Fantasma Kayako em Ju-On: O Grito, de Takeshi Shimizu

Créditos da imagem: Ju-On: O Grito/Divulgação

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O Grito | Como Takashi Shimizu reinventou a franquia ao longo das décadas

Criador esteve diretamente envolvido em boa parte dos projetos - até mesmo nos remakes norte-americanos

Arthur Eloi
17.09.2019
18h40

Enquanto o terror norte-americano passava por maus bocados na virada do milênio, o cinema de gênero japonês triunfava com um horror recheado de comentário social, tradições culturais e, claro, bastante sangue. Entre Ringu: O Chamado (1998), Audition (1999), Batalha Real (2000), Kairo (2001), entre muitos outros, o mundo passou a apreciar a criatividade e brutalidade que faziam falta nas produções de grande porte dos Estados Unidos. O movimento de horror nipônico foi perdendo sua força internacional com o passar dos anos, mas algumas franquias souberam se reinventar para ganhar um fôlego a mais, mas nenhuma acertou tão bem quanto O Grito.

A longevidade da série está diretamente relacionada à insistência de seu criador, Takashi Shimizu, e também à utilização do folclore japonês, especialmente dos onryõ, espíritos vingativos que, após uma morte violenta, amaldiçoam os lugares onde foram assassinados. Mesmo em filmes televisivos de 1998, Shimizu já explorava ideias, personagens e principalmente assombrações que definiriam a saga no futuro.

Terror doméstico

A popularidade do VHS é importante para entender o crescimento do terror no mundo todo, e isso se repete no Japão, já que o país costuma ter uma visão bem mais positiva de obras lançadas diretamente para home video - chamados de V-Cinema por lá. Assim grandes cineastas nipônicos frequentemente optavam por lançar criar obras do tipo, desenvolvendo sua técnica com baixos orçamentos e um público muito mais receptivo.

O Grito começou assim. Em 2000, Shimizu expandiu as ideias de seus telefilmes com Ju-On: The Curse, mostrando um grupo de pessoas ligadas à uma casa onde brutais assassinatos ocorreram, com o local sendo tomado por fantasmas e também pela presença da morte. O filme foi um sucesso tão grande que não só rendeu uma continuação em V-Cinema no mesmo ano, como também preparou o terreno para algo maior. O cineasta colocou seu conhecimento a prova em 2002 e 2003, quando chegou aos cinemas com Ju-On: O Grito e a sequência Ju-On 2.

Mesmo com um orçamento maior, Shimizu mantém seu estilo de histórias não-lineares, atmosfera opressiva e criaturas invasivas. Eventualmente isso chamou a atenção dos Estados Unidos, onde teve lançamentos limitados mas com boa recepção e retorno financeiro. Como esperado, era só questão de tempo até o inevitável remake americano.

Repaginada internacional

A loucura dos remakes já era amplamente praticada no terror dos anos 2000. Depois da reimaginação de O Chamado (2002) fazer sucesso nos EUA, foi a vez de O Grito ser importado para o país, mas com um grande diferencial. Ao invés do estúdio Columbia Pictures escolher um diretor americano, foi o próprio Shimizu que assumiu o posto. A versão de 2004, estrelada por Sarah Michelle Gellar (Buffy, a Caçadora de Vampiros), consagrou que o cineasta estava confortável assumindo tanto projetos de baixo orçamento, quanto grandes produções, rendendo bilheteria mundial de US$ 187 milhões e gerando duas continuações.

Após isso, o diretor se afastou um pouco da sua franquia, que continuou no Japão com uma grande variedade de projetos, incluindo um filme com a fantasma Kayako enfrentando Sadako, de O Chamado. Agora, O Grito ensaia um retorno norte-americano para 2020 - mas sem o envolvimento de seu criador. Felizmente quem cuida do projeto é Sam Raimi e Robert Tapert, dupla responsável por Evil Dead e, recentemente, produzir uma leva de projetos de terror, como O Homem nas Trevas (2016)e Predadores Assassinos (2019).

Shimizu, por sua vez, continuou se dedicando ao gênero de terror e passou a desenvolver sua técnica através de filmes e até jogos, indo desde comandar longas como Innocent Curse (2017) até produzir animações 3D como Resident Evil: A Vingança (2017). Atualmente o diretor trabalha em um novo horror japonês com Howling Village (2020), que acompanhará uma psiquiatra capaz de se comunicar com os mortos de uma vila amaldiçoada. O projeto ainda não teve muitos detalhes divulgados até o momento mas, em dezembro, Takashi Shimizu virá ao Brasil para a CCXP19, onde deve falar mais sobre seus trabalhos futuros e também sobre sua longa carreira e experiência com O Grito e terror nipônico.