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O bom pastor

Robert De Niro conta a origem da CIA em seu segundo trabalho como diretor

Marcelo Hessel
15.03.2007
15h00
Atualizada em
21.09.2014
13h23
Atualizada em 21.09.2014 às 13h23

Em seu segundo filme como diretor - Desafio no Bronx (1993) foi o primeiro - Robert De Niro pode se orgulhar: mal se percebem passar as 2 horas e 47 minutos de O bom pastor (The good shepherd, 2006).

O roteiro não-linear de Eric Roth (Forrest Gump), que acompanha quase quatro décadas da vida de Edward Wilson (Matt Damon), contribui. Os vaivéns na linha do tempo seguram o suspense, baseado na história real de James Jesus Angleton, um dos primeiro chefes da agência estadunidense de espionagem, a CIA.

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São dois os momentos-chave. Primeiro, na juventude de Wilson, estudante da universidade de Yale recrutado pelo governo para ser um dos primeiros agentes da então OSS, fazendo a contra-inteligência entre britânicos e alemães no período da Segunda Guerra Mundial. Depois, com a CIA formada, tendo que encarar o seu primeiro revés na fracassada manobra na Baía dos Porcos, na crise cubana de 1961.

Filho de militar respeitado no governo, Wilson fazia parte da elite protestante de Yale, fadada, por herança genética, a seguir os passos patrióticos dos seus antecessores. Já nas reuniões da fraternidade, ele aprende a exaltar valores de hombridade. Um desses valores, porém, a dignidade, lhe custa a vida de solteiro: no primeiro encontro Wilson engravida a irmã de um amigo, Clover (Angelina Jolie), e se vê obrigado a casar com ela.

Mal dá tempo de se conhecerem - é durante a guerra, no meio das informações cruzadas de Londres, que Wilson aprende a distinguir verdades de mentiras, companheiros de traidores. De volta para casa, a sua bagagem é colocada à prova no governo Kennedy: os comunistas descobriram de antemão que os EUA invadiriam o litoral cubano. Wilson precisa descobrir quem delatou a operação, e é esse mistério que norteia o filme.

O Bom Pastor não deixa de ser um título de conotação óbvia. Há um rebanho e um ideal a serem zelados, a sociedade estadunidense e o american way of life. Em nome da liberdade e da democracia, palavras repetidas constantemente nas quase três horas, a CIA atropela privacidades. De Niro adota posição crítica em relação ao exercício da espionagem mas não o condena. Wilson, como retratado, é uma espécie de mártir sobrevivente: abriu mão da vida pessoal, da proximidade com o filho, de ter um amor de verdade, para tocar adiante a sua missão.

O problema mais grave do filme - que, de modo geral, consegue suspender o mistério até o fim - é mastigar esses conflitos de ordem psicológica sem deixar que o público os digira por conta própria. Há um par de coadjuvantes inseridos no roteiro apenas para verbalizar as questões que o espectador estaria fazendo a si mesmo: "Wilson, é isso que você deseja para a sua vida?", escuta o personagem de Damon mais de uma vez.

Dá para ver que De Niro admira a trajetória da formação da CIA. Ao apontar os percalços na construção da agência, ele engrandece os homens que resistiram a esses percalços. É um caminho para chegar à mitificação. Só não precisava tratar a audiência como se o pastor fosse ele e o rebanho fôssemos nós.