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O Nevoeiro

Mercadinho vira representação da sociedade em nova adaptação de horror de Stephen King

Érico Borgo
28.08.2008, às 16:00
Atualizada em 02.11.2016, às 19:04
Atualizada em 02.11.2016, às 19:04

Os bons filmes de gênero usam a ficção científica e o terror como exames do comportamento humano em momentos de pânico. Alguns vão além, cavando mais profundamente. Com isso em mente, este diálogo de O Nevoeiro (The Mist) diz tudo o que você precisa saber sobre o filme:

"As pessoas são boas, decentes. Meu Deus, somos uma sociedade civilizada", diz a mocinha.

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"Claro. Contanto que as máquinas funcionem e o 190 atenda. Tire isso, deixe todo mundo no escuro e assustado e as regras se vão. As pessoas vão recorrer a quem quer que ofereça uma solução. Somos fundalmentamente insanos como espécie. Coloque gente suficiente num quarto e é só uma questão de tempo até cada metade começar a imaginar maneiras de matar a outra", respondem os pessimistas (ou seriam realistas?) mocinhos.

Munido desse roteiro ácido e politizado, de sua autoria, Frank Darabont adapta com enorme sucesso o conto do livro Tripulação de esqueletos, de Stephen King. O cineasta, vale lembrar, já adaptou obras do escritor em duas oportunidades: Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre.

Na história, depois de uma tempestade, uma estranha e densa névoa começa a cobrir toda uma região. O fenômeno acaba mantendo isolado um grupo de pessoas que fazia faz compras em um supermercado. Não tarda para que elas descubram que estão presas no estabelecimento, já que misteriosas criaturas ocultas no nevoeiro matam qualquer um que tente sair.

Com uma câmera nervosa, que insere o espectador entre os sobreviventes do mercadinho, Darabont dosa com mão de mestre o suspense e o drama. A ação e o horror existem, mas é o desespero da expectativa que torna O Nevoeiro um excelente filme. Analise a cena da corda, por exemplo. É tudo pura sugestão - o destino do motoqueiro é contado pela tensão no cordão que o grupo tenta puxar de volta.

Pessoas, aliás, que são interpretadas por um elenco formado por Thomas Jane (O Apanhador de Sonhos), surpreendentemente bom; Toby Jones (Infamous), Andre Braugher (Poseidon), Laurie Holden (Terror em Silent Hill) e a excelente Marcia Gay Harden (Sobre Meninos e Lobos), que rouba suas cenas; entre outros. As escolhas são tão boas que as discussões filosóficas entre um monstro de pesadelo e outro nem parecem forçadas.

O Nevoeiro é também um revival de um tipo de cinema apocalíptico cuja melhor forma deu-se na Guerra Fria. Talvez funcione tão bem pelo pós-11 de Setembro, que ainda assombra coletivamente o mundo.

O filme tem lá seus erros, como uma dispensável cena de romance entre um militar e a caixa do mercado, ou a ilógica recusa das pessoas que irem ver com seus próprios olhos o pedaço cortado de um dos monstros no depósito. Nada que prejudique o resultado. E o final é tão poderoso e corajoso que parece impossível que Darabont tenha conseguido lançar o filme como ele o imaginou. É algo que simplesmente não se vê em Hollywood. Nunca.

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