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O Beijo no Asfalto | Murilo Benício fala da sua estreia na direção

Ator pagou filme de R$ 1 milhão do próprio bolso

Rodrigo Fonseca
05.01.2016
18h30

Nas brechas das gravações de Nada Será Como Antes, uma série de TV ambientada na década de 1950, com estreia prevista para o segundo semestre na Rede Globo, Murilo Benício corria para uma ilha edição tentar dar ordem, vida e poesia às primeiras imagens que gerou como cineasta: O Beijo no Asfalto, longa-metragem hoje em fase de montagem, é o primeiro trabalho do astro como realizador. E o próximo, Pérola, com base em texto teatral de Mauro Ras (1949-2003) já está a caminho. Considerado um dos mais populares atores do país, com novelas de popularidade em todas as latitudes do país como O Clone (2001), A Favorita (2008) e Avenida Brasil (2012) no currículo, Benício estreia como diretor filmando a peça homônima de Nelson Rodrigues (1912-1980), encenada pela primeira vez em 1961, com foco em um suposto escândalo de temática homossexual envolvendo um bancário recém-casado (interpretado por Lázaro Ramos) que beijou um moribundo desconhecido. Filmou tudo em 11 dias, em preto e branco e com um orçamento de R$ 1 milhão de seu próprio bolso, misturando à trama cenas dos bastidores, imagens de camarim e até uma leitura do texto conduzida pela diva Fernanda Montenegro, que encomendou o texto ao dramaturgo 56 anos atrás.

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Minha busca aqui era ter Nelson, numa leitura das mais simples possíveis, sem edição, sem mexer numa vírgula, à procura de uma linguagem minha”, diz Benício, que concentrou as filmagens em um teatro no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Iserj), na Tijuca, fazendo só três externas, na Lapa, no Cais do Porto e nas imediações do Centro carioca. “Há uns dez anos eu ganhei um prêmio de edital para fazer esse filme. Porém, por conta das reviravoltas da economia, num ano em que muitos filmes foram contemplados, acabaram me tirando mais de 50 % do orçamento, o que me obrigava a correr atrás de patrocínio. Mas eu me sinto mal pedindo dinheiro e não tenho talento de produtor. Por incentivo da Débora Falabella [atriz e mulher do ator], resolvi investir do meu próprio bolso. E, como o dinheiro é meu, eu pude fazer da forma mais autêntica possível, sem o controle de ninguém, aberto às opiniões da equipe. A ordem no set era: ‘A melhor ideia leva. Todo mundo fala. Eu posso até dizer ‘não!’, mas só depois de escutar o que a equipe acha’Quando entra o olho do empresário regulando a criação, a arte fica opaca. Eu queria começar na direção de outra forma: sendo o mais livre possível para expressar a minha visão” 

Combinando sua necessidade de contar histórias à precisão das lentes do fotógrafo Walter Carvalho, Benício fez um experimento próximo ao que um de seus ídolos, o ator Al Pacino, realizou em seu longa de estreia como diretor, Ricardo III – Um Ensaio (1996), ou seja: mesclou o tempo dramatúrgico com intervenções da encenação, numa metalinguagem que não trai o enredo de Nelson.

Existe uma ambientação próxima dos anos 1970, mas há cenas em que você pode ver ônibus atuais passando na rua, porque eu não quis construir tudo, para não ser teatro filmado. A força da história diminui qualquer possível estranheza. É como uma dessas trupes teatrais que fazem teatro de época na rua e você não nota que está diante de uma ambientação grega ou medieval. O teatro fala em códigos. Tentei levar esse código para o cinema”, explica Benício, cujo vigor cênico nas telonas nos anos 1990, em filmes como Os MatadoresO Monge e a Filha do Carrasco inspiraram uma tese mais tarde transporta em um livro obrigatório para estudantes de audiovisual: Voo Cego do Ator no Cinema Brasileiro, de Nikita Paula. “Atuando... e agora dirigindo, eu busco a autenticidade da emoção”.

