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O Som no Cinema: Criando Emoções com Efeitos Sonoros

Ao aproximar falsamente os filmes da realidade, o som dá ao cinema parte da sua dramaticidade

Carina Toledo
22.11.2010
00h00
Atualizada em
21.09.2014
14h11
Atualizada em 21.09.2014 às 14h11

Em nosso quarto artigo da série O Som no Cinema, deixamos um pouco de lado o aspecto tecnológico para falar da emoção. Como efeitos sonoros podem dar dramaticidade a uma cena?

Assistir a um filme sem efeitos sonoros seria abrir mão de uma parte essencial da experiência cinematográfica. Não apenas por uma questão tecnológica - já na era do cinema mudo usava-se som ao vivo ou músicos ao vivo para auxiliar a história -, mas também pela dramaticidade. Por exemplo, se acompanhada do barulho certo, a imagem de uma porta se fechando pode indicar o estado emocional da pessoa que a fechou.

2001

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Apocalypse Now

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Poderoso Chefão

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Star Wars

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Existe uma relação direta entre as técnicas e tecnologias disponíveis para representar o mundo no cinema e a visão que um cineasta buscará retratar com essas técnicas. Durante o processo de desenvolvimento de um filme, diretores e seus sonoplastas escolhem como usar o som criativamente para melhor contar suas histórias e amplificar a experiência proporcionada pelas imagens na tela.

Durante o processo de desenvolvimento de Star Wars, o designer de som Ben Burtt optou por uma abordagem dramática e emocional de efeitos sonoros, ao invés do realismo. Por ter estudado Física na faculdade, Burtt preocupou-se em discutir com George Lucas se o espaço de Star Wars seria representado de forma literal, como em 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968). Uma vez que o som é composto de ondas e estas precisam de um meio - o ar - para se propagar, no espaço não há som, conceito científico ao qual o filme de Stanley Kubrick mantém-se fiel. Este não é o caso de Star Wars, que viola as leis da física ao mostrar o espaço com sons de explosões e motores de naves, entre outros.

"Eu sempre considero o aspecto literal porque, no fim das contas, você está tentando convencer a plateia de uma certa verdade. Você está tentando convencê-los de que o som desse objeto, veículo ou arma é real dentro do filme. (...) Mas concordamos em fazer o que seria melhor emocionalmente. Lucas vendeu a ideia dizendo que a trilha sonora não tem explicação plausível, portanto o som no espaço também não precisaria... e decidimos que colocaríamos os sons que precisássemos em nome do impacto dramático. Então deixamos de lado as ideias da Física e decidimos usar som no espaço, que foi muito mais divertido", declarou Burtt ao FilmSound.

No aspecto prático, criar efeitos sonoros consiste em dissociar um som de seu emissor, que vemos na imagem, para reassociar este emissor a outros sons, mais marcantes. Isso acontece por uma variedade de motivos, como conveniência (o som de pisadas em galhos de milho ficam melhor, sonoramente, do que o barulho de passos reais na neve); necessidade (muitas vezes, por motivos de segurança, usa-se vidro falso e outros objetos cenográficos que não fazem o mesmo som que um objeto real); até motivos éticos, já que esmagar uma melancia é muito mais aceitável de que quebrar de verdade a cabeça de uma pessoa. Assim, apesar de empregados com a intenção de aproximar um filme da realidade, os efeitos sonoros são mais um dos artifícios de que o cinema dispõe para iludir.

O designer de som Walter Murch, colaborador frequente de Francis Ford Coppola e premiado com Oscars por Apocalipse Now (1979) e O Paciente Inglês (1996), acredita que os efeitos sonoros devam construir uma tensão entre o que está na tela do cinema e o que é insinuado na imaginação do espectador. "O perigo do cinema atual é que ele pode sufocar sua plateia pela própria capacidade de representar o mundo real, pois não possui as válvulas de ambiguidade que a pintura, literatura, rádio e o cinema mudo possuem automaticamente por serem incompletos. Isso engaja a imaginação do espectador para compensar o que é insinuado pelo artista. A responsabilidade dos cineastas é encontrar meios, dentro dessas ferramentas completas, de não atingir a completude", defende Murch em seu artigo do livro Projections 4: Film-makers on Film-making.

Murch usa como exemplo a sequência de abertura de Apocalipse Now, em que o quarto de hotel do capitão Willard se enche de sons das florestas do Vietnã, que não estão em nenhum lugar próximo ao quarto real. Essa disparidade entre som e imagem é solucionada quando, com o auxílio de nossa imaginação, compreendemos que aqueles sons da floresta estão na mente de Willard. Assim, com espaço para completar as peças de um filme, o espectador será recompensado com uma experiência mais rica.

No entanto, apesar da grande importância da relação entre som e imagem em movimento, talvez um dos maiores méritos de um profissional do som é entender também quando silenciar - escolha que Murch aplica no final do terceiro filme da série O Poderoso Chefão, criando tensão no momento de dor do protagonista ao separar a imagem daquilo que esperávamos ouvir. A tensão da dor só é aliviada quando o silêncio - e a trilogia - chegam ao fim.

A série de artigos O Som no Cinema teve patrocínio da Philips,
em parceria com o Omelete.

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