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O Dia Em Que a Terra Parou

Remake do clássico da década de 1950

Érico Borgo
08.01.2009
15h00
Atualizada em
21.09.2014
13h43
Atualizada em 21.09.2014 às 13h43

Em 2005, durante uma coletiva de imprensa com Keanu Reeves no México, presenciamos um jornalista local perguntando ao astro "como você se sente sendo o ator mais inexpressivo de Hollywood?". Elegante, Reeves respondeu "desculpe, mas como não partilho dessa sua impressão, então não posso dizer como me sinto". Desnecessárias grosserias jornalísticas à parte, o mexicano até que tocou em um ponto interessante. Reeves realmente não explora grandes variações emocionais em suas atuações. Mas ao menos escolhe papéis perfeitos para essas limitações. 

O alienígena Klaatu, que ele vive em O Dia Em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, 2008), é exemplo incontestável disso. Quase um vulcano de Jornada nas Estrelas, o personagem não exige qualquer demonstração de emoção além de uma distância lógica da humanidade. Ele, afinal, é um extraterrestre tentando habituar-se a um corpo terráqueo - e a expressão de sentimentos é algo improvável em sua breve permanência na Terra.  

O Dia em Que a Terra Parou

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Klaatu está aqui para dar aos humanos um ultimato: ou aprendemos a respeitar as outras espécies que vivem no nosso planeta - e o planeta em si - ou a raça humana será exterminada. A matemática é simples: se os humanos vivem, a Terra morre e com ela toda a rara variedade da vida existente aqui; se os humanos morrem, a Terra vive. No entanto, o que seria um debate entre representantes de mundos distintos, graças à ganância humana, logo torna-se uma corrida contra o tempo para evitar a aniquilação da nossa raça. 

Se Reeves é perfeito para o papel, a bela Jennifer Connelly (Hulk, Réquiem Para um Sonho) parece totalmente deslocada como a cientista que inadvertidamente torna-se o centro da luta pela sobrevivência. A atriz é mal aproveitada, não se exige dela sua entrega habitual, e o resultado é uma personagem fria, o extremo oposto do que a importante personagem exige. Não ajuda a presença de Jaden Smith, filho de Will Smith, como o enteado dela. Na trama os dois representam os pilares de salvação de toda uma raça - mas com gente distante assim, mais lógico mesmo é que nos explodam...

O restante do filme funciona a contento - apesar de um certo esperneio generalizado da crítica, que atribuo ao preconceito ao gênero. O longa refilma o clássico da ficção científica de 1951 de mesmo nome. No original, Klaatu vinha para impedir que a violência humana se espalhasse pela galáxia. Neste o foco ficou mesmo no tema da moda, o ambientalismo (ainda que a violência continue a mesma). A troca é interessante e as atualizações de linguagem, necessárias. Mais de 50 anos depois, a mensagem do filme dirigido por Robert Wise (aqui conduzido por Scott Derrickson, de O Exorcismo de Emily Rose) continua relevante.

Igualmente interessantes são as homenagens ao original. Toda a cena da casa do Professor Barnhard parece transportada no tempo e recriada perfeitamente hoje. O cenário e a dinâmica entre alien e cientista são perfeitos. É a melhor cena do filme e a presença do ator John Cleese como o professor, debatendo logicamente com Klaatu a necessidade da continuidade da raça humana, o ponto alto da produção. Pena que dura tão pouco. 

Outra grande ressalva é o tratamento reservado ao robô gigante Gort. Maior, mais móvel e criado através de computação gráfica, o autômato perdeu sua aura de mistério. Ainda que seu design seja quase idêntico ao original ele simplesmente não é tão ameaçador hoje quanto foi na década de 1950. Também senti falta das explicações sobre o personagem que o filme de 1951 trazia. Além disso, a maneira dos aliens de acabar com o planeta parece um tanto atrapalhada. Devaste tudo para depois reintroduzir espécies? Não seria melhor lançar um vírus que só acabasse com humanos? Não parece muito difícil para uma civilização tão avançada, capaz de singrar o espaço em velocidades inconcebíveis, realizar curas milagrosas e controlar todas as formas de tecnologia, entre outros feitos não menos notáveis.

Pelos detalhes ilógicos e elenco distante, o que poderia ser uma excelente ficção científica acaba apenas acima da média. Pena que nesse ritmo de devastação não teremos mais 50 anos para uma nova refilmagem de O Dia Em Que a Terra Parou. Até lá a humanidade terá se autoextinguido, sem precisar de Klaatus ou Gorts...

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