Na peça de Nelson (e no filme de Benício), um homem atropelado por um ônibus é socorrido por Arandir, mas, em seu último sopro de vida, só tem fôlego para pedir um beijo a seu (quase) salvador. A bitoca é flagrada pelo sogro de Arandir, Aprígio, e pelo repórter policial Amado Ribeiro, que publica o ocorrido numa manchete que denigre a masculinidade do personagem de Lázaro. Para viver a sonhadora mulher de Arandir, Selminha, Benício escalou sua própria companheira de vida: Débora Falabella, e trouxe a atriz Luiza Tiso para viver a cunhada de seu protagonista: Dália. Aprígio foi confiado a Stênio Garcia e Amado entregue a Otávio Muller. Talento do humor nos placos,Gustavo Madeira pede licença à comédia e encarna o Delegado Cunha enquanto Marcelo Flores vive o comissário Barros. Fernandona interpreta a vizinha, comentadora dos fatos.  

Encontramos um equilíbrio muito bonito entre todo o elenco, que eu estou tenando manter agora na montagem. Saí muito feliz desta experiência com O Beijo no Asfalto porque, independentemente de como o filme possa ficar, ele me permitiu contribuir para que os meus atores chegassem a novos lugares na atuação. Tenho a sensação de que meu maior talento como diretor é saber dizer a um ator algo que o faça sentir bem. E, no nosso cinema, uma das maiores deficiências é a carência por diretores de ator. E agora, estou respeitando os diretores muito mais do que já respeitava”, diz Benício, nascido em Niterói há 44 anos e revelado na TV na novela Fera Ferida, de 1994, como o politizado Fabrício.

Prestes a voltar às telonas à frente do esperado longa Animal Político, de Gabriela Amaral Almeida, o ator fechou 2015 gravando Nada Será Como Antes sob a direção de José Luiz Villamarim, hoje um dos diretores maior prestígio da TV brasileira, responsável por sucessos como Avenida Brasil (2012, codirigido por Amora Mautner) e Amores Roubados (2014). Benício participou de ambos e já trabalhou com Villamarim outras vezes, a começar do remake de Irmãos Coragem, exibido em 1995.

Ali, o Murilo já dava sinais de querer dirigir, já demonstrava essa vontade.”, lembra Villamarim. “Murilo tem algo que ajuda muito um diretor: conhecimento cinematográfico. Ele é um cinéfilo. E resolveu passar pela experiência de dirigir dialogando com algo que ele entende muito: o ofício de atuar. Estrear na direção passando por essa discussão de algo que ele faz e fez pode ter dado a ele maior segurança. Com o talento que tem, ele deve ser um bom diretor de atores”.

Essa impressão de Villamarim se confirma no relato de Walter Carvalho, que fotografou O Beijo no Asfalto: “O Murilo consegue levar seus atores a um ponto perigoso da curva da interpretação onde você é capaz de desestabilizar um personagem para buscar uma verdade. É um risco, mas é corajoso. E Murilo tinha criatividade, persistência e segurança para isso”, elogia Carvalho, que fotografou alguns dos mais importantes filmes brasileiros dos últimos 20 anos, como Central do Brasil (1998), Lavoura Arcaica (2001) e Amarelo Manga (2002). “Além de tudo, o Murilo teve muito delicadeza ao dirigir a própria mulher, a Débora”.  

Agora, já com a confiança dos pares da classe, Benício corre para tentar inscrever O Beijo no Asfalto nos grandes festivais de cinema internacionais, como Cannes e Locarno. E, na depuração de seu primeiro rebento fílmico, já sonha com Pérola, em como realizar uma travessia da peça de Mauro Rasi do teatro para o cinema, com foco numa realidade de classe média mexida pela construção de uma piscina.

Quando eu li O Beijo pela primeira vez, há anos, veio à minha cabeça um filme inteiro, pronto. O mesmo aconteceu quando eu assisti a uma montagem de Pérola, a convite do Rasi, de quem eu fui muito amigo. Tinha 20 anos quando ele me chamou para fazer a peça As Tias e eu fui ver Pérola com Vera Holtz brilhando em cena. Pensei: ‘Isso dá um filme, fácil’. Sempre vi cinema ali. E chamei a [também dramaturga e escritora] Adriana Falcão para adaptar comigo. Quero muito fazer com a Vera. Só será com outra pessoa se a Vera deixar. Mas a escolha deste projeto, assim como O Beijo, não indica que eu só filmarei peças. Escolhi estas histórias porque elas me comoveram e podem ainda emocionar as pessoas”, diz Benício, que este ano vai estrela a comédia A Separação“É muito bom também poder fazer algo em que você não precise se levar tão a sério”.