeiro. Todo mundo saía empolgado com um enredo assim. Agora, imagina fazer um pitching de projeto sobre um touro que não quer lutar. Que filme você vai tirar daí? Ninguém sabia o que esse filme seria até que finalizamos a montagem e tiramos dali algo com equilíbrio entre diversão e emoção. Falando sobre dificuldades: a tecnologia nunca é desafio. Tecnologia é algo do qual você corre atrás facilmente e se vira para aprender a dominar. Já o roteiro... se um roteiro não fecha, não tem filme.

Omelete: E qual foi o desafio de retratar um herói pacifista nesta era conservadora em que vivemos, seja pela política de Trump nos aí, seja pelo richa política no Brasil? Qual é a dimensão política ética de O Touro Ferdinando?

Carlos Saldanha: Há sete anos, quando esse projeto começou, Obama ainda estava no Poder. O mundo não estava ainda nessa onda conservadora e parecia mais tolerante com as ditas minorias. Havia uma perspectiva de futuro promissor. Daí, mudou tudo. Houve um retrocesso na tolerância. Isso já havia acontecido no fim dos anos 1930, quando o livro Ferdinand foi banido onde havia núcleos totalitaristas mais fortes. E esse sentimento de intolerância está voltando, mas não é só com Trump. Esse filme começou a ser feito antes dele. Mas calhou de estrear num momento conturbado. Chegou num momento adequado, eu acho. Mas a temática dele, de aceitação, seria importante mesmo se não houvesse nada disso.

Omelete: Seu nome é uma grife de sucesso no mercado de animação, mas ele se mistura numa relação complementar ao nome Blue Sky. Como está sua relação com o estúdio pelo qual você ganhou fama?

Carlos Saldanha: Trabalho na Blue Sky há quase 25 anos. É a minha casa. Em animação, trabalha-se arduamente, mas com prazer: lá temos um clima de amor, de integração. Mas a gente está apreensivo pois estamos diante de uma mudança: a Disney acaba de comprar a Fox. E estamos no meio dessa... O que será da Blue Sky? Nós somos um estúdio independente, mesmo fazendo filmes com orçamentos grandes. Não seguimos regras, normas. Somos pautados pelas histórias que desejamos contar e já temos dois novos projetos em andamento: Nimona e Spies in Disguise. Essa mudança nos deixa animados, mas apreensivos, para saber se continuamos a ser Blue Sky ou não. Afinal, tudo o que não é definido, gera especulações.

Omelete: O que você já tem definido para você?

Carlos Saldanha: Estou querendo apostar no live action, fazendo um filme com atores, mas algo menor, mais independente. Quis tentar algo assim no Rio, Eu Te Amo (no qual dirigiu o segmento Pás de Deux, com Bruna Linzmeyer e Rodrigo Santoro), para saber se eu curtiria trabalhar numa história de live action, e curti. Agora que termino o lançamento de O Touro Ferdinando, sairei de férias e, na volta, vou escolher um projeto live action que, não necessariamente, será infantil. Quero fazer isso antes de embarcar numa próxima animação, pois um projeto animado me consome uns quatro anos de trabalho.

Omelete: Falando ainda de animação, como é a sua participação na dublagem dos filmes? Como avalia o trabalho de Duda Ribeiro, que dubla Ferdinando?

Carlos Saldanha: Duda está incrível. Ele é incrível. Eu quase não me meto na faixa dublada dos meus filmes porque o trabalho costuma ser muito bem feito. Recebi aqui uma lista com um casting de vozes, mas deixei o trabalho a critério da Fox e do diretor de dublagem. Um filme bem dublado vira quase um filme nacional.

